Como evitar ou lidar com uma ‘bad trip’, sob a ótica da redução de danos

Prática é uma alternativa à ‘guerra às drogas', e busca diminuir problemas associados ao consumo

 

Criado em 2010, o coletivo ResPire Redução de Danos tem como objetivo diminuir os riscos do uso de drogas recreativas legais e ilegais em festas a partir de práticas sob o guarda-chuvas da “redução de danos”.

No campo das drogas ilícitas, esse conjunto de práticas serve como alternativa à estratégia da “guerra às drogas”. O diagnóstico de quem defende sua adoção é de que as restrições legais a substâncias como maconha, cocaína, crack, LSD e MDMA não conseguem acabar com o consumo na prática, assim como os problemas associados a ele.

É necessário lidar com a questão, o que pode envolver informar usuários sobre como diminuir os riscos, assim como auxiliá-los nos casos em que o uso sai do controle. A redução de danos também pode ser aplicada para diminuir o impacto de drogas lícitas.

Uma das coordenadoras do ResPire, a psicóloga Maria Angélica Comis compareceu em setembro de 2017 a uma reunião convocada por organizadores de festas em São Paulo, em que se discutiram estratégias para lidar com o consumo de drogas nesses ambientes.

Em entrevista ao Nexo, ela apontou formas pelas quais frequentadores e organizadores de eventos podem diminuir os riscos em geral, e como lidar com um usuário que passa por uma “bad trip”. “Pessoas nessa situação podem estar assustadas, cambaleantes, pálidas. Frequentemente, têm medo de estar morrendo”, afirma.

Além de participar do ResPire, Comis é autora do trabalho “Crenças atribuídas à opção de não usar MDMA (ecstasy)”, publicado em 2011.

Ela ressalta que o uso de drogas ilícitas e casos de uso abusivo não ocorrem apenas em “raves”, ou seja, grandes festas de música eletrônica, mas também em outros tipos de eventos sociais. E que o onipresente consumo de álcool também precisa ser abordado pela redução de danos.

Se informando e compreendendo as drogas

Uma forma de se preparar para os efeitos de uma droga e saber como lidar com excessos é se informar sobre ela. A psicóloga recomenda o site da instituição sem fins lucrativos Erowid, lançado em 1995. Disponibilizado apenas em inglês, ele oferece dados sobre o efeito desejado e indesejado de substâncias psicoativas, sua duração média e riscos.

Como traz relatos de usuários, a plataforma é uma importante referência em casos de drogas ilegais criadas recentemente em laboratório, para as quais há pouca informação científica disponível.

É importante ter em mente, no entanto, que, por serem ilegais, drogas comuns em situações sociais no Brasil, como maconha, cocaína, LSD e MDMA não têm nenhum tipo de controle sobre sua procedência e qualidade, ao contrário do que ocorre com o álcool. Frequentemente, vendem-se na verdade outras substâncias no lugar.

É comum, por exemplo, que se misturem comprimidos de anfetamina e mesmo fermento químico à cocaína.

Drogas sintéticas vendidas com o nome de “doce”, são geralmente associadas a LSD. As chamadas de “bala”, ao MDMA. Mas, devido a essa falta de supervisão, “doce” e “bala” são na verdade nomes guarda-chuva para uma miríade de substâncias, como os diversos tipos de NBOMe, uma variante da molécula feniletilamina que tem efeitos relativamente similares aos do LSD, mas cuja cultura de uso é nova.

O mesmo vale para o nome “ecstasy”, que é associado ao MDMA, mas que comumente é usado para outras substâncias que podem ou não ter efeitos similares. Essa variedade continua a aumentar: entre 2013 e 2016 a Polícia Federal identificou 59 novas drogas sintéticas em circulação no país.

Por isso, é preciso relativizar a experiência que se obtém após consumir drogas recreativas repetidas vezes. O “doce”, a “bala” ou o “ecstasy” que se usa em uma ocasião pode ser uma substância completamente diferente do “doce”, da “bala” ou do “ecstasy” que se usa na próxima.

 

5 passos para reduzir danos

Conhecer o vendedor

Conhecer a pessoa que vende a droga pode diminuir os riscos de consumir um produto diferente daquele pelo qual se pagou ou, no mínimo, de consumir um produto de risco especialmente alto, mas não o anula

Consumir lentamente

No caso de uma droga recém-obtida, Comis afirma que é necessário consumir com cuidado e nunca de uma só vez, especialmente nas primeiras doses. Se for um comprimido, por exemplo, o ideal é tomar inicialmente até um quarto, aguardar por cerca de uma hora, sentir os efeitos sobre o corpo e observar se eles são aquilo que se buscava. E só então decidir partir para uma nova dose, ou não

Beber água

Beber água diminui as chances de problemas, especialmente quando se bebe apenas álcool ou se associa álcool a outras drogas, já que essa substância leva a urinar em excesso. Mas tomar mais de um litro de água de uma vez pode diminuir demasiadamente a concentração de sódio no sangue. Isso desregula o controle da água entre as células e leva a seu inchaço, uma situação perigosa chamada hiponatremia. Comis recomenda uma dose de cerca de 300 ml por hora, um pouco menos do que uma latinha de refrigerante padrão

Descansar e comer

É importante lembrar de se alimentar e descansar, e não apenas dançar incessantemente, enquanto se está sob efeito de drogas

Dizer o que usou

Caso se sinta mal psicológica ou fisicamente, busque se acalmar, procure ajuda e não tenha receio de dizer quais drogas usou, ou acredita que usou. Se precisar de atendimento médico, essa informação é valiosa, uma vez que sem ela é possível que médicos ou enfermeiros realizem procedimentos inadequados

O que os organizadores de festas podem fazer

“As casas noturnas morrem de medo de admitir que existe consumo de drogas nas festas, porque isso pode chamar a atenção da segurança pública. Mas estamos em uma sociedade em que as drogas são consumidas em festas, mesmo quando não são vendidas nas casas noturnas”, diz Comis.

Ela avalia que produtores precisam lidar com esse fato e se responsabilizar por diminuir os danos nos casos em que há uso abusivo.

Medidas simples são orientar funcionários a não vender bebidas para pessoas que aparentam estar excessivamente alteradas, e oferecer gratuitamente água aos clientes. Comis diz, no entanto, que essas medidas não costumam ser aplicadas porque significam abrir mão de faturamento.

Há no estado de São Paulo desde 2008 uma lei que obriga casas noturnas a instalar bebedouros de água, mas a regra é frequentemente desrespeitada, ressalta a psicóloga.

Equipes de redução de danos

É comum que festas lidem com uma pessoa que passa por uma “bad trip” expulsando-a. Mas essa pessoa está “em uma condição extremamente vulnerável, e pode ser atropelada, assaltada ou agredir alguém. É um risco muito grande”, afirma Comis.

A psicóloga recomenda que as festas criem ou contratem equipes de redução de danos que se alternem em turnos.

No modelo empregado pelo ResPire, ao menos três pessoas participam por turno. Uma cuida de um estande em que entrega panfletos informativos e responde a dúvidas do público, as outras duas são treinadas sobre os efeitos das drogas mais comuns, e se responsabilizam pelo cuidado psicológico de quem estiver passando por uma bad trip.

Esse cuidado consiste em acompanhar a pessoa, mantê-la segura, conversar com ela e acalmá-la, um processo que pode se estender por horas. São necessárias no mínimo dois indivíduos porque um deles pode precisar sair em busca dos amigos de quem passa pela bad trip.

É preciso “intervir com muito cuidado, sem ser invasivo, e sem colocar a pessoa em uma situação constrangedora. O ideal é dizer para se acalmar, perguntar se está com alguém. Se estiver muito agitada, não tentar contê-la [fisicamente]. Se estiver desacordada, colocá-la de lado para que vomite e não se afogue, e chamar ajuda médica”, diz.

Pedindo ajuda

Mesmo quem não estiver envolvido em uma equipe de redução de danos pode ajudar alguém vulnerável devido ao uso abusivo de drogas, buscando acalmar a pessoa e indo atrás de seus amigos ou de equipes de redução de danos.

Caso não haja essas equipes, Comis recomenda buscar os organizadores da festa. “A equipe de segurança poderia ser uma ajuda interessante, mas não temos boas experiências. Em raves já aconteceu de expulsarem, conterem pessoas, esse tipo de atitude sem tato”, diz.

Há diversas leis municipais que exigem a presença de ambulâncias em grandes eventos, mas muitas vezes elas não possuem equipes médicas capazes de cuidar dos pacientes, e servem apenas para transportá-los até um local de atendimento.

Comis avalia que, idealmente, os veículos devem ser UTIs móveis, com equipes com médico, enfermeiro e motorista, capazes de realizar atendimentos de emergência. “Já trabalhei em uma festa em que ocorreram três paradas cardíacas. Sem atendimento, as pessoas teriam morrido”, diz.

Cuidado com o ‘boa noite, Cinderela’

Há em contextos de festa um golpe famoso chamado “boa noite, Cinderela”. Nele, droga-se a vítima sem que ela saiba, deixando-a vulnerável a outros crimes, como violência sexual e roubos.

Uma das formas mais conhecidas de administrar o “boa noite, Cinderela” é colocar a droga na bebida de alguém sem que a pessoa se dê conta. Outra é oferecer uma carreira de cocaína e, no lugar, colocar quetamina, um outro pó branco.

Em vez de estimular, essa droga tem o efeito de anestesiar —ela é usada como anestésico de pessoas e animais. Quem cheira uma carreira de quetamina pensando que é cocaína pode acabar em uma posição de vulnerabilidade.

Além da quetamina, outras drogas usadas frequentemente no golpe são o medicamento sedativo flunitrazepan (rohypnol) e GHB (ácido gama-hidroxiburítico).

Por isso, é importante ficar atento às próprias bebidas, ter cuidado com as drogas oferecidas por estranhos e buscar ajuda de pessoas de confiança ao se sentir repentinamente desorientado.

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