Como a realidade virtual está sendo usada para tratamento de fobias

Recente popularização da tecnologia contribuiu para a disseminação do seu uso, que tem exemplos no Brasil

    Profissionais da psicologia ao redor do mundo vêm adotando ferramentas de realidade virtual para garantir maior eficiência ao seu trabalho. A possibilidade de permitir que um paciente experimente uma situação sem ter de lidar com a tensão da vida real tem funcionado como uma resposta eficiente para o tratamento de transtornos de estresse pós-traumático e de ansiedade, como fobias.

    Na psicologia, uma das técnicas para fazer com que alguém supere um medo ou trauma é colocar, de modo gradual, um de frente para o outro. Se o medo é de altura, que vá se acostumando à vista do topo de um prédio. Se é de aranha, que tal se habituar a ver o bicho uma ou duas vezes por semana? A terapia parte da ideia de que a exposição dosada pode ajudar o paciente a responder fisicamente de um modo diferente à coisa que o apavora.

    Apesar de ser uma ideia presente na área há mais de 20 anos, a recente popularização da tecnologia necessária para a criação desses ambientes imersivos da realidade virtual contribuiu para a disseminação do seu uso, que tem exemplos no Brasil.

    Nataly Martinelli adotou há três meses a solução vendida pela startup espanhola Psious. Na clínica em que trabalha, em Curitiba, a psicóloga passou a usar óculos de realidade virtual de forma complementar em seus pacientes para tratamentos de fobias. “O tratamento antes consistia em replicar a exposição feita pelo imaginário do paciente. Com a realidade virtual, a pessoa não precisa imaginar, ela está imersa naquele ambiente”, diz.

    Ela conta já ter usado o recurso da realidade virtual em pacientes com medo de ver sangue ou de viajar de avião. “Uma paciente identificada com grau máximo de fobia de avião passou a relatar um medo de nível quatro [em uma escala de zero a dez] depois de sete sessões”, diz. O psicólogo pode ainda controlar o nível de exposição de acordo com a tensão demonstrada pelo paciente, monitorando-o por eletrodos.

    O ambiente de tratamento

    Assim como a espanhola Psious, outras empresas desenvolvedoras de aplicativos voltados para realidade virtual estão disputando esse mercado, caso das americanas Virtually Better e Limbix, ou ainda a sueca Mimerse. São elas as responsáveis por desenhar o ambiente no qual o paciente será projetado, como o contra medo de altura, abaixo, da Virtually Better.

    Em entrevista ao jornal The New York Times, a pesquisadora Barbara Rothbaum, fundadora da Virtually Better, afirmou que o uso de realidade virtual tem se mostrado tão eficiente quanto a experiência real de se ir até um aeroporto contra o medo de voar. Segundo ela, 90% dos pacientes venceram suas ansiedades dessa forma.

    Em geral, trata-se de aplicativos compatíveis com celulares usados dentro de óculos como o Daydream View (Google) ou Gear VR (Samsung). Neles, o psicólogo define o ambiente causador de fobia — o alto de um prédio, um avião, uma tempestade ou ainda uma plateia cheia —, define o nível gerador de tensão e monitora o desempenho do paciente.

    No caso de pacientes com TEPT (transtorno de estresse pós-traumático), como no caso de militares que retornam de guerras, o uso de realidade virtual também tem demonstrado resultados positivos. “O TEPT é uma desordem de fuga [avoidance]. As pessoas não querem pensar sobre isso (...) Nós precisamos que elas se envolvam emocionalmente, e com a realidade virtual é mais difícil para elas evitarem isso”, disse Rothbaum.

    Outros usos

    A imersão virtual tem se mostrado útil no também tratamento de vícios, dor, estresse e depressão.

    No caso do tratamento de um alcoólatra, por exemplo, o psicólogo pode projetar o paciente em um ambiente que simula um bar. Para pacientes que experimentam dor intensa, caso de vítimas de queimaduras graves, há soluções como a pioneira criada em 1996 por cientistas da Universidade de Washington, que expõe o paciente a um jogo em um ambiente de neve e tem a percepção de dor alterada.

    Pacientes estressados podem ser levados a ambientes calmos que o deixem confortáveis. Já pacientes com depressão também podem se beneficiar da realidade virtual. Um estudo conduzido pela University College London apontou redução de sintomas depressivos em 9 de 15 pacientes avaliados. A terapia envolvia uma espécie de jogo em realidade virtual que o paciente é instigado a confortar uma criança aos prantos. Na sequência, o paciente passa a olhar a cena do ponto de vista da criança, sendo confortada por ela mesma. Segundo o estudo, a experiência ajudava os pacientes a serem menos autocríticos e mais compassivos com eles mesmos.

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