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As ideias novas são cada vez mais raras? Este estudo diz que sim

Indústria nos EUA precisa contratar cada vez mais pesquisadores para obter o mesmo nível de crescimento, indicando crise na criatividade

    A cada 13 anos os Estados Unidos precisam dobrar o número de pesquisadores para conseguir manter o mesmo nível de desenvolvimento em suas indústrias. Os números indicam que a criatividade vive uma queda constante desde a década de 1930, e por isso é preciso ter cada vez mais gente trabalhando para compensar a “crise de ideias”.

    A conclusão é de três pesquisadores da Universidade de Stanford e um do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), que publicaram em conjunto a pesquisa “Está mais difícil ter ideias?”.

    Os acadêmicos partem do princípio de que a inovação é o motor do crescimento econômico de uma indústria. Essa inovação seria atingida quando pesquisadores têm novas ideias, que dão origem a novos produtos respondendo a novas demandas. Quando não há criatividade, não há crescimento.

    Os pesquisadores analisaram três indústrias específicas do país — a de semicondutores, a agrícola e a da medicina. Eles então identificaram que o nível de crescimento anual das três permaneceu constante nas últimas décadas, ao passo que o número de pesquisadores em cada uma cresceu de forma exponencial.

    A equação entre produtividade e mão de obra

    Em 1957, o economista americano Robert Solow criou a equação do crescimento econômico. Segundo ele, o crescimento é o resultado da multiplicação entre a produtividade das pesquisas e o número de pesquisadores trabalhando em uma determinada indústria.

    Um exemplo tradicional é a indústria de semicondutores. Esse é o material responsável pela capacidade de armazenamento de microchips. O desenvolvimento contínuo dessa indústria permite que microchips de mesmo tamanho consigam armazenar cada vez mais dados, ao receber um número cada vez maior de semicondutores — o dobro a cada dois anos.

    Os acadêmicos identificaram que, da década de 1970 para frente, a indústria manteve um crescimento de 35%, enquanto o número de pesquisadores responsáveis por permitir esse crescimento aumentou em mais de 18 vezes.

    Se o nível de criatividade fosse constante, ou seja, se os pesquisadores conseguissem ter ideias na mesma quantidade ao longo do tempo, não seria necessário aumentar o número de mão de obra criativa na indústria para manter o mesmo crescimento. Como a criatividade está em falta, é preciso trazer mais trabalhadores.

    Crise de ideias é generalizada

    Os autores sugerem que a falta de criatividade não é só na indústria de semicondutores, mas generalizada, ao aplicar aos ramos da agricultura e da medicina a mesma lógica de “crescimento versus número de pesquisadores”.

    Entre 1960 e 2010, uma mesma quantidade de terra conseguiu produzir mais milho, algodão, soja e trigo em níveis geralmente constantes. Isso significa que, a cada ano, a produtividade subiu entre 2% e 4% nos campos dos EUA.

    Ao mesmo tempo, o número de pesquisadores dedicados a permitir esse crescimento aumentou pelo menos seis vezes em cada uma delas. No caso do milho e da soja, por exemplo, foi preciso 24 vezes mais especialistas para manter o mesmo aumento de produtividade.

    As causas da seca de ideias

    Os autores não vão muito longe nas especulações de por que está mais difícil ter boas ideias. Eles sugerem que talvez as grandes empresas, responsáveis pela maior parte da inovação em seus ramos, passaram ao longo do tempo a investir em formas de otimizar os produtos que já existem, diminuindo seus preços, em vez de criar produtos novos.

    Um exemplo, nesse caso, são as críticas ao novo iPhone, da Apple. As principais inovações do celular lançado em 2017 são o reconhecimento facial e o carregamento sem fio, tecnologias que já existiam em outros celulares. Para alguns críticos, a empresa precisa criar um novo aparelho, e não melhorar o que já tem.

    Outra alternativa explorada é que a queda nos investimentos públicos americanos em pesquisas de base tem, como reflexo, uma menor capacidade de inovação no outro lado da corda — as pesquisas de ponta. Menos pesquisas sobre como as células funcionam, por exemplo, pode resultar em uma menor capacidade de criar novas formas de combater o câncer.

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