Depois das Farc, o ELN. Qual o estágio do processo de paz na Colômbia

Às vésperas da visita do papa, governo celebra cessar-fogo com segunda maior guerrilha do país e aumenta chances de encerrar definitivamente conflito de meio século

    Depois de sete meses de negociação, o governo da Colômbia e o ELN (Exército de Libertação Nacional) anunciaram na segunda-feira (4) um acordo de cessar-fogo, abrindo caminho para negociações que podem levar a um acordo de paz definitivo no país.

    O ELN é atualmente a última grande guerrilha em operação na Colômbia, depois que as Farc (Forças Armadas Revolucionários da Colômbia) entregaram armas e anunciaram a criação de um partido político, num processo de desmobilização que teve início no final de 2015.

    O cessar-fogo — assinado em Quito, capital do Equador — terá vigência de apenas três meses. Ele começa em 1º de outubro de 2017 e termina em 12 de janeiro de 2018. O documento firmado menciona o “objetivo primordial de melhorar a situação humanitária da população civil”.

    A conquista do cessar-fogo ocorre apenas dois dias antes da chegada à Colômbia do papa Francisco. Em mensagem aos colombianos, Francisco fez referência ao acordo firmado com as Farc, como um passo para o fim de 53 anos de guerra civil no país.

    “‘Demos o primeiro passo’ é o lema desta viagem. Ele nos lembra que sempre necessitamos dar o primeiro passo para qualquer atividade e projeto [...] Dar o primeiro passo nos anima a sair ao encontro do outro e a estender a mão e a dar o sinal da paz. Paz que a Colômbia está procurando há muito tempo e trabalha para consegui-la. Uma paz estável, duradoura, para nos vermos e tratarmos como irmãos, nunca como inimigos”

    Papa Francisco

    em mensagem sobre os acordos de paz na Colômbia, no dia 6 de setembro de 2017

    Compromissos assumidos pela guerrilha

    O ELN se comprometeu a parar com o sequestro de colombianos e de estrangeiros. A atividade é uma das fontes de recursos do grupo. Só em 2017, os guerrilheiros sequestraram 12 pessoas, 4 das quais permanecem em poder do grupo.

    Outro compromisso diz respeito à explosão de oleodutos e de outros pontos de infraestrutura, como torres de energia. Só a linha de distribuição de óleo Caño Limón-Coveñas, na fronteira com a Venezuela, foi detonada em diferentes pontos 43 vezes entre janeiro e agosto de 2017.

    Compromissos assumidos pelo governo

    Por sua vez, o presidente Juan Manuel Santos assumiu o compromisso de transferir guerrilheiros presos para unidades de detenção mais próximas de seus locais de origem e de moradia de suas famílias, o que facilitará as visitas de parentes, um direito protegido por lei.

    Outro compromisso assumido pelo governo Santos é o de emitir alertas preventivos sempre que haja ameaças de morte detectadas pelos serviços de segurança contra líderes comunitários. Em partes da Colômbia, a guerrilha do ELN se funde com a defesa de causas sociais, muitas vezes ligadas à reivindicação por terras, o que contraria os interesses de latinfundiários que mantêm milícias armadas.

    O que é e o que quer o ELN

    O Ministério da Defesa da Colômbia considera o ELN o segundo maior grupo guerrilheiro em atividade no país, com 1.500 combatentes. O grupo nasceu em 1965, inspirado na Revolução Cubana liderada por Fidel Castro de 1959.

    Um de seus fundadores, Camilo Torres, foi padre católico, defensor da Teologia da Libertação, linha ligada ao socialismo, que questionava as estruturas econômicas e sociais, a desigualdade e as injustiças sobretudo no ambiente rural.

    Desde a morte de Torres, em 1966, o grupo passou a ser liderado pelo padre Manuel Pérez, conhecido como “Cura Pérez”, na Colômbia.

    Nos anos 1980, o grupo radicalizou suas ações e passou a explodir com frequências canais de oleoduto que passam pelos departamentos (estados) de Arauca e de Antioquia, onde o grupo é forte. Num desses atentados, 84 pessoas morreram queimadas, no que ficou conhecido como Massacre de Machuca.

    A inspiração revolucionária proclamada pelo grupo nos anos 1960 perdeu espaço a partir dos anos 1980 e 1990 para os sequestros e outros crimes comuns, cometidos com o discurso da finalidade política. Em princípio, essas operações tinham por objetivo financiar a guerrilha. Aos poucos, no entanto, assumiram papel central na própria razão de existência do ELN.

    Nos anos 2000, o ELN chegou a trocar sequestrados com comandos guerrilheiros das Farc, numa estratégia de cooperação criminosa. Ambos grupos atuavam não apenas na indústria dos sequestros, mas também no narcotráfico, especialmente de coca.

    Ao longo das últimas cinco décadas, o ELN deu início a diversas tentativas de cessar-fogo e de acordos de paz, todas elas passageiras e sem sucesso definitivo.

    Nos últimos 15 anos, o grupo armado entrou em declínio. O governo diz que o número de combatentes em suas fileiras caiu pela metade.

    Farc virou partido e mira eleições

    O acordo com as Farc se encontra em ponto muito mais adiantado, quando comparado ao acordo entre governo e o ELN.

    No início de setembro, as Farc — depois de terem deposto as armas por meio de um acordo de paz abrangente — anunciaram o lançamento de seu partido político, chamado pela mesma sigla da guerrilha, Farc, mas com outro significado: Forças Alternativas Revolucionárias da Colômbia.

    O grupo teve assegurado pelo acordo o direito de lançar candidatos e apresentar pela via eleitoral seu projeto de sociedade, rechaçado pela via armada. As Farc afirmam que não lançarão um candidato próprio na eleição presidencial de 2018, mas pretendem firmar uma aliança ampla com partidos que apoiam o acordo de paz.

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