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Quem é Geddel. E como aliados reagiram à sua nova prisão

Ex-ministro de Temer e Lula é um nome importante na liderança do PMDB. Ele é suspeito de ter participado de um esquema milionário da Caixa ao lado de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro

    O ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) é o principal candidato a ser o dono de R$ 51 milhões encontrados em um apartamento em Salvador. O imóvel foi emprestado por um amigo para que Geddel guardasse pertences do pai. A Justiça acredita que essa montanha de dinheiro seja, na verdade, fruto de atividades criminosas praticadas quando Geddel participava da diretoria da Caixa Econômica Federal.

    Digitais do ex-ministro foram encontradas nas malas de dinheiro e ele foi preso preventivamente na sexta-feira (8). As investigações da Operação Cui Bono sugerem que Geddel é um dos chefes de esquema de fraudes em contratos de crédito do banco público. O ex-ministro teria usado seu cargo para atuar junto com ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, também do PMDB, e com o doleiro Lúcio Funaro para favorecer a concessão de empréstimos a algumas empresas em troca de propina.

    Cunha e Funaro estão presos preventivamente. Funaro fechou um acordo de delação premiada. Geddel havia sido preso em 3 de julho de 2017 por tentar evitar que seus cúmplices se tornassem colaboradores do Ministério Público, tendo sido transferido para prisão domiciliar dia 12 de julho. Após a descoberta do “bunker” com R$ 51 milhões, Geddel voltou para a cadeia em 8 de setembro.

    A trajetória política de Geddel

    Político experiente e de discurso provocativo, Geddel foi deputado federal pela Bahia entre 1991 e 2014. Fez parte da base de apoio ao governo FHC (1995-2002), período em que chegou a ser líder do PMDB na Câmara. Durante o primeiro mandato de Lula (2003 - 2006), Geddel atuou como oposição ao governo. Já em 2007, aliou-se ao presidente petista em seu segundo mandato e assumiu o Ministério da Integração Nacional.

    O ex-ministro se candidatou a governador da Bahia em 2010, perdeu, e foi nomeado vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa por Dilma em 2011. Para poder concorrer a senador na eleição de 2014, Geddel forçou sua demissão com uma postagem no twitter em que pedia para Dilma o exonerar. Mesmo tendo conseguido a exoneração, não se elegeu senador em 2014.

    Durante os protestos pelo impeachment de Dilma, em 2015, Geddel disse que havia rompido sua aliança com o PT após descobrir que o partido tinha exclusivamente um projeto de poder e disse que “ninguém aguentava mais tanto roubo”.

    Após o impeachment de Dilma, em 2016, Geddel voltou para a administração federal. Até deixar o Ministério da Secretaria de Governo da gestão Michel Temer, em novembro de 2016, era um dos principais articuladores dos interesses do presidente no Congresso.

    O ex-ministro começou sua carreira nos anos 1980 como aliado de Antônio Carlos Magalhães, de quem veio a se tornar grande adversário nos anos 2000. Antes do escândalo da Caixa, já havia sido acusado de desviar recursos do Banco do Estado da Bahia em 1984 e de ser um dos Anões do Orçamento de 1993, num esquema que desviava recursos do orçamento federal para entidades fantasmas e beneficiava empreiteiras por meio de emendas parlamentares. Foi absolvido nos dois casos.

     

    A saída do governo e a perda de foro

    Tido como um nome de confiança de Temer, Geddel deixou o governo em novembro de 2016 após polêmica envolvendo a construção de um prédio em Salvador, no qual ele tinha comprado um apartamento.

    O empreendimento ficava em uma região histórica da capital baiana e teria 30 andares. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) considerou, no entanto, que o empreendimento era inadequado para a região e embargou a obra.

    Geddel foi acusado de pressionar o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, responsável pelo Iphan, para que ele interviesse na decisão e liberasse a construção do prédio. Tendo fracassado na estratégia, Geddel assistiu a Calero se demitir do ministério da Cultura e denunciar publicamente a pressão que vinha sofrendo.

    Avaliando que sua posição no governo tinha ficado insustentável, pediu demissão no dia 25 de novembro de 2016 e, ao sair do ministério, perdeu o foro privilegiado, ou seja, o privilégio de ser julgado diretamente no Supremo.

     

    Como se deu o cerco a Geddel

    O cerco às atividades supostamente ilícitas de Geddel começaram ainda em 2015, quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na casa de Eduardo Cunha pela Operação Catilinárias, um desdobramento da Lava Jato que investigava lideranças do PMDB. A apreensão e investigação de um celular do ex-presidente da Câmara revelou mensagens em que ele e Geddel negociavam a liberação de empréstimos da Caixa a empresas.

    O aprofundamento das investigações sobre o caso levou em fevereiro de 2017 à deflagração da Operação Cui Bono, que apurou fraudes ocorridas em operações de crédito entre a Caixa e empresas entre 2011 e 2013. Nesse período, Geddel era vice-presidente de pessoa jurídica do banco.

    As prisões preventivas de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, supostos cúmplices de Geddel no esquema da Caixa, começaram a complicar a situação do ex-ministro com a Justiça. Cunha e Funaro foram presos preventivamente em 2016 e havia especulações de que eles pudessem fechar acordo de delação premiada. Geddel, então, teria oferecido vantagens indevidas para que eles não colaborassem com os investigadores.

    A tentativa de obstrução de justiça levou à primeira prisão preventiva de Geddel, em 3 de julho de 2017. Pouco depois, no dia 12 de julho, o ex-ministro conseguiu o benefício da prisão domiciliar.

    A nova prisão preventiva contra o ex-ministro foi decretada na sexta-feira (8) e está baseada em depoimentos de Funaro, que já assumiu ter pago ao menos R$ 20 milhões a Geddel - a suspeita é que parte desse valor estava no apartamento das caixas e malas de dinheiro de Salvador. A prisão preventiva tem como objetivo evitar que ele tente destruir provas importantes para a investigação.

     

    As reações de aliados em dois momentos

    Nas duas primeiras ocasiões em que Geddel se viu no meio da crise política, nos casos do apartamento em Salvador e na prisão por obstrução de justiça, deputados governistas e líderes do PMDB saíram publicamente em sua defesa.

    Importante aliado de Temer e responsável por articular os interesses do governo no Congresso, Geddel foi preservado de críticas por seus parceiros de bancada.

    No episódio de desentendimento com o então ministro da Cultura Calero, líderes de 20 partidos da base aliada do governo Temer assinaram uma nota na qual elogiavam Geddel por sua condução técnica dos trabalhos e competência para aprovar matérias importantes do governo.

    Já quando foi preso pela primeira vez, em julho de 2017, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse que Geddel tinha “prestado grandes serviços ao país”. Os aliados reforçaram o discurso de que o Judicário estava perseguindo o governo. O irmão do ex-ministro chegou até a ser recebido por Temer, de quem Geddel é amigo pessoal há 30 anos.

    Dessa vez, no entanto, líderes do PMDB buscam se distanciar da figura de Geddel. Diante dos fortes indícios de que os R$ 51 milhões encontrados no apartamento são do ex-ministro e que a origem desse dinheiro é ilícita, peemedebistas têm limitado a dar declarações neutras.

    O próprio Jucá que havia prestado solidariedade ao colega em julho, disse que não conhece a situação de Geddel e que ele deve se explicar, não o partido.

    “A questão de qualquer denúncia contra qualquer filiado deve ser explicada pelo filiado. Eu não conheço a situação do ex-ministro Geddel. Quem tem que explicar é a Polícia Federal. E, se ele tiver alguma relação, ele deve explicar também”

    Romero Jucá

    Senador (PMDB-RR), em declaração dada dia 6 de setembro

    Assim como Jucá, o ministro-Chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o deputado Carlos Marun (PMDB-MS) se manifestaram sobre o caso das malas com dinheiro vivo e isentaram o PMDB de responsabilidade. Padilha declarou apenas que “cada um responde por seus atos”.

    Já o deputado Marun, importante defensor de Temer no Congresso, parabenizou a Polícia Federal por ter convertido informação de delações em provas.

    “Está de parabéns a Polícia Federal, que não ficou como muitos preguiçosos, que só ficam com a delação premiada”

    Carlos Marun

    Deputado Federal (PMDB-MS), em declaração dada dia 8 de setembro

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