Ir direto ao conteúdo

Quando a arte é cancelada, em Porto Alegre e no mundo

Exposição Queermuseum foi suspensa por patrocinador após protestos em redes sociais. Artistas e curador falam em censura

     

    Um mês depois de sua abertura, a exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi encerrada, em 10 de setembro de 2017, pelo patrocinador, o banco Santander. Com temática LGBT, a mostra teria desrespeitado, segundo um comunicado da empresa, “símbolos, crenças e pessoas”.

    “O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia (...). Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”

    Santander Cultural

    Em comunicado à imprensa

    O cancelamento veio depois de uma extensa campanha contra o evento e o banco nas redes sociais. Com o MBL (Movimento Brasil Livre) entre seus principais articuladores, a mobilização incluiu blogues e páginas de cunho religioso, católicos e evangélicos. De acordo com as queixas, trabalhos da mostra seriam ofensivos à moral e à religião cristã.

    A página do MBL no Facebook publicou diversos posts em torno do assunto, alguns com milhares de curtidas. O conteúdo das postagens alega que a mostra usou dinheiro público “para promover pedofilia e zoofilia”. A menção ao dinheiro público se deve ao fato da exposição ter sido contemplada pela Lei Rouanet, proporcionando alívio fiscal ao Santander no valor de R$ 800 mil. O banco Santander comunicou que irá devolver o dinheiro à Receita Federal.

    Ações de repúdio presenciais também foram registradas, com frequentadores atacando obras e fazendo vídeos no local da exposição. De acordo com o post de uma pessoa que teria ido visitar à exposição, os opositores do evento “têm entrado continuamente e agredido verbalmente os visitantes, artistas…”.

    Uma agência do Santander próxima ao local da exposição apareceu pichada com ofensas ao banco. Funcionários do Santander Cultural que trabalharam na produção relataram ao jornal Zero Hora ter recebido ameaças por e-mail ou em seus perfis pessoais no Facebook.

    O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), chegou a apoiar o fechamento da exposição em seu Facebook, mas apagou o post horas depois. Na publicação, o político destacou que o evento continha “imagens de zoofilia e pedofilia”.

    Um dos líderes do MBL, Kim Kataguiri, rebateu em um post acusações de que o movimento estaria promovendo um ataque à liberdade de expressão ou artística. “Isso é um boicote que deu certo, não uma censura”, escreveu.

    Em um de vários memes que produziu para o episódio, o MBL alega que sua mobilização equivale ao que chama de campanhas da “esquerda”, como a que levou ao cancelamento da peça “Os fofos encenam”, em 2013, na qual uma atriz usava maquiagem “blackface”.

    Entretanto, nos comentários da página do grupo, há diversos comentários de usuários defendendo a censura como medida válida para manifestações consideradas imorais ou ofensivas. Outros defendem ações de violência física contra envolvidos na exposição ou contra quem “apoia a pedofilia”.

    A defesa da exposição e das obras

    "Eles ingressaram na exposição atacando o público com câmera em punho, perguntando se gostavam de pornografia, de pedofilia. Foi um nível de agressividade que eu nunca tinha visto”, apontou ao G1 o curador da exposição, Gaudêncio Fidélis.

    No total, a exposição Queermuseu reunia mais de 270 obras, de 90 artistas plásticos. A seleção contava com nomes brasileiros de diversas gerações, entre eles Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Ligia Clark, Leonilson e Adriana Varejão. O evento não tinha classificação indicativa, em que se recomenda a faixa etária adequada para uma obra.

    Foto: Reprodução
    cenas do interior
    Obra 'Cena de Interior II' (1994), de Adriana Varejão
     

    É de Varejão uma das obras mais criticadas. A artista carioca, que no ano passado foi tema de exposição individual no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo, aparece com “Cenas do interior II”, tela em que acontecem quatro cenas de atos sexuais.

    “Esta é uma obra adulta feita para adultos”, explicou a artista ao jornal Zero Hora. “A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as Chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil.”

    As obras de Bia Leite suscitaram as acusações de pedofilia. Suas colagens usaram frases e imagens do Tumblr Criança Viada. De acordo com a artista, a intenção do Tumblr e de sua obra seriam se solidarizar com crianças que sofreram preconceito ou violência por não apresentarem comportamento considerado apropriado ao seu gênero.

    Ela disse ao Zero Hora: “Sou totalmente contra a pedofilia e o abuso psicológico de crianças. O objetivo do trabalho é justamente o contrário, é que essas crianças tenham suas existências respeitadas”.

    O trabalho de Fernando Baril, “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva”, de 1996, traz uma imagem de Jesus com diversos braços, à semelhança da divindade hindu Shiva. Cada braço segura um objeto diferente, como um cachorro quente ou um peixe. Pela tela aparecem várias referência à cultura pop ou à sociedade de consumo, como um computador, uma garrafa de Coca-Cola e a lata de sopa Campbell’s, ao estilo da obra de Andy Warhol.

    Ataques às artes em outros países

    Expressões artísticas são periodicamente sujeitas a pedidos de censura e proibição em diversas partes do mundo. Muitas das iniciativas de repressão registradas, de países como Irã, China ou Egito, vêm do próprio Estado, que aplicam argumentos como violação da moral pública e subversão para o silenciamento de obras e artistas.

    Já nos Estados Unidos ou na Rússia, as ações vêm de grupos religiosos, nacionalistas ou de segmentos ideológicos específicos. Em 2016, a ópera rock “Jesus Christ Superstar” foi cancelada na cidade siberiana de Omsk depois que ativistas cristãos ortodoxos se queixaram da “blasfêmia contínua” e “deboche da fé” contidos na obra.

    Essas informações aparecem no relatório “Art under threat” (arte sob ameaça, em tradução livre), do Freemuse, entidade que faz campanha pela liberdade de expressão artística e que trabalha em parceria com a Unesco.

    A organização registrou 1.028 investidas contra expressões artísticas em 2016 em todo o mundo. O número reflete um aumento de 119% em relação ao levantamento do ano anterior, que contabilizou 469 ataques.

    Em seus relatórios de 2015 e 2016, há apenas um caso brasileiro por ano, respectivamente, a perseguição ao funk e a retirada de um outdoor no interior da Bahia contendo um poema de Livia Natália que foi considerado ofensivo à Polícia Militar.

    Em 2015, o artista paranaense Maikon K. foi detido por policiais militares do Distrito Federal quando encenava sua performance “DNA de Dan” em que fica nu dentro de uma grande esfera transparente. A performance acontecia em frente ao Museu Nacional da República. Levado à delegacia no porta-malas de uma viatura, o artista precisou assinar um termo circunstanciado de ato obsceno.

    ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto não continha a informação sobre a classificação indicativa da exposição e sobre a devolução do dinheiro à Receita pelo banco. Elas foiram acrescentadas, respectivamente, às 11h43 e às 16h43 de 12 de setembro de 2017. Também afirmava que a exposição havia sido encerrada em 10 de agosto, quando na verdade foi em 10 de setembro. Essa informação foi corrigida às 14h19 de 12 de setembro de 2017.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!