Ir direto ao conteúdo

O que é o ‘pacto de sangue’ entre Lula e Odebrecht, segundo Palocci

Expressão é uma das mais fortes usadas pelo ex-ministro dos governos petistas em depoimento ao juiz federal Sergio Moro

     

    Ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, Antonio Palocci está na cadeia desde setembro de 2016, condenado a 12 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela Operação Lava Jato. Ao menos desde abril de 2017 ele vem tentando fechar um acordo de delação premiada. Em vias de consegui-lo, um dos principais nomes dos governos petistas decidiu fazer acusações que atingem diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    Palocci prestou depoimento ao juiz federal Sergio Moro na quarta-feira (6), na ação em que Lula é acusado de receber propina da Odebrecht, uma das empreiteiras acusadas de participar de um cartel que atuava em contratos da Petrobras. O ex-ministro disse que o ex-presidente tinha um “pacto de sangue” com o dono da construtora.

    O que é o pacto

    Segundo Palocci

    Palocci disse que Lula fechou um “pacto de sangue” com Emílio Odebrecht, dono da empreiteira, no qual receberia dinheiro a fim de custear despesas pessoais e do PT. Segundo o ex-ministro, a empresa prometeu pagamentos em 2010 a fim de que Lula convencesse Dilma Roussseff, que assumiria o comando do país, a manter os privilégios da empreiteira junto à estatal de petróleo e ao governo.

    Segundo a defesa de Lula

    Após o depoimento, o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, afirmou que a expressão “pacto de sangue” foi ensaiada por Palocci para impressionar o juiz e os procuradores durante a audiência, já que ele tenta fechar um acordo de delação premiada. Na versão da defesa, o ex-ministro faz as acusações porque esse é o único jeito de receber o prêmio da delação: uma redução da pena.

    Lula já foi condenado por Moro a 9 anos e 6 meses de prisão, por receber dinheiro da OAS, que também fazia parte do cartel. O petista recorre em liberdade. Ele é réu em outros quatro processos (incluindo o caso Odebrecht) e virou alvo de duas novas acusações na terça-feira (5) e na quarta-feira (6), por formação de quadrilha e obstrução de Justiça.

    Em abril, às voltas com a expectativa de Palocci tornar-se um delator, Lula publicou em suas redes sociais: “Não tenho preocupação com nenhuma delação. Palocci é meu companheiro há 30 anos, é um dos homens mais inteligentes desse país”.

    O papel de Palocci na era Lula

    A proximidade de Palocci com Lula e com ministérios relevantes nos governos petistas tornam o depoimento do ex-ministro único e ampliam as tensões e incertezas sobre Lula e o PT. Em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente planeja sair candidato em 2018. Mas a condenação na Lava Jato e os demais processos lançam dúvidas em razão das possibilidades de Lula ser barrado pela Lei da Ficha Limpa - isso ocorrerá se ele for condenado em segunda instância.

    Palocci foi ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. O petista teve participação importante na primeira eleição de Lula, em 2002. Foi Palocci que desenvolveu o programa de governo e ajudou a redigir a “Carta ao Povo Brasileiro”, documento em que Lula se comprometia a manter diretrizes econômicas do governo Fernando Henrique Cardoso a fim de acalmar o mercado, que temia medidas radicais do ex-líder sindical.

    O ‘livro um pouco maior’

     

    A ação em que Palocci depôs acusa Lula de corrupção e lavagem de dinheiro por receber favores ilegais da Odebrecht, em troca de ter favorecido a empresa em contratos com a Petrobras. Segundo a acusação, os favores foram um terreno  que seria usado para a sede do Instituto Lula e um apartamento em São Bernardo do Campo (SP), contíguo àquele onde Lula já mora.

    Palocci é um dos réus no processo e por isso foi convocado a prestar depoimento. Já no início da audiência ele sinalizou que estava disposto a extrapolar o tema da ação. Perguntando se as acusações do processo estavam corretas, Palocci disse a Moro que as denúncias procediam, mas que eram apenas um capítulo de “um livro um pouco maior”.

    “[Era uma relação] movida a vantagens dirigidas à empresa, a propinas pagas pela Odebrecht a agentes públicos, em forma de doação de campanha, benefícios pessoais, caixa 1, caixa 2. (...) E eu tenho conhecimento porque participei de boa parte desses entendimentos na qualidade de ministro”

    Antonio Palocci

    ex-ministro dos governos Lula e Dilma, em depoimento a Sergio Moro

    O “pacto de sangue” mencionado por Palocci fez parte dessa relação e teria sido formalizado no fim do governo Lula, em 2010.

    “Foi nesse momento que o doutor Emílio Odebrecht [dono do grupo] fez uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula. Ele o procurou nos últimos dias de seu mandato e levou um ‘pacote’ de propinas que envolvia esse terreno (...), o sítio [em Atibaia, interior de São Paulo] para uso da família (...) e também disse que tinha à disposição dele para o próximo período para fazer as atividades políticas dele R$ 300 milhões”

    Antonio Palocci

    em depoimento a Sergio Moro

    No relato de Palocci, Lula pediu a Dilma para preservar a relação com a empreiteira. Ao juiz o ex-ministro admitiu ter recebido um repasse de R$ 4 milhões da Odebrecht, que seria destinado ao Instituto Lula - relatos parecidos aos já feitos por Marcelo Odebrecht, filho de Emílio, também preso por envolvimento com a Lava Jato. Palocci era o “Italiano” nas planilhas de propina da empreiteira.

    Ainda segundo o ex-ministro, o instituto acabou não ficando no terreno comprado pela Odebrecht porque houve a preocupação de que autoridades desconfiassem da negociação. Em seu depoimento, afirmou que as relações ilegais entre o PT e a empresa já estavam “monstruosas” e era melhor haver uma doação formal da área para não chamar a atenção. Ainda segundo o depoimento, Lula foi convencido, depois, a desistir do terreno. Não houve, portanto, negociação.

    A ‘preocupação’ com a corrupção. E o pré-sal

    Segundo Palocci, a maioria dos contratos fechados entre a Petrobras e a Odebrecht “geraram créditos”. O ex-ministro relatou que em 2007 Lula o questionou se era verdade que havia “muita corrupção” em diretorias da estatal. O ex-ministro confirmou e disse que o esquema estava “muito exagerado”. Lula teria sinalizado que era necessário tomar alguma atitude, mas nada ocorreu.

    “Logo depois veio o pré-sal [camada de petróleo descoberta em 2009], que pôs o governo numa atitude frenética em relação à Petrobras. E esses assuntos de ilícitos e diretores ficaram para terceiro plano. E as coisas continuaram correndo do jeito que eram”

    Antonio Palocci

    em depoimento a Sergio Moro

    Palocci afirmou ter havido momentos em que ele e Lula discutiram formas para que as investigações da Lava Jato “não andassem”, mas não detalhou o que de fato foi feito. A defesa do ex-ministro diz ter entregue documentos ao Ministério Público Federal com informações sobre reuniões que manteve com Lula.

    O que dizem Lula e Dilma

    As defesas dos ex-presidentes afirmam que Palocci não apresenta provas do que diz, que seu depoimento é contraditório e motivado com intuito de conseguir o acordo de delação premiada.

    “[Palocci] veio hoje aqui [prestar depoimento a Moro] com frases e expressões prontas, anotadas em um papel para poder dizer durante a audiência, como foi o caso da expressão ‘pacto de sangue’. Ele trouxe isso nas suas próprias anotações. Era algo, portanto, já ensaiado, que havia sido imaginado para ser apresentado durante a audiência”

    Cristiano Zanin Martins

    advogado de Lula

    Em nota, Dilma afirma que Palocci mente. “A lógica que move Antonio Palocci é a mesma que acomete outros delatores presos por longos períodos”, escreveu.

    Lula vai prestar depoimento referente ao caso na quarta-feira (13). O processo está em andamento e não há prazo para Moro apresentar a sentença, condenando ou absolvendo o ex-presidente.

    Efeitos do depoimento para Lula

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, integrantes do PT admitiram em privado o efeito devastador do depoimento de Palocci. Relatos de pessoas próximas ao ex-presidente afirmam que ele ficou “muito decepcionado” com o ex-ministro, em especial com o uso da expressão “pacto de sangue”.

    Em entrevista ao Nexo, o cientista político Carlos Ranulfo, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), diz que o depoimento do ex-ministro difere de todas as declarações já dirigidas contra Lula em razão da proximidade entre ambos e por aprofundar a crise que atinge o PT.

    Qual impacto para Lula?

    Carlos Ranulfo Eu parto do seguinte ponto: pode ser que nem tudo o que foi dito pelo ex-ministro Antonio Palocci seja verdade – porque ele está tentando o acordo de delação. A questão é que nem tudo é mentira, esse é o problema. E o fato de nem tudo ser mentira já é complicado o suficiente para o PT.

    O fato de uma pessoa de extrema confiança do Lula e da Dilma fazer uma declaração dessas, em que há alguma coisa de verdade, já é suficiente para inviabilizar de vez a candidatura do Lula. Mesmo se ele não for condenado, acho que ele não tem mais condições dado o acúmulo de denúncias. E as coisas não devem parar por aí porque o Palocci vai ter que entregar provas.

    Essa é a acusação mais grave contra o ex-presidente?

    Carlos Ranulfo É, até pelos seus desdobramentos. Não se compara a questão do Léo Pinheiro [dono da OAS] sobre a questão do tríplex em Guarujá. Não se compara com o que foi dito até agora. Se metade for verdade, já é uma bomba atômica. Significa que, efetivamente, o ambiente entre PT e grandes empreiteiras era muito promíscuo. Indica uma proximidade que não deveria haver, de relações que não deveriam ter acontecido.

    E o impacto para o PT?

    Carlos Ranulfo O PT um dia vai ter que se explicar sobre tudo isso. Por ora a explicação que o partido, como tantos outros, vem dando é que eles não fizeram nada de errado. Essa explicação não convence ninguém. E não me refiro a explicar para quem odeia o PT, me refiro a pessoas que simpatizavam e que votaram no PT. É uma crise séria e pode ser - não digo que é - uma crise terminal. Acho que tudo vai depender de como ele [o partido] responde, se ele terá capacidade de responder a isso. Se responder e conseguir reconhecer seus erros, ele pode começar um longo caminho de recuperação. Se não, será um partido pequeno, sem importância.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!