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O mundo enfrenta falta de areia. Quais os efeitos dessa escassez

Recurso fundamental para a construção civil e para materiais que usamos no dia a dia leva milhares de anos para se renovar

    À primeira vista ela parece abundante na natureza, um recurso infinito. Mas a demanda por areia, vinda principalmente da construção civil, tem provocado a mineração desenfreada em algumas regiões e pode, a longo prazo, fazer com que ela simplesmente acabe.

    É o que advertem quatro pesquisadores de universidades americanas e alemãs. Eles formaram um grupo de trabalho para monitorar a extração e o uso de areia ao redor do mundo e defendem que é hora de criar convenções internacionais que regulem a mineração, o uso e o comércio da matéria-prima. 

    O grupo publicou na revista Science, no dia 8 de setembro, um artigo intitulado “A tragédia iminente da areia”. Nele, a escassez de areia é descrita como um problema crescente com implicações sociopolíticas, econômicas e ambientais graves. 

    Para que e quanto usamos

    Areia e cascalho são os recursos naturais mais extraídos no mundo, excedendo, em peso, a extração de combustíveis fósseis e biomassa, de acordo com o artigo publicado na Science.

    A areia é um ingrediente fundamental para o concreto, para a construção de estradas, para a fabricação de papel, vidro e eletrônicos. Ela também é usada na criação de aterros, na exploração do gás de xisto (empregado por sua vez para aquecer casas, gerar eletricidade e em fábricas) e nas obras de alimentação artificial de praias, para aumentar a extensão da orla.

    De acordo com um relatório da divisão de meio ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas), foram extraídos por meio de mineração 11 bilhões de toneladas de areia no mundo em 2010, apenas para o setor de construção.

    Um vídeo de 2014 da agência de notícias France Presse diz que a China utiliza a cada ano um quarto da areia do planeta e que os projetos faraônicos de Dubai, no Oriente Médio, já esgotaram os recursos do emirado. 

    Os índices mais altos de extração ocorrem na região da Ásia-Pacífico, depois vêm Europa e América do Norte, diz outro artigo publicado pelo mesmo grupo de pesquisadores no site The Conversation.

    Os pesquisadores afirmam que os números registrados por agências governamentais e órgãos internacionais sub-representam a extração e o uso de areia no mundo, já que as estatísticas oficiais normalmente não incluem usos para além da construção.

    Há ainda, em alguns países (como a Índia), um mercado ilegal de areia, que explora e comercializa o recurso sem autorização, cuja movimentação também não entra nos registros.  

    Como ela é extraída e qual o impacto da mineração

    A areia é formada do desgaste de rochas. É, portanto, um material de origem mineral. O que chamamos de terra, o solo, também resulta da decomposição de rochas mas contém, além disso, matéria orgânica. E pode haver areia em sua composição – resultando em solos arenosos.

    Há algumas fontes possíveis para a extração:

    • do mar
    • do leito dos rios
    • de pedreiras
    • de desertos

    A areia do deserto, apesar de abundante, não é apropriada para a construção civil por ser muito fina. A areia de pedreira e a extração do leito dos rios são as mais comuns. A primeira, entretanto, está se esgotando, e tirar areia dos rios pode provocar inundações. 

    No mar, também não há como retirar a areia sem impactar o ecossistema ou causar a retração da praia, caso a extração seja feita perto da costa. 

    A mineração de areia afeta espécies animais que vivem nesses ambientes – peixes, golfinhos e crustáceos – e humanos que habitam a costa.

    Um estudo de 2013 da Water Integrity Network, rede mundial de organizações ambientais, revelou que a extração de areia exacerbou o impacto do tsunami sobre o Sri Lanka, ocorrido em 2004 no oceano Índico.

    Para além das consequências ambientais da extração, há a iminência do esgotamento: as fontes de areia levam milhares de anos para se renovar.

    Em alguns países, isso já faz parte do futuro próximo. No Vietnã, por exemplo, a demanda doméstica por areia já excede as reservas totais do país e, segundo o Ministério da Construção vietnamita, nesse ritmo o país pode esgotar a areia apropriada para a construção até 2020. 

    Mas há alternativas: vidro moído, entulho ou conchas de mariscos recicladas podem substituir o recurso natural.

    Uma commodity globalizada

    O crescimento contínuo, a nível global, da urbanização, que impulsiona a construção civil, e o avanço do mar sobre a costa devido ao aumento das temperaturas globais, fazem com que a demanda por areia seja cada vez maior.

    Se antes ela era um produto local, a escassez regional que já desponta em alguns países e a proibição da mineração por razões ambientais a transformaram em uma commodity globalizada.

    Seu valor no comércio internacional aumentou quase seis vezes nos últimos 25 anos, de acordo com dados da ONU citados pelo artigo do site The Conversation. 

    Grupos na Índia, na Itália e em outras partes do mundo comercializam o produto ilegalmente. Cingapura, Indonésia, Malásia e Camboja entram em conflito devido à sua importação.

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