O que se sabe sobre a delação de Funaro, o operador da cúpula do PMDB

Depoimentos do corretor de valores, preso em 2016, compõem a segunda denúncia criminal preparada contra Michel Temer

    O corretor de valores Lúcio Funaro foi preso em julho de 2016 pela Polícia Federal por suspeitas de envolvimento com desvio de dinheiro público. Quase um ano depois ele demonstrou intenção de confessar e delatar crimes em troca de perdão judicial. Parte do que ele relatou tem servido de base para investigações já em curso contra políticos e deve aparecer também na segunda denúncia criminal contra o presidente Michel Temer.

    O acordo de delação foi assinado no fim de agosto de 2017 e validado pelo Supremo Tribunal Federal na primeira semana de setembro. Desde então, reportagens têm trazido trechos de seus depoimentos, ainda sob sigilo judicial, pelo menos oficialmente. O site Jota publicou nesta quinta-feira (14) 29 anexos da delação do corretor de valores. Anexo é uma espécie de capítulo da delação, com foco determinado.

    Ao Ministério Público Federal Funaro confirmou sua estreita relação com parte da cúpula do PMDB, especialmente com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, e disse ter feito arrecadações ilegais de dinheiro para campanhas do PMDB em 2010, 2012 e 2014.

    R$ 100 milhões

    é o valor que Lúcio Funaro diz ter arrecadado para o PMDB e siglas aliadas em campanhas em três eleições

    Preso no presídio da Papuda, em Brasília, Funaro já esteve envolvido no mensalão, em 2005, quando também atuava como operador financeiro de políticos envolvidos no esquema de compra de apoio ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). No decorrer da Lava Jato, foi pego num dos desdobramentos da investigação, a Operação Sépsis, que apurava fraudes em um fundo de investimento da Caixa Econômica Federal.

    A chegada das investigações até ele, em meados de 2016, decorreu principalmente de suas relações com Eduardo Cunha, de quem era amigo e que tinha influência política na Caixa. A exemplo de Funaro, Cunha também está preso. Os dois também foram alvo da Sépsis, pela qual ambos foram denunciados.

    À época, Funaro era apresentado como o operador e uma espécie de porta-voz do então deputado. Na medida em que novos fatos surgiram, investigadores afirmaram que o corretor trabalhava também para outros integrantes do PMDB, entre eles Michel Temer.

    Antes de fazer sua própria delação, o corretor foi citado no acordo da JBS, que serviu de base para a primeira acusação formal contra o presidente, rejeitada pela Câmara em agosto. Nela, Funaro e Cunha são citados como pessoas a quem o frigorífico “comprava o silêncio”, a pedido de Temer, para que eles não implicassem os peemedebistas na Lava Jato. Quando fez seu acordo, Funaro confirmou ter recebido dinheiro da JBS.

    Abaixo, um resumo dos principais pontos já revelados sobre a sua delação premiada.

    ‘Quadrilhão’ do PMDB

    Os relatos de Funaro a respeito de sua relação com integrantes do partido contribuíram para a elaboração do inquérito que aponta para a existência do “quadrilhão do PMDB”, do qual Temer seria o chefe, segundo a versão do relatório da Polícia Federal. O documento também traz conteúdos das delações da JBS.

    A segunda denúncia criminal contra Temer, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, planeja apresentar em breve, deve somar os depoimentos de Funaro aos relatos dos delatores da JBS, que também fizeram referência à existência de uma “quadrilha do PMDB na Câmara”.

    Além de Temer, segundo a polícia, fazem parte dessa organização criminosa os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência), Eduardo Cunha e os ex-ministros Henrique Alves e Geddel Vieira Lima. Esse grupo, todos ex-deputados federais, usava sua influência na Câmara para obter vantagens indevidas de empresas em troca de favores políticos no setor público.

    Temer afirmou que não participou de “nenhuma quadrilha” e que “insinuações descabidas” tentam atingir sua honra e imagem pública. Os demais peemedebistas também rebatem as suspeitas levantadas pela Polícia Federal.

    Favores políticos, propinas e campanhas

    Desde que assinou a delação, Funaro vem relatando negociações que intermediou em favor de peemedebistas. Aos investigadores, ele teria apresentado planilhas com o detalhamento das operações, contratos e mensagens de texto.

    Temer rechaça as citações feitas por Funaro. Em nota divulgada na quarta-feira (13), o Palácio do Planalto disse que o corretor é “criminoso” e seu depoimento não merece crédito, já que foi feito com objetivo de evitar sua condenação na Justiça.

    Sobre Temer

    Funaro relatou mais de um episódio envolvendo o presidente diretamente. Em um deles, afirma ter buscado pessoalmente R$ 1 milhão pago pela Odebrecht no escritório do advogado José Yunes, amigo de Temer. Funaro também diz que o presidente e Cunha atuaram para alterar o texto de uma Medida Provisória, atendendo a interesses de empresas do setor portuário. Segundo o operador, o presidente também foi beneficiado pelos esquemas de desvios das obras da usina de Angra 3.

    A pedido de Temer, Funaro diz ter feito entrega de dinheiro à campanha de Paulo Skaf, candidato do PMDB ao governo paulista em 2014. Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), afirma que todas as doações recebidas foram declaradas à Justiça Eleitoral.

    Ainda segundo Funaro, parte da propina recebida de repasses da JBS pagou gastos de campanha de Gabriel Chalita pelo PMDB à prefeitura de São Paulo, em 2012, com aval de Temer.

    Sobre o Ministério da Agricultura

    A JBS teria repassado R$ 7 milhões ao grupo do PMDB, em retribuição a mudanças de regras de inspeção e de exportação de alimentos, sob competência do Ministério da Agricultura, na época em que a pasta era comandada por Antônio Andrade (2013-2014), indicado por Cunha.

    Andrade, também do PMDB, é atualmente vice-governador de Minas Gerais, na chapa de Fernando Pimentel (PT). Parte daquele valor foi dada a Temer, na versão do delator, de acordo com trecho publicado pelo site Jota.

    Esquemas no Rio

    Funaro também disse ter envolvimento com irregularidades em planos de saúde e em investimentos da Caixa com o empresário Eike Batista, preso pela Lava Jato no Rio. O empresário teria pago propina para conseguir um financiamento para o Porto do Açu, cujo projeto era realizado por uma das empresas de Eike, a LLX.

    Funaro relatou ainda ter intermediado o repasse de R$ 16 milhões a Cunha e ao presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), em 2014. O montante teria sido pago por Jacob Barata, conhecido como Rei do Ônibus, alvo de operação da Polícia Federal em agosto.

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