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Quais os limites da arte, segundo três especialistas

Na sequência dos debates motivados pela exposição Queermuseu, o ‘Nexo’ ouve a opinião dos curadores Solange Farkas, Marcello Dantas e Baixo Ribeiro

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    Os usos e limites da arte ficaram no centro da conversa no início de setembro de 2017 por causa da campanha online que resultou no cancelamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre. Ativistas e políticos religiosos e conservadores acusaram a mostra, patrocinada pelo banco Santander, de exibir obras que promovem a pedofilia e a zoofilia e que desrespeitam símbolos religiosos.

    Na esteira desse acontecimento, textos e discussões tomaram conta da imprensa e das redes sociais sobre significados e sentidos da arte. Entre os comentários, há muitos que defendem controle e censura para  produções artísticas, com a alegação de que não se deve permitir expressões que ofendam pessoas e crenças.

    A semana que se seguiu registrou outras duas ações contra espaços artísticos. Em Brasília, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) foi checar a exposição “Não Matarás”, no Museu Nacional Honestino Guimarães, para averiguar informações de que ela abrigava “conteúdo semelhante a do Santander Cultural”. O deputado ficou satisfeito com o que viu e ouviu do diretor do museu, Wagner Barja, e considerou as denúncias infundadas. “Não havia apologia a crime nenhum", declarou Feliciano em sua página no Facebook.

    Em Campo Grande (MS), deputados estaduais registraram queixa na polícia contra a artista plástica Alessandra Cunha por conta de obras que fariam “apologia à pedofilia”. Os trabalhos estão expostos no Museu de Arte Contemporânea da cidade. Os parlamentares destacaram a obra chamada “Pedofilia”, segundo a artista uma denúncia contra a pedofilia. A polícia civil apreendeu o quadro. Os deputados defendem a inclusão da artista no cadastro estadual de pedófilos.

    O Nexo convidou três especialistas para opinar sobre algumas destas questões.

    • Solange Farkas, curadora e diretora do Videobrasil
    • Marcello Dantas, curador e diretor da Magnetoscópio
    • Baixo Ribeiro, fundador da galeria Choque Cultural

    Qual a importância da transgressão e da provocação na arte? Ele deve ter limites? Quais seriam e por onde deveriam se pautar?

    SOLANGE FARKAS A arte é um exercício contínuo de transgressão, principalmente a partir das vanguardas do começo do século 20. Isso dá a ela uma importância social muito grande porque, ao transgredir, ela aponta para novos caminhos e para soluções que ainda não tínhamos imaginado para problemas que muitas vezes sequer conhecíamos. A seleção dos trabalhos dos artistas para a próxima edição do festival [Videobrasil], por exemplo, me fez ver que os artistas estão muito antenados com as diversas crises que estamos vivendo e oferecem uma visão inovadora para o nosso cotidiano e acho que isso é um bom exemplo.

    MARCELLO DANTAS O papel da arte é abrir a cabeça das pessoas. Permitir novas ideias, proporcionar reflexão, imagem e revelar algo do inconsciente coletivo. Para isso ela precisa necessariamente existir no território do inexplorado, do desconhecido, da originalidade e do inominável. Esse território nunca pode ser alcançado se a arte for mantida em um cercado conceitual, onde está pré definido o que pode e o que não pode. A arte é sobre o que não sabemos e por isso deve poder ser transgressora, indefinida, incompreendida, subjetiva. Sociedade que não tem isso é uma sociedade pobre, sem alma e sem potencial criativo. Incompreendido hoje pode ser o gênio de amanhã. Uma sociedade sem transgressores é uma sociedade burra.

    BAIXO RIBEIRO Através da arte, é possível dialogar em níveis que simples conversas não alcançariam. A arte tem a capacidade de quebrar  protocolos, regras e leis. E ainda ser elegante, sutil e sofisticada mas, também, tosca, malcriada ou brega. Não existem limites estéticos. Se percebermos a existência de um limite, é bom que exista uma arte que venha ultrapassá-lo. Faz parte da natureza da sociedade possuir elementos que queiram preservar a ordem e seus antagonistas, que queiram transformá-la. Geralmente o espírito da provocação é excitado  por uma sensação de conformismo que tome conta do ar, a subversão é mais intensa quando as leis são mais opressivas, a transgressão é mais legal quando a lei não é legal. Acho que deve haver sempre uma tensão entre essas partes, mas não acho tão importantes estabelecer limites e, sim, procurar equilíbrios

    Diante de uma obra que desagrada, é comum as pessoas dizerem "isso não é arte". É possível traçar parâmetros do que é ou não é arte?

    SOLANGE FARKAS Falando do caso do Queermuseu eu reitero aqui o manifesto do Conselho Internacional de Museus, do qual sou associada. Eles fizeram um manifesto sobre essa questão que fala que o museu pode ser um mediador de conflitos atuando nas grandes questões que incomodam a sociedade, que distanciam os povos. Abrir-se a um conflito não significa nele mergulhar de forma passiva, significa, sim, lutar contra todo tipo de desigualdade, viver o incômodo de posicionar-se em momentos de pressão, de buscar um lugar de gestor do conflito, tentando compor entre realidades diametralmente opostas. Embora não tenha autoridade absoluta para dizer o que é ou não arte, e isso nem seria desejável, os museus e outras instituições culturais podem fornecer às pessoas parâmetros possíveis para que elas mesmas entendam o que é ou não relevante como arte, tanto para cada um como para a sociedade como um todo. Uma instituição cultural tem que assumir sua posição de fomentar esse diálogo e furtar-se a isso é negar a sua própria razão de existir.

    MARCELLO DANTAS Arte é uma definição subjetiva. Mas o que define arte pra mim é o que me faz exatamente questionar o que é arte, ou onde está ela inserida na dinâmica de um artista. Arte é o processo de descoberta e de encontro entre a poética expressada e a poética compreendida.  Essa química tem leis muito dinâmicas e portanto não pode ser pré-definida.

    BAIXO RIBEIRO Uma exposição aberta ao grande público é diferente de um evento pequeno e voltado a pessoas de um grupo mais homogêneo. No caso dos eventos menores, pode haver mesmo maior radicalização nas teses, porque certos assuntos já estão previamente conversados. No caso de exposições com grande circulação de público deve mesmo existir um cuidado a mais com os símbolos que representam coletividades porque os discursos ofensivos acabam gerando reações incontroláveis que sempre travam o diálogo. Então, respondendo à segunda e terceira questões [abaixo], não acho que se deva proibir nada, mas deve se ter bom senso nas abordagens e respeito ao público e seus símbolos. Para enriquecer o diálogo, é necessário saber escutar e saber que se você está ofendendo alguém tem que saber ouvir o troco. E se você agride um símbolo, está automaticamente ofendendo uma coletividade toda e a reação pode ser muito amplificada.

    Existem riscos para a liberdade de expressão quando se busca bloquear obras de arte em nome de preceitos morais ou religiosos?

    SOLANGE FARKAS A liberdade de expressão não deve servir como desculpa para perpetrar violências, muito menos contra pessoas e grupos que não possuem meios para se defender. Mas isso não é o caso de religiões solidificadas institucionalmente ou de imperativos morais promovidos pelos detentores do poder. Nesses casos, o ataque da obra de arte é mais um chamado à reflexão do que uma violência eficaz, e é benéfico para toda a sociedade que a arte possa, de um lugar independente, criticar o que se pretende intocável.

    MARCELLO DANTAS O que está em jogo no Brasil neste momento não tem nada a ver com arte. O Brasil costumava se vangloriar de ser um país tolerante, sincrético, e plural. Contudo um grupo de assaltantes está tentando tomar conta do país.  E parte desse processo está em colocar na defensiva aqueles que poderiam ser as forças antagônicas a esse projeto de poder. São ações orquestradas para desestabilizar e enfraquecer as possibilidades de oposição e reflexão. E a tomada de assalto ao território simbólico da cultura e suas instituições têm muito mais a ver com essa dinâmica de desviar a atenção para algo com aparência de emergente e enquanto isso fazer algo do interesse deles acontecer. Foi a mesma coisa no episódio da cura gay. Ninguém em sã consciência acredita que essas pessoas que se dizem religiosos estão realmente preocupados com pedofilia. Na história, pedofilia tem sido quase um monopólio da própria igreja. O impressionante nesse jogo é ver corporações e instituições sérias se sentirem acuadas diante de uma pressão tão obviamente manipuladora como essa e sem base alguma na história da cultura. A qualidade da arte censurada é de fato muito elevada e não tem nenhuma justificativa cultural ou artística para ser vetada. Estamos diante de um jogo de poder e a única alternativa é ir além da defensiva e partir para o ataque a hipocrisia desses que roubam milhões, perdoam estupros e se mobilizam para fechar museus. Onde está a moral nessa história?

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