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Como um cartão corporativo derrubou o vice-presidente do Uruguai

Afilhado de Mujica e potencial candidato à presidência do país sul-americano cai em escândalo de uso de dinheiro público para fins privados

     

    O vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, anunciou no sábado (9) sua renúncia ao cargo, após a revelação de que, durante sete anos, ele usou um cartão de crédito corporativo para pagar despesas pessoais.

    Os gastos vão de 2005 a 2012 e cobrem um período em que Sendic ocupou os cargos de diretor, vice-presidente e presidente da empresa estatal uruguaia da área de petróleo, a Ancap – três anos antes de ele assumir a vice-presidência da República, portanto.

    A descoberta foi feita pela revista semanal uruguaia Búsqueda, via Lei de Acesso à Informação. A publicação recebeu faturas de gastos de diversos diretores da Ancap e concluiu que Sendic destoava do padrão, com registros recorrentes de compras pessoais em “lojas de roupas, eletrônicos, livrarias, supermercados e lojas de móveis no Uruguai e em outros países”.

    Pelo manual de conduta da Ancap, citado pela publicação, o cartão de crédito corporativo serve apenas para “gastos imprevistos que surjam em missões de trabalho”, sobretudo no exterior, dentro de um limite equivalente, em reais, a R$ 17 mil mensais.

    Além das acusações de gastos indevidos, Sendic também era cobrado por dizer que havia estudado genética humana na Universidade de Havana, em Cuba, informação que há anos era contestada por diversas fontes consultadas pela imprensa uruguaia.

    A renúncia foi feita por Sendic por meio de sua conta no Twitter, logo depois de ele ter entregue uma carta ao presidente Tabaré Vázquez. Veja a mensagem:

     

    Para Mujica, foi ‘dinheiro de cueca’

     

    Aliados de Sendic consideraram a denúncia um exagero, que não justifica um pedido de renúncia. Muitos apontaram a desproporção entre o caso do vice-presidente uruguaio e o que ocorre, por exemplo, na Lava Jato, no Brasil.

    Apenas quatro dias antes da publicação dos gastos do cartão de Sendic, por exemplo, a Polícia Federal do Brasil havia encontrado R$ 51 milhões em cédulas dentro de um apartamento ligado ao ex-ministro Geddel Vieira Lima.

    Mesmo que Sendic usasse o limite máximo do cartão de crédito corporativo todos os meses, durante os sete anos em que esteve na estatal, seu gasto, ainda assim, seria equivalente a apenas 2,8% de todo o dinheiro encontrado no apartamento atribuído a Geddel.

    A publicação semanal apenas listou e descreveu os gastos feitos no cartão de Sendic, sem apontar com precisão quais são ou não são legais. É possível que alguns desses gastos correspondam de fato a “imprevistos” em “missões de trabalho” – como a compra de um aparelho em viagem, ou mesmo de um roupa. Entretanto, o que chama a atenção é a recorrência ao longo dos anos, além do fato de os gastos serem superiores aos de outros funcionários.

    A comparação com a Lava Jato foi feita pelo ex-presidente do Uruguai José “Pepe” Mujica. Padrinho político de Sendic, Mujica é normalmente usado como exemplo de político honesto, humilde, conhecido por viver numa casa simples e por ter um carro velho:

    “Enquanto, no Brasil, aparecem malas de dinheiro, estamos discutindo cuecas. Por favor, demos dimensão às coisas”

    José “Pepe” Mujica

    Ex-presidente do Uruguai (2010-2015), em entrevista ao jornal uruguaio El Observador

    O presidente Vázquez considerou Sendic vítima de “um brutal bullying, um ataque brutal como nunca se viu no país em relação a uma figura pública, bestial, de uma inumanidade tremenda”, como “se [ele] tivesse cometido um delito de lesa humanidade”.

    No entanto, foi a própria Frente Ampla – coligação de partidos de esquerda que governa o Uruguai há 13 anos, e à qual pertencem Mujica, Vázquez e Sendic  – que tornou inviável a permanência do vice no cargo.

    O Tribunal de Conduta Política da Frente Ampla – espécie de conselho de ética interno – viu um “modo de atuar inaceitável no uso de dinheiro público” de parte de Sendic.

    Para os membros do órgão, a atuação do vice-presidente “compromete sua responsabilidade ética e política, com o descumprimento reiterado de normas de controle”.

    Vázquez fez muitos elogios à “valentia, ao compromisso e à responsabilidade” do vice, e disse que o Uruguai “vive um momento de comoção política, mas de tranquilidade institucional”. Ele também elogiou o que considerou um alto padrão de exigência ética do próprio partido.

    “A renúncia do sr. Sendic ocorreu dentro de um forte marco institucional que o país, felizmente, tem e que é uma realidade e um legado que todos nós, uruguaios, devemos cuidar. Podemos nos sentir orgulhosos dessa institucionalidade democrática, da separação de Poderes, e nos atermos ao que estabelece a Constituição e a lei”

    Tabaré Vázquez

    Presidente do Uruguai, em entrevista a jornalistas, no dia 11 de setembro de 2017

    A oposição atacou o vice duramente. O deputado Pablo Mieres, do Partido Independente, disse que Sendic “engana as pessoas”. Ele também criticou a gestão do adversário à frente da Ancap, dizendo que Sendic deixou a estatal “quebrada” e que ele “mente, mente, mente, de maneira impune”.

    O que acontece agora

    Caberá ao Congresso aceitar a renúncia, em votação esperada para ocorrer na quarta-feira (13). O procedimento deve ser protocolar e simbólico, já que Sendic avisou que sua decisão é “irrevogável”.

    Para o cargo dele, será nomeada a senadora Lucía Topolansky, também da Frente Ampla, e primeira mulher a ocupar o cargo na história uruguaia.

    Ela será escolhida para a vice-presidência por ter sido a senadora mais votada – atrás apenas do próprio marido, Mujica, que não pode ocupar o posto pois acaba de cumprir mandato presidencial (2015).

    Topolanksy deve assumir o cargo de presidente da República, interinamente, já no dia 16 de setembro, quando Vázquez vai a Nova York participar da Assembleia Geral das Nações Unidas.

    Ameaça aos planos da esquerda uruguaia

    Assim como aconteceu com o PT no Brasil, a Frente Ampla está atualmente há 13 anos na Presidência.

    Agora, a queda se Sendic golpeia os planos de continuidade da coligação. Sendic era afilhado político de Mujica e, portanto, peça importante na estratégia de sucessão da esquerda uruguaia.

    Lá, a reeleição é proibida. Por isso, a cada cinco anos, a Frente Ampla precisa construir um novo nome, caso queira seguir governando – para muitos, Sendic era esse nome.

    O próprio Vázquez, atual presidente, já havia sido presidente em gestão anterior e não consecutiva (2005-2010). Ele foi substituído por Mujica (2010-2015), e voltou em 2015 para governar até 2020.

    Sendic é filho de Raúl Sendic, um dos fundadores do Movimento de Libertação Nacional, conhecido como MLN-Tupamaros, guerrilha da qual Mujica e Topolansky fizeram parte nos anos 1960 e 1970.

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