Por que sair do Brasil é um problema para 3 dos 4 presidentes vivos da CBF

Novo presidente da Fifa é alvo de acusações de abuso de poder e volta a colocar a entidade sob suspeita. No Brasil, chefe da principal entidade do futebol não deixa o país desde 2015

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    Na quarta-feira (13), o presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi acusado por duas pessoas diferentes, em situações diferentes, de abuso de poder. O principal dirigente do órgão que controla o futebol mundial teria atuado para tentar evitar punições a outros dirigentes que agiram contra as regras da entidade.

    As acusações contra Infantino trazem novas dúvidas sobre a idoneidade da Fifa. O suíço foi eleito em 2016 para “renovar” a entidade depois de seu antecessor, Joseph Blatter, ser banido da instituição por seis anos acusado de envolvimento com corrupção.

    Se a Fifa volta a conviver com a desconfiança da opinião pública, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) lida com isso há mais tempo. Dos quatro dirigentes que já ocuparam o cargo de presidente da entidade e ainda estão vivos, três deles são acusados de crimes em outros países — Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. Marin está preso e os outros dois não podem viajar.

    O único que não entra na lista é o Coronel Nunes, que assumiu a CBF durante a licença de Del Nero em 2016. Antes de ser vice-presidente da entidade, era dirigente de futebol no Pará e não tinha histórico de envolvimento com futebol internacional como seus antecessores.

    O ‘caso Fifa’ de 2015

     

    Em 2015, os EUA expediram diversos mandados de prisão contra dirigentes de futebol e empresas de vários países acusados de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro. As investigações eram do FBI e haviam sido mantidas em segredo por três anos. Desde aquele ano, as lideranças da CBF não fazem viagens internacionais.

    Em maio de 2015, durante uma reunião na sede da Fifa na Suíça, a polícia local cumpriu mandados de prisão contra diversos dirigentes presentes a pedido dos EUA. José Maria Marin, então presidente da CBF, era um deles e foi preso.

    Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, estava com Marin. Ele ainda era o vice-presidente da confederação. No mesmo dia que seu superior foi preso, pegou um vôo de volta para o Brasil. Assumiu o comando da CBF e nunca mais deixou o país para representar a instituição que preside.

    Por não sair do país, Del Nero já deixou de representar a CBF em reuniões, votações e eventos da Fifa e da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol). O Brasil não votou, por exemplo, na eleição de Infantino, em 2016, por esse motivo.

    Ricardo Teixeira também teve seu nome envolvido na investigação e, por isso, em 2015, também não pôde fazer viagens internacionais.

    Ricardo Teixeira, presidente da CBF entre 1989 e 2012

    Acusação

    Tem mandado de prisão expedido pelos EUA no “caso Fifa”, acusado de fraude, lavagem de dinheiro e corrupção. Teixeira teria recebido dinheiro para beneficiar a Nike em acordo de patrocínio fechado com a seleção brasileira em 1996, além de receber subornos em contratos de campeonatos internacionais. Em julho de 2017, passou a ter pedido de prisão também na Espanha, onde é acusado de se juntar ao ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell e receber comissões ilícitas para realizar amistosos com a seleção brasileira.

    O que ele diz

    Em entrevista à Folha em 2015, Teixeira disse que “não tem lógica” ser acusado de corrupção. Ele nega todas as acusações e diz que não há provas contra ele.

    José Maria Marin, presidente da CBF entre 2012 e 2015

    Acusação

    Marin teria concordado em receber US$ 110 milhões da empresa de marketing esportivo Datisa para favorecê-la em acordos de exploração comercial em campeonatos regionais brasileiros. Ele também teria recebido subornos, ao lado de outros dirigentes sul-americanos, para beneficiar empresas em acordos de marketing da Copa do Brasil, Libertadores e Copa América.

    O que ele diz

    Ao chegar como extraditado nos EUA, em 2015, Marin se declarou inocente. Pagou fiança de R$ 57 milhões, em valores da época, e teve direito a prisão domiciliar, a qual cumpre em seu apartamento na Trump Tower, em Nova York. Em 2017, voltou a se declarar inocente. Ele será julgado em 6 de novembro nos EUA.

    Marco Polo Del Nero, presidiu a CBF entre 2015 e 2016 e desde 2016

    Acusação

    Nos EUA, Del Nero é acusado de conspiração, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica. Ele também teria recebido propinas para beneficiar empresas de marketing em competições como Copa do Brasil e Libertadores.

    O que ele diz

    Segundo o Globoesporte.com, Del Nero diz que "não existe nem existirá" qualquer prova que o incrimine. Ele diz que toda nova acusação "é a mesma noticiada desde 2015, sem nenhuma novidade".

    O FBI afirma que tem como provar o envolvimento dos três dirigentes brasileiros nos crimes de que são acusados, mas até agora os documentos não foram apresentados ao público. O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, aliado de Del Nero, defendeu o presidente em depoimento à CPI da Máfia do Futebol no Senado em 2016.

    “Por que o presidente Marco Polo não viaja? Porque o modelo americano [de investigação] policia o mundo. Qualquer denúncia, prende-se e depois aguarda uma delação. [...] Presidente Marco Polo não viaja porque o sistema de funcionamento de tentativa de delação por parte dos que têm alguma denúncia, mesmo sendo inconsistentes, é assim”

    Walter Feldman

    Secretário-geral da CBF

    Por que eles estão seguros no Brasil

     

    Nenhum nacional brasileiro pode ser extraditado do Brasil, mesmo que tenha mandado de prisão decretado em países com os quais o Brasil tem acordo de extradição. Esses acordos só valem para o caso de um estrangeiro procurado estar em território brasileiro e ser encontrado pelas autoridades nacionais.

    Essa é a lógica adotada em quase todos os países do mundo. Por isso, Teixeira e Del Nero não podem viajar a nenhum outro lugar que tenha acordo de extradição com os EUA — praticamente toda a Europa, América, Oceania, parte da Ásia e da África. Teixeira tampouco pode viajar a locais que tenham o mesmo acordo com a Espanha.

    No Brasil, eles são alvos de investigações pelo Ministério Público, mas como o FBI não compartilha as informações que tem, além da forte influência política da CBF em Brasília, os processos se desenvolvem lentamente.

    A Fifa também os investiga por meio do Comitê de Ética, mas assim como o Brasil, tem seu trabalho limitado pela dificuldade de conseguir informações com o FBI. A Fifa tem o poder de, eventualmente, bani-los do futebol, mas não tem competência para prender ninguém.

    Del Nero só deixaria a presidência da CBF à força caso fosse preso (no Brasil ou fora) ou banido pela Fifa.

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