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Como a representação feminina nos bancos de imagens virtuais está mudando

Imagens genéricas usadas por sites, blogs e campanhas publicitárias estão incorporando uma nova ética

    As imagens, boa parte delas disseminadas hoje pela internet, moldam nossa visão de mundo e são, ao mesmo tempo, um produto dela. A busca de imagens em ferramentas como o Google, cujos resultados decorrem de algoritmos, reforça uma ideia restrita de beleza feminina, segundo a qual uma mulher bonita é necessariamente jovem e branca.

    Além disso, nos bancos de imagens, depósitos on-line de fotografias e ilustrações, pagos ou livres, que alimentam blogs, sites de notícia e conteúdos publicitários, boa parte das representações de mulheres consiste – ou consistia, até pouco tempo atrás – em fotos sexualizadas, orientadas por um padrão de beleza único, e que reafirmam estereótipos femininos. É difícil, por exemplo, encontrar fotos de mulheres representando profissões tidas como masculinas.

    A foto mais vendida em 2017 para o termo de busca “mulher” pelo Getty Images, um dos principais serviços pagos desse tipo, porém, indica uma mudança na representação. Trata-se de uma mulher sozinha, da qual mal se pode ver o rosto, fazendo trilha no topo de uma montanha.

    Em 2007, dez anos antes, a mais vendida para o mesmo termo havia sido a foto de uma mulher branca deitada de barriga para baixo e sem roupa sobre uma cama, com uma toalha cobrindo a metade inferior de seu corpo, segundo compara uma reportagem do jornal The New York Times publicada no dia 7 de setembro.

    Ao longo da última década, as imagens mais vendidas de mulheres evoluíram de fotos que contavam em sua maioria com modelos nuas para fotos que retratam mulheres ativas, nas quais a aparência não é o foco, mas sim o que a mulher está fazendo, disse Pam Grossman, diretora de tendências visuais do Getty Images, ao New York Times. 

    De onde vem a mudança

    Nos últimos anos, o empoderamento feminino se tornou um conceito cada vez mais vendável para as marcas, que também passaram a ficar mais atentas, de modo geral, à repercussão negativa que o uso de uma imagem estereotipada poderia trazer. 

    Em consonância com essa tendência, surgiram iniciativas com o objetivo de diversificar os próprios bancos de imagens. Uma delas, que tem a ver diretamente com a evolução da imagem feminina no Getty Images, é uma parceria de 2014 do serviço com a LeanIn.org, organização da executiva americana Sheryl Sandberg, autora do livro “Faça Acontecer”, em que defende que mulheres assumam mais postos de liderança.

    A parceria resultou em uma coleção de imagens, batizada de Lean In Collection, que conta com 14 mil fotos de mulheres e meninas representadas em posições de liderança ou de parceria igualitária. O slogan implícito colocado por ela é “você não pode ser o que não pode ver”.

    Em agosto de 2017, foi lançado o TONL, um banco de imagens pago que nasceu tendo a diversidade como princípio norteador. Seus fundadores são dois americanos de ascendência africana.

    A primeira iniciativa do gênero no Brasil também foi lançada em 2017. O Mulheres InVisíveis é um banco de imagens que traz mais de 100 fotos produzidas pela agência 65|10 em parceria com o coletivo Catsu Street, que faz produção e fotografia de moda com a preocupação de representar mulheres negras sem estereotipá-las.

    A ideia do serviço é “dar visibilidade para mulheres negras, gordas, lésbicas e trans nos castings e escolhas de imagens dos clientes”, disse Thais Fabris, uma das fundadoras da 65|10, ao site Meio e Mensagem. O serviço também é pago.

    Os limites do avanço

    Apesar de a coleção Lean In do Getty Images mostrar mulheres em papéis ativos e homens que compartilham com elas tarefas em pé de igualdade, as fotos mais típicas seguem um padrão tradicional de aparência.

    A maioria é de mulheres brancas, de cabelo longo e castanho, que aparentam ter entre 24 e 29 anos – há, para cada mulher negra representada na coleção, cinco mulheres brancas.

    Já os homens são, em grande parte, musculosos e usam barba, segundo um estudo realizado por pesquisadores no Digital Methods Initiative, centro de pesquisa localizado em Amsterdã que é um dos principais centros europeus de pesquisa sobre a internet. Essas são as mais usadas para ilustrar artigos sobre comportamento e estilo de vida.

    A diretora de tendências visuais do Getty Images, Pam Grossman, diz que não basta que as empresas se preocupem com a diversidade ilustrada em campanhas e projetos se não derem oportunidades a pessoas de diferentes origens sociais, identidades de gênero e raças.

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