Por que muçulmanos vão a Meca. E como a política influencia a peregrinação

Fiéis de todo o mundo devem ir à cidade saudita pelo menos uma vez na vida. Para o país sede, turismo religioso é um bom negócio

Mais de 1,75 milhão de muçulmanos se encontraram nos arredores de Meca na Arábia Saudita na quarta-feira (30) para uma das maiores reuniões anuais do mundo, o Hajj. A palavra em árabe significa peregrinação, e representa um dos cinco pilares da fé islâmica. Todo muçulmano deve ir à cidade na Arábia Saudita pelo menos uma vez na vida, se tiver as condições financeiras e de saúde para tanto.

Ao mesmo tempo que o evento é uma importante fonte de renda para a região, também demanda o planejamento logístico das autoridades sauditas. Nas peregrinações de 1990, 2004, 2006 e 2015, acidentes no meio da multidão geraram pânico e pisoteamentos que resultaram na morte de centenas de pessoas.

O Hajj é assunto governamental de alguns dos maiores países muçulmanos, e existem ministérios responsáveis por organizar a ida de seus nacionais a Meca. Incidentes como esses geram tensões políticas com acusações de incompetência na organização do evento.

1.000

vagas para cada um milhão de habitantes. É a cota estabelecida pelo governo saudita a outros países muçulmanos para a recepção de fiéis no Hajj

Em 2016, por exemplo, o Irã não organizou a peregrinação depois de mais de 400 de seus nacionais morrerem no incidente de 2015. O cenário político de 2017 também é de tensão na região, com o isolamento do Qatar liderado pela Arábia Saudita, e sua consequente aproximação do Irã, principal força rival dos sauditas no Oriente Médio.

O que acontece no Hajj

Acredita-se que a ida a Meca é uma forma de refazer os passos de Maomé, considerado um profeta da religião e responsável por unir a Península Arábica em torno do islamismo. Maomé teria nascido em Meca, e em 632 da era comum voltou para lá pela última vez antes de morrer em Medina, outra cidade saudita sagrada para a religião.

A entrada na cidade também é uma forma de diminuir as diferenças entre os fiéis, que devem se vestir da mesma forma, usando o traje branco chamado ihram.

Ao entrar na cidade sagrada, se reúnem em volta da pedra sagrada que seria a morada de deus, a Kaaba. É para ela que muçulmanos se voltam ao fazer suas orações diárias, onde quer que estejam no mundo. Os peregrinos dão sete voltas em sentido anti-horário ao redor da Kaaba — ritual chamado tawaf.

Depois disso, caminham também sete vezes entre as colinas Marwa e Safa, que ficam ao lado da Kaaba. É o ritual chamado saey. De Meca voltam para Mina, uma cidade próxima que serve de estadia para os peregrinos.

Depois, caminham 14 quilômetros até Arafat, onde acontecem novas rezas. Voltam para Mina mas antes param em Muzdalifah para coletar pedras que, depois, em Mina, serão atiradas nos pilares que representam o demônio.

As datas para o Hajj são definidas pelo Judiciário da Arábia Saudita. O calendário islâmico é baseado na lua, e o início de cada mês pode depender da visibilidade do satélite natural.

A autoridade saudita é responsável por fazer a observação oficial da lua para determinar o início do último mês do ano islâmico, o Dhu al-Hija. No oitavo dia desse mês têm início os rituais em Meca.

Relevância econômica para Arábia Saudita

 

O turismo religioso é a terceira principal fonte de renda para a Arábia Saudita. Só perde para o dinheiro ganho com a exploração do petróleo e da indústria petroquímica. Isso por si só já bastaria para fazer do Hajj um evento bem-sucedido, uma vez que todos os olhos do mundo muçulmano se voltam para a cidade.

Mas somado a esse cenário está o atual momento do mercado global de petróleo, com o preço em queda e gerando lucros que crescem cada vez menos para os sauditas.

O ano de 2016 foi de deficit orçamentário no país, e embora o de 2017 tenha começado um pouco melhor, com apenas US$ 7 bilhões em perdas, o governo saudita já planeja um futuro pós-petróleo. O turismo é parte importante desse planejamento.

Os sauditas estão gastando US$ 80 bilhões em reformas na cidade de Meca, incluindo a construção do maior hotel do mundo, orçado em US$ 3,5 bilhões. A ideia é aumentar a capacidade de hospitalidade da região para 20 milhões de pessoas a mais até 2030.

A preocupação com a segurança e possíveis ataques terroristas em Meca também tem ganhado importância nos últimos anos. Para não perder peregrinos receosos com a violência e possíveis acidentes, os sauditas promovem uma parada militar cinematográfica alguns dias antes da data oficial do Hajj.

Jogo político com o Qatar

 

A população do emirado do Qatar tinha dúvidas se poderia participar da peregrinação em 2017. Isso porque desde o início de junho as fronteiras da Arábia Saudita estão fechadas para os nacionais do país, fruto de uma crise política que não parece próxima de se resolver.

Os vizinhos no Oriente Médio acusam o governo catariano de patrocinar o terrorismo na região. O Qatar, por sua vez, responde que as acusações se “baseiam em várias alegações fabricadas e em mentiras”.

Alguns dias antes da peregrinação começar, o rei saudita ordenou a abertura para o Hajj, e ofereceu pagar os voos dos muçulmanos catarianos do próprio bolso.

A rede de imprensa Al Jazeera, ligada ao governo do Qatar, diz que os peregrinos do país teriam que esperar até 2018 para que, caso a situação política melhorasse, pudessem cumprir o dever de ir a Meca. Já o governo saudita afirma que a quantidade de catarianos participando da peregrinação aumentou em 30% em 2017 comparada a 2016.

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