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Os projetos que querem diminuir a desigualdade de gênero e raça na programação

O ‘Nexo’ lista seis iniciativas, resgata a história das mulheres na tecnologia e ouve quais as dificuldades enfrentadas por elas na área

     

    As mulheres são hoje minoria na área de tecnologia e nas maiores empresas do mundo no ramo, como Google e Facebook. No Brasil, a desigualdade começa nos cursos de ciências da computação, onde elas também estão em desvantagem numérica – o Censo do IBGE de 2010 mostra que as mulheres, que são 51% da população brasileira, representam apenas 22% das turmas desse curso no ensino superior.

    algumas iniciativas institucionais para aumentar a presença feminina nas empresas de tecnologia. E há, também, coletivos de mulheres que têm se mobilizado nos últimos anos para combater a desigualdade de gênero e raça nesse meio. O que a maioria deles faz é ensinar, do zero, mulheres a programar.

    6 iniciativas de mulheres para mulheres, no Brasil e no mundo

    Black girls code

    Fundada pela engenheira elétrica americana negra Kimberly Bryant em 2011, a organização realiza workshops e programas em escolas com o objetivo de dar lições introdutórias de programação e design de games a meninas e jovens negras. Atua em sete estados americanos e em Joanesburgo, na África do Sul.

    Pretalab

    Projeto da Olabi, “empresa social” do Rio de Janeiro que busca descentralizar a produção de tecnologia, foi lançado em março de 2017. Trata-se de um mapeamento colaborativo de mulheres negras e indígenas na tecnologia que pretende “coletar as histórias e desafios” enfrentados por elas, “tornando visíveis essas trajetórias e estimulando que outras considerem esse universo como uma possibilidade”.

    Em entrevista ao Nexo, a coordenadora do Pretalab, Sil Bahia, reforça a importância de um olhar para a tecnologia que considere a intersecção entre gênero e raça já que “mulheres não são todas iguais e que as mulheres negras não têm tantas oportunidades quanto as brancas”. O propósito da Pretalab é gerar dados para fomentar essa discussão. 

    Minas programam

    Ativo desde 2015, o projeto organizado por cinco mulheres realiza atividades, oficinas e debates em São Paulo e no Rio de Janeiro sobre tecnologia e gênero voltados para mulheres, além de oferecer um curso de introdução à programação. “O objetivo é mostrar para as mulheres que o mundo da tecnologia deve ser ocupado por elas”, disse ao Nexo Barbara Paes, uma das criadoras do projeto. Segundo Paes, elas têm buscado ampliar a discussão e dar atenção especial para a ausência de mulheres negras no setor.

    PrograMaria

    Também de 2015, o grupo de designers e jornalistas debate tecnologia e gênero e ensina códigos para mulheres. O curso “Eu Programo”, um intensivo de programação, já está na terceira turma. Há uma série de materiais educativos sobre tecnologia de computação disponíveis no site.

    Code like a girl

    A organização australiana oferece workshops, conferências e também uma base de dados que conecta empregadores e profissionais mulheres da área de tecnologia. Segundo o site do Code like a girl, as mulheres correspondem a menos de um quinto da força de trabalho na área de tecnologia da informação no país.

    Girls who code 

    Fundada pela advogada e política Reshma Saujani, a organização americana de atuação nacional afirma, em seu site, que seu objetivo é erradicar a desigualdade de gênero na tecnologia. Para isso, oferecem cursos extracurriculares de programação para meninas da sexta série ao ensino médio e programas intensivos de verão.  Começou com algumas dezenas de garotas em Nova York e agora são 40 mil em 50 estados do país, segundo o site.

    Ser uma profissional mulher na área de tecnologia hoje

    Em entrevista ao Nexo, uma das organizadoras do Minas Programam, Marylly Silva, que também atua profissionalmente na área, respondeu a duas perguntas:

    Como você percebe o lugar ocupado pelas mulheres na indústria da tecnologia?

    Marylly Silva Percebo ainda uma existência muito tímida [de mulheres no meio]. Ainda somos uma ou duas trabalhando em equipes, projetos e empresas onde a grande maioria é de homens. É um espaço muitas vezes batalhado para ser ocupado. Se não existir persistência de nossa parte, isso passa despercebido com facilidade pela falta de apoio e incentivo.

    Como é ser uma ‘mina que programa’?

    Marylly Silva É algo difícil, principalmente nos relacionamentos com outros profissionais homens. Sempre há distinção de gênero em relação às habilidades técnicas. Nosso trabalho é sempre esperado de forma parcial em relação a profissionais homens, precisamos ficar nos provando a todo momento para mostrar que temos domínio do nosso trabalho, que sabemos o que estamos fazendo. Enquanto, às vezes, profissionais homens nem são questionados sobre suas expertises. É uma rotina de afirmação recorrente conosco, nossa autoestima e a vontade de pertencer a este universo, à empresa, ao ambiente e às pessoas que trabalham conosco.

    Mulheres na história da programação

    Quando a computação começou a dar seus primeiros passos, na primeira metade do século 20, o desenvolvimento do hardware, que consiste nas partes físicas do computador, era considerado um serviço masculino. Já o software, que indica ao hardware, por meio de linguagem de programação, como realizar tarefas, era “serviço de mulher”.

    As mulheres foram pioneiras na pesquisa e criação de linguagem de programação, quando o campo, ainda incipiente, não tinha prestígio nem era bem remunerado.

    Mas, com o surgimento dos computadores pessoais em meados da década de 1980, à medida que a indústria da tecnologia se tornou um negócio milionário, os homens dominaram a programação, e as programadoras ficaram de fora, segundo uma reportagem do site Timeline. 

    Esse processo abriu um fosso de desigualdade entre homens e mulheres no campo da tecnologia que perdura até hoje,  nos salários, cargos e na ideia de que programar não é “coisa de mulher”.

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