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Quem foi Steve Biko e como ele se tornou um ícone contra o apartheid

Preso e morto durante interrogatório policial em 1977 na África do Sul, líder defendia a consciência negra como saída para o apartheid

Há 40 anos, no dia 12 de setembro de 1977, morreu o ativista negro antiapartheid Steve Biko com apenas 30 anos de idade. A notícia de sua morte repercutiu mundialmente. O jornal americano The New York Times se referiu a ele como “provavelmente o jovem líder negro mais influente da África do Sul”, enquanto o inglês The Guardian o classificou como “talvez o único líder sul-africano com poder de reivindicar o apoio massivo dos jovens negros radicais” desde o levante de Soweto, em 1976.

Nelson Mandela, ícone do movimento contrário ao apartheid — regime que dividiu o país em grupos raciais e cerceou direitos a todos com exceção da minoria branca entre 1948 e 1991 —, estava na prisão quando soube da morte de Biko. Apesar de pertencerem a grupos políticos diferentes, Mandela reconheceu a importância do ativista:

“Um dos maiores legados da luta que Biko travou — e pela qual ele morreu — foi a explosão de orgulho entre as pessoas vítimas do apartheid. O valor que a consciência negra colocou sobre a nossa cultura reverberou em nossa terra, nas nossas prisões e entre as comunidades no exílio. Nosso povo, que antes era obrigado a olhar para a Europa e a América para sustento criativo, virou os olhos para a África”

Nelson Mandela

Presidente da África do Sul entre 1994 e 1999

Steve Biko passou a militar contra o regime segregacionista ainda na universidade. Estudante de medicina, formou a Organização dos Estudantes Sul-africanos (Saso, na sigla em inglês) em 1968, exclusiva para negros, divergindo do movimento estudantil predominante que abarcava diferentes raças. Divulgador do slogan “black is beautiful” (o negro é lindo), presente no movimento negro americano e no brasileiro, Biko acreditava que era preciso que os negros libertassem sua consciência e encontrassem sua própria identidade. Para ele, a libertação psicológica precedia a libertação física.

Foto: Reprodução/Steve Biko Foundation
Steve Biko
 

Com sua filosofia, Biko deu origem ao chamado Movimento da Consciência Negra (BPM, na sigla em inglês). Um manifesto de 1971 da Saso explicava a ideia do movimento como “uma atitude da mente, um modo de vida”. “O princípio básico da Consciência Negra é que o homem negro deve rejeitar todos os sistemas de valores que buscam torná-lo um estrangeiro em seu país natal e reduzir sua dignidade humana básica.”

Em 1972, a Saso dá origem a uma organização mais ampla chamada Convenção das Pessoas Negras (BPC). No ano seguinte, a filosofia da consciência negra presente em seus discursos é entendida pelo governo como causadora de “confronto racial” e, por isso, uma ameaça à ordem pública. O ativista é então impedido de passar dos limites de um bairro na cidade de King William, no sudeste do país, e de falar em público com mais de uma pessoa por vez.

Preso e assassinado

Perseguido e ameaçado em vida por suas ideias, Biko ficou também conhecido pela tragédia da sua morte e dos fatos que vieram depois dela.

Steve Biko foi preso no dia 22 de agosto de 1977 em um bloqueio de estrada feito por policiais. O ativista foi levado nu para a delegacia para interrogamento às 9h da manhã. Dentro da sala, Biko recusou a se sentar e foi jogado contra a parede por três policiais. Às 9h30 o interrogatório havia acabado e Biko estava no chão, com lesões no cérebro. Dias depois, sem apresentar melhora, foi levado para um hospital e morreu antes de receber atendimento.

Na época, o governo alegou que o ativista havia morrido de greve de fome. Mesmo após autópsia, que revelou três lesões e hemorragia cerebral, ninguém foi punido pelo crime. Uma multidão foi ao seu enterro, deixando a polícia temerosa de que a morte do ativista negro pudesse provocar novas revoltas como a de Soweto — durante o levante, a população exigiu que três pessoas negociassem saídas para o conflito com o governo: Nelson Mandela, Robert Sobukwe e Steve Biko. A verdade sobre a morte de Biko só veio à tona após a anistia, em 1997 com o depoimento dos policiais em sessão da Comissão da Verdade.

Vida, cinema e música

Após sua morte, foi lançada a biografia “Biko” (1978), escrita por Donald Woods, jornalista inglês e seu amigo pessoal. No mesmo ano, uma seleção dos escritos de Biko foi publicada sob o título “Escrevo o que eu quero”, lançada no Brasil em 1990.

Suas crenças e histórias foram retratadas por diversos músicos como na canção “Steve Biko”, do icônico grupo de rap americano A Tribe Called Quest; e “Biko”, do cantor inglês Peter Gabriel.

O livro de Woods serviu de base para o filme “Um grito de liberdade”, de 1987, que retrata a relação do jornalista com Biko em seus últimos momentos de vida. A produção teve a canção de Peter Gabriel como trilha e Denzel Washington no papel de Biko.

Durante a gravação do filme na África do Sul, o ator encenou um dos discursos de Biko para uma multidão, que contava com locais não relacionados à produção. No fim, a “plateia” o aplaudiu. “Em um primeiro momento eu achei que eles estavam aplaudindo por que eu finalmente havia terminado a coisa toda. Mas eles estavam aplaudindo as palavras de Steve Biko, o que ele pensava sobre discriminação. Foi quando eu me senti mais próximo do que eu estava fazendo ali”, disse.

Cinco escritos de Steve Biko

Abaixo, cinco trechos retirados do livro “Eu escrevo o que quero”, em tradução livre.

“Consciência Negra é uma atitude da mente e um modo de vida, o chamado mais positivo para emanar do mundo negro por um longo tempo. Sua essência é a realização pelo homem negro da necessidade de se reunir com seus irmãos em torno da causa da sua opressão — a escuridão da sua pele — e agir como um grupo para se livrar dos grilhões que os vinculam à servidão perpétua.”

Do capítulo “A busca por uma verdadeira humanidade”

“Ser negro não é uma questão de pigmentação — ser negro é um reflexo de uma atitude mental.”

Do capítulo “A definição de Consciência Negra”

“A lógica por trás da dominação branca é preparar o homem negro para o papel subserviente neste país. Não há muito tempo, isso costumava ser dito livremente no Parlamento, até mesmo a respeito do sistema educacional dos negros. Isso ainda é dito hoje, mas com uma linguagem muito mais sofisticada. Em grande medida, os malfeitores conseguiram produzir no fim da sua máquina uma espécie de homem negro que é homem apenas em forma. Esta é a medida em que o processo de desumanização avançou.”

Do capítulo “Nós, negros”

“Torna-se mais necessário ver a verdade como se você percebesse que o único veículo para mudança são essas pessoas que perderam sua personalidade. O primeiro passo, portanto é fazer com que o homem negro recobre sua consciência para devolver a vida à sua casca vazia, para infundir-se com orgulho e dignidade, para lembrá-lo de sua cumplicidade no crime de se permitir abusar e, assim, deixar o mal reinar supremo no país em que nasceu.”

Do capítulo “Nós, negros”

“Ou você está vivo e orgulhoso ou está morto; e quando você está morto, você não consegue se importar mesmo.”

Do capítulo “Sobre a morte”

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