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O plástico está na água da torneira de vários pontos do mundo

Material foi encontrado em amostras de todos os locais testados por universidade americana

 

O plástico sintético surgiu no início do século 20. A partir dos anos 50, passou a ser utilizado em larga escala na indústria. O material, em suas muitas variedades, ganhou espaço e se tornou onipresente: foram 380 milhões de toneladas produzidas apenas em 2015

A maior parte do plástico é feita à base de combustíveis fósseis, como petróleo e gás metano, no geral encontrados em reservatórios subterrâneos. Usado das mais variadas formas, como embalagens, pneus, sacolas e equipamentos, ele é despejado em grandes quantidades na superfície do planeta.

Há evidências de que poucos fungos e bactérias são capazes de biodegradá-lo. E por isso a maior parte do plástico está se acumulando na natureza desde que o material começou a ser produzido em larga escala.

Mesmo quando se quebra em pequenas partículas com menos de 5 micrômetros, ou um metro dividido por um milhão, chamadas de microplásticos, ele continua existindo como um problema para o meio ambiente e, potencialmente, para a saúde humana.

Traços de microplástico vêm sendo encontrados em meio a grãos de sal vendidos no mercado, em moluscos, peixes e mesmo na cerveja e no mel.

Isso significa que a humanidade está ingerindo o material, apesar de se saber muito pouco sobre seu efeito sobre a saúde humana.

Agora, uma análise encomendada pela Orb Media, uma produtora de jornalismo investigativo sem fins lucrativos baseada em Washington, encontrou microplásticos na água da torneira de sete locais no mundo.

As conclusões foram obtidas com base em 159 amostras, analisadas pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota.

Apesar de ter sido realizado com auxílio de cientistas, o trabalho é uma reportagem, e não um artigo científico, por isso foram divulgados relativamente poucos detalhes sobre a metodologia.

As amostras foram coletadas em algumas cidades dos Estados Unidos e da Europa, além de Jakarta, na Indonésia, Nova Déli, na Índia, Beirute, no Líbano, Campala, em Uganda, e Quito, no Equador.

A reportagem da Orb Media não detalha quais são as cidades e países europeus testados, mas o jornal britânico The Guardian, que também teve acesso aos dados da pesquisa, afirma que estão inclusos locais de Alemanha, França e Grã Bretanha.

Microplástico na torneira

 

Como há poucos estudos a respeito do impacto do microplástico sobre a saúde humana, é impossível saber se as quantidades encontradas nas amostras são excessivas ou não. Os achados em vários pontos no mundo indicam, no entanto, que esse material se tornou frequente na superfície do planeta e escapa aos filtros empregados por humanos.

O estudo não serve para responder de que forma o plástico chega à água da torneira. Isso pode acontecer com o material sendo transportado aos rios, poços e lagos de onde a água é obtida. Ou se misturando a ela em alguma parte do processo de tratamento e transporte. Há algumas hipóteses sobre como a contaminação pode se dar.

Fontes de microplástico

Lavagem de roupas

Cada lavagem de roupa de plásticos sintéticos, como poliéster e acrílico, libera milhares de fibras microscópicas. Uma pesquisa publicada em novembro de 2016 no Marine Pollution Bulletin calculou que cerca de 700 mil microfibras podem ser liberadas na água para cada 6 kg de roupas de acrílico lavadas. Uma grande parcela permanece mesmo após a água ser tratada

Pneus

Partículas de plástico se soltam dos pneus dos carros em movimento sobre o asfalto, entram em bueiros e se encaminham a cursos d’água. 'Carros e caminhões emitem mais de 20 gramas de poeira de pneus [partículas que se soltam dos pneus] para cada 100 quilômetros rodados', afirma o trabalho

Fricção

Apesar de ainda se saber relativamente pouco também sobre esse fenômeno, acredita-se que a fricção do plástico encontrado nas roupas e em outros objetos faz com que micropartículas sejam liberadas no ar. Um estudo realizado na região metropolitana de Paris e apresentado em 2015 no Congresso da Sociedade Europeia de Química e Toxicologia Ambiental estimou que cerca de 10 toneladas de microplásticos encontradas no ar se depositam sobre a região todos os anos, o que indica que o material não é apenas ingerido, mas também aspirado

Os sinais de que o plástico se tornou um elemento frequente na natureza do mundo inteiro indicam que é difícil evitar ingerir o material. Isso é especialmente preocupante quando se considera que os testes captaram apenas partículas de até 2,5 micrômetros, ou seja, 2,5 metros divididos por um milhão. Há pedaços de plástico ainda menores do que isso na natureza -como o material não se biodegrada, ele tende a se dividir em partículas cada vez mais reduzidas.

Pouco se sabe sobre os efeitos na saúde

A contaminação por microplásticos sobre humanos ainda é um campo novo de estudos, mas, em entrevista ao Guardian a pesquisadora do Galway-Mayo Institute of Technology Anne Marie Mahon afirmou que “uma vez que atingem a escala do nanômetro [um metro dividido por um bilhão] eles realmente podem penetrar a célula, e isso significa que podem penetrar órgãos, e isso seria preocupante”.

Além disso, toxinas e microorganismos presentes na água podem se ligar às partículas de plástico e ser liberados quando o material é ingerido, contribuindo para a propagação de doenças e intoxicação.

Como não se sabe o perigo exato trazido pela ingestão do plástico, Mahon avalia que a sociedade deveria “seguir o princípio da precaução e direcionar esforço o suficiente sobre o assunto, imediatamente, para que possamos descobrir quais são os verdadeiros riscos”.

Um relatório de 2016 do Programa Ambiental da ONU chamado “Tópicos Emergentes de Preocupação Ambiental” listou os microplásticos como uma das seis fontes crescentes de preocupação, ao lado de problemas como o mercado de animais exóticos, acumulação de toxinas nas lavouras e mudança climática.

“A comunidade científica está correndo para entender o nível de exposição e os impactos fisiológicos dos contaminantes de microplástico sobre vários organismos, assim como o risco à saúde humana devido ao consumo de alimento contaminado”, afirma o relatório.

ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto afirmava que microplásticos são menores do que cinco milímetros, quando na verdade são menores do que cinco micrômetros. A informação foi corrigida às 12h do dia 12 de setembro de 2017.

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