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O que é a arquitetura parasita. E como ela ganha espaço em cidades

Projetos que utilizam prédios já existentes como estrutura para novas construções ganham força em zonas urbanas ao redor do mundo

     

    Um viaduto na cidade de Valência, na Espanha, se transformou na base de sustentação do miniescritório de Fernando Abellanas, designer local que construiu seu novo estúdio, à base de metal e madeira, embaixo da estrutura viária da cidade.

    Ao se aproveitar de um espaço existente subutilizado na cidade densamente povoada do sudeste espanhol, Abellanas deu forma a um conceito que se espalha cada vez mais ao redor de espaços urbanos de todo o mundo: a arquitetura parasita.

    A ideia de parasitismo na arquitetura consiste em estruturas que se penduram, se apoiam ou brotam de prédios já estabelecidos, e condicionam a própria existência à existência do outro, mais antigo e reconhecido como parte integrante da cidade. Podem ser restaurantes, escritórios e moradias. De uma forma ou de outra, têm a capacidade de reestruturar e redefinir a existência de seus “hospedeiros”.

    O conceito de parasitismo

     

    Na biologia, um ser parasita é aquele que retira o que precisa para sobreviver do corpo de uma outra espécie. O parasita pode gerar danos maiores ou menores ao seu hospedeiro, a depender do tipo de relação que estabelece.

    No caso da arquitetura, esse “dano” ao hospedeiro é quase sempre inexistente. O termo, nem por isso, pode ser considerado inapropriado. Além de existir a relação física visível de exploração de um corpo original para a existência de outro, que chegou depois, a arquitetura parasita também se coloca como uma forma de provocar um choque no “sistema de imunidade” das cidades.

    Essa é a ideia dos arquitetos holandeses Merel Pit, Karel Steller e Gerjan Streng em artigo que escreveram sobre o assunto. Os autores constroem uma imagem de cidade enquanto corpo vivo, composto de sistemas físico e mental. Ao ocupar espaços vazios em regiões urbanas já densamente construídas, a arquitetura parasita se coloca como um corpo estranho que gera desconforto e, por isso, tem potencial transformador.

    Cidade enquanto corpo

    Sistema físico

    Segundo os autores, o corpo físico de uma cidade é o mais fácil de compreender: engloba a sua infraestrutura, o ambiente construído, etc.

    Sistema mental

    Esse plano envolve as expectativas que as pessoas criam com relação ao espaço físico que habitam — expectativas que invariavelmente se contrapõem. Compreende tanto as regulamentações jurídicas da cidade quanto a sua política e as “regras não-escritas”, que abrangem os comportamentos implícitos que as pessoas esperam umas das outras, como a velocidade de andar na calçada, ou não tirar os sapatos no transporte público.

    Nesse contexto, segundo os autores o “sistema de imunidade” de uma cidade é composto pelas barreiras que impedem que pessoas ajam contra o sistema estabelecido.

    Essas barreiras podem ser sutis: se alguém tira o sapato no ônibus, no mínimo receberá olhares de reprovação das pessoas ao lado. Mas podem ser agressivas também: rampas, pedras e cacos de vidro que impedem que pessoas em situação de rua durmam em um local, por exemplo, ou protuberâncias de ferro em muros para impedir skatistas de fazerem manobras.

    O sistema imune da cidade influencia como as pessoas ocupam os seus espaços. A arquitetura parasita, portanto, surge como uma provocação contra essa imunidade. Mesmo que uma iniciativa não receba aprovação popular, o simples fato de gerar incômodo e discussão já é uma forma de ação. Para os autores, “superar indiferenças é uma meta em si mesma”.

    “O parasita ativa a batalha entre as pessoas que apoiam a transformação (portanto, o parasita) e as pessoas que querem manter a cidade como está”

    Merel Pit, Karel Steller e Gerjan Streng

    Em artigo sobre arquitetura parasita

    Parasitas nas grandes cidades

     

    A arquitetura parasita aparece como uma forma criativa de ocupar espaços menos óbvios em cidades densas. Em geral, essas cidades também convivem com o desafio de criar moradias a preços acessíveis para evitar a exclusão de populações economicamente vulneráveis dos centros mais desenvolvidos.

    Em Paris, na França, uma das soluções em debate é a construção de apartamentos de metal e vidro que se apoiam no terraço de prédios centenários, em bairros valorizados, com valores de aluguel mais baixos.

    Em San Francisco, nos EUA, uma instalação temporária acoplou uma pequena casa de madeira na parede de um hotel como forma de chamar a atenção ao direito de achar espaços livres em cidades para viver.

    No Canadá, outro projeto imagina como seria a CN Tower, torre de comunicação e turística símbolo de Toronto, se módulos de apartamentos fossem construídos no modelo parasita em sua estrutura.

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