Ir direto ao conteúdo

A cronologia do caso JBS: pressão, delação e questionamentos

Conversa encontrada em gravador é mais um capítulo do processo de delação dos irmãos Batista. Delatores mencionam procurador que ainda trabalhava no Ministério Público

     

    O acordo de delação premiada de executivos do grupo JBS, que controla o frigorífico JBS, é o mais polêmico da Lava Jato e, consequentemente, da história do Brasil. Com a promessa de entregar alguns dos políticos mais importantes do país, sete executivos receberam da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal a garantia de que não seriam presos pelos crimes confessados.

    Mas, agora, o acordo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do grupo, pode ser cancelado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. A suspeita é que eles não contaram todos os crimes que cometeram às autoridades, conforme manda um acordo de delação. A omissão coloca em risco todos os benefícios recebidos, mas, segundo Janot, não invalida as provas produzidas.

    O procurador-geral já intimou os delatores para prestarem esclarecimentos. Entre as suspeitas de omissão estão tentativas de interferir no Ministério Público e no Supremo Tribunal Federal usando, por exemplo, a influência do procurador da República Marcelo Miller.

    A ameaça de anular os benefícios dos delatores foi anunciada na segunda-feira (3) em entrevista em Brasília. A fala de Rodrigo Janot sobre o novo áudio encontrado no material entregue à Procuradoria-Geral da República adiciona fatos e capítulos à história da delação de executivos da JBS.

    O acordo veio à tona no dia 17 de maio de 2017, mas começou a ser pensado meses antes. O Nexo refaz a linha do tempo da delação premiada dos irmãos Batista com as novas conversas e a participação de Marcelo Miller.

    Cronologia

    Operação Cui Bonno, 13 de janeiro

    No início de 2017, a JBS era alvo de operações da Polícia Federal e do Ministério Público, como a Bulish, Greenfield e a própria Lava Jato. No final de janeiro a deflagração da Operação Cui Bonno voltou a incomodar os irmãos Batista.

    A Cui Bono tinha como alvos os peemedebistas Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha e investigava a cobrança de propina para a concessão de empréstimos pela Caixa Econômica Federal.

    A operação teve início graças a mensagens encontradas em dezembro de 2015 em um celular que estava na casa de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados.

    Marcelo Miller pede exoneração, 23 de fevereiro

    O procurador da República Marcelo Miller pede exoneração do cargo. Segundo despacho do próprio Janot, Miller trabalhava como auxiliar no grupo de trabalho que cuidava da Lava Jato em Brasília. Ou seja, integrava a equipe de Janot.

    O pedido mostra a intenção de Miller de deixar o serviço público, mas era só o primeiro passo do processo de desligamento. Entre o pedido e a exoneração efetiva, Marcelo Miller tirou férias, segundo informações da Procuradoria-Geral da República.

    Temer recebe Joesley, 7 de março

    Joesley é recebido por Michel Temer no Palácio do Jaburu, residência oficial do peemedebista, depois das 22h. O compromisso não aparecia na agenda oficial do presidente.

    Durante quase 40 minutos, o empresário grava escondido a conversa com o presidente da República. Nela, Joesley faz insinuações sobre pagamentos para manter o silêncio de Eduardo Cunha e ouve de Temer: "Tem que manter isso aí".

    Nesse encontro o presidente ainda indica Rodrigo Rocha Loures como interlocutor da JBS no governo. Semanas depois, Loures é filmado recebendo R$ 500 mil em dinheiro vivo dos empresários.

    Operação Carne Fraca e diálogo perdido, 17 de março

    A Polícia Federal deflagrou no início da manhã dessa sexta-feira uma operação contra fraudes em fiscalizações no Ministério da Agricultura. As maiores empresas de processamento de carne do Brasil, entre elas algumas da JBS, foram alvo acusadas de pagar propina a funcionários do Ministério para burlar fiscalizações sanitárias.

    O novo áudio, que segundo Janot foi encontrado no gravador de Joesley e pode cancelar o acordo de delação, é provavelmente dessa data. Nele, Joesley e o executivo Ricardo Saud, que também viria a ser um delator, ouvem o noticiário sobre a Operação Carne Fraca antes de fazerem comentários que o procurador-geral classifica como “gravíssimos”.

    Segundo a nota de Janot, no diálogo os delatores "falam sobre suposta atuação do então procurador da República Marcelo Miller, dando a entender que ele estaria auxiliando na confecção de propostas de colaboração para serem fechadas com a Procuradoria-Geral da República".

    Joesley grava Aécio, 24 de março

    Depois de conversas preliminares com Andrea Neves, irmã de Aécio Neves, Joesley se encontra com o senador tucano Aécio Neves em São Paulo. O empresário grava a conversa em que é acertado o pagamento de R$ 2 milhões a Aécio para que ele pagasse despesas com advogados na Lava Jato. Joesley também manteve os registros das conversas com Andrea.

    Negociação com Procuradoria-Geral, 27 de março

    Os executivos e advogados da JBS procuram a Procuradoria-Geral da República para um acordo de delação premiada. É o primeiro contato formal entre delatores e o órgão responsável por formular o acordo e calcular os benefícios. A data consta no despacho de Rodrigo Janot sobre o novo áudio.

    Marcelo Miller deixa o Ministério público, 5 de abril

    É a data em que Marcelo Miller deixa oficialmente o Ministério Público Federal. Pelas regras da instituição, ele não precisa cumprir quarentena antes de se transferir para o setor privado.

    Ainda em abril, ele vai à Procuradoria-Geral da República pela primeira vez como advogado e sócio do escritório Trench, Rossi e Watanabe. A reunião era sobre o acordo de leniência do grupo JBS, uma espécie de delação premiada de empresas.

    Ações controladas e depoimentos, abril

    Durante todo o mês de abril, os sete executivos da JBS prestam os depoimentos para embasar o acordo de delação premiada. É nesse período também que acontecem as ações controladas, como a entrega de dinheiro a Rocha Loures e ao primo de Aécio Neves — que foram filmadas pela Polícia Federal.

    Assinatura de delação, 3 de maio

    O acordo entre os delatores e a Procuradoria-Geral da República é assinado. É a partir dessa data que contam os 120 dias para que os delatores entreguem mais provas. O prazo terminou em 31 de agosto, quando os executivos entregaram o material que inclui o novo áudio.

    Homologação da delação, 10 de maio

    Com todos os depoimentos já finalizados na Procuradoria-Geral da União, Joesley e Wesley Batista vão ao Supremo Tribunal Federal para o primeiro encontro com o ministro Edson Fachin. É ele o responsável por homologar os acordos de delações premiadas feitos entre a Procuradoria-Geral da União e investigados.

    Vazamento da delação, 17 de maio

    O jornal “O Globo” publica a notícia do acordo de delação dos irmãos Batista com a Justiça na noite de 17 de maio. Na manhã do dia seguinte, a Polícia Federal vai às ruas em uma operação contra políticos como Aécio Neves, Zezé Perrella (PMDB-MG) e Rodrigo Rocha Loures.

    As revelações levaram pânico ao mercado financeiro e a bolsa de valores chegou a interromper as operações. A crise obrigou o presidente Michel Temer a fazer um pronunciamento negando que renunciaria ao cargo.

    Aécio é denunciado, 2 de junho

    Por corrupção passiva e tentativa de obstrução de Justiça, a Procuradoria-Geral da República denuncia o senador Aécio Neves com base na delação de executivos da JBS. Além do tucano, a irmã dele, Andrea Neves, o primo Frederico Pacheco e um assessor de Zezé Perrella, Menderson Souza Lima.

    Antes disso, o tucano já havia sido afastado da presidência do PSDB e do mandato no Senado, que recuperou no final de junho.

    Temer é denunciado, 27 de junho

    Rodrigo Janot envia ao Supremo Tribunal Federal uma denúncia por corrupção contra o presidente da República. Assim, Michel Temer se torna o primeiro presidente da história a ser acusado criminalmente no exercício do mandato.

    A denúncia se refere à entrega de R$ 500 mil da JBS a Rodrigo Rocha Loures. Na interpretação da procuradoria, o destinatário do dinheiro era Michel Temer, que havia indicado o correligionário para dialogar com Joesley.

    Câmara barra denúncia, 2 de agosto

    Depois de tramitar por uma comissão especial, a denúncia contra Michel Temer chega ao plenário da Câmara dos Deputados. E os parlamentares negam autorização para que a denúncia prossiga.

    Pela Constituição, uma denúncia contra um presidente da República no exercício do cargo só pode ser apreciada pelo Supremo Tribunal Federal com a autorização da Câmara dos Deputados.

    Acordo pode ser anulado, 4 de setembro

    Procurador-geral da República convoca pronunciamento às pressas e diz que o acordo com executivos da JBS pode ser anulado. O motivo seria a omissão de crimes que constam em um áudio entregue em 31 de agosto.

    Janot ressalta que, caso fiquem comprovadas as irregularidades, os delatores podem perder todos os benefícios do acordo de colaboração. Segundo o procurador-geral, porém, as provas geradas por eles continuarão válidas. Entre elas está a gravação da conversa com Michel Temer que já rendeu uma denúncia criminal contra o presidente e ainda pode render outra antes do fim do mandato de Janot, em 17 de setembro.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!