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O que é whitewashing. E por que o cinema é tão criticado por isso

Em caso recente, ator britânico Ed Skrein, branco de olho azul, recusou um papel de personagem asiático em ‘Hellboy’

    Foto: Reuters/Reprodução
    o ator Ed Skrein desistiu de fazer o personagem Ben Daimio, de 'Hellboy'
    o ator Ed Skrein desistiu de fazer o personagem Ben Daimio, de 'Hellboy'
     

    Uma semana depois de ter anunciada sua participação no elenco de um novo filme sobre o herói dos quadrinhos “Hellboy”, previsto para 2018, o ator britânico Ed Skrein (que fez o vilão de “Deadpool”, de 2016) optou por ficar de fora do longa.

    Pelo Twitter, Skrein, que é branco de olho azul, se explicou dizendo que não sabia que o personagem que ele interpretaria, o Major Ben Daimio, é de origem asiática, o que motivou discussões. Sendo assim, ele fez “o que achava certo” na esperança de que isso fizesse a diferença.

    “Está claro que fazer a representação desse personagem de uma maneira culturalmente precisa é algo importante para as pessoas, e negligenciar essa responsabilidade significaria continuar uma tendência preocupante de se ignorar [obscure] histórias e vozes das minorias étnicas nas Artes. Sinto que é importante honrar e respeitar isso. Por isso eu decidi sair do filme para que o papel possa ser escalado apropriadamente”, afirmou o ator na nota, onde ainda comentou sobre a importância de se tomar “decisões morais em tempos difíceis e dar voz à inclusão”.

    Pela mesma rede social, a atitude de Skrein foi bem recebida por colegas, como Simu Liu (“Busca Implacável” e “Kim’s Convenience”), que é de origem chinesa. Mas duas reações se destacam: o ilustrador do personagem “Hellboy”, Mike Mignola, criado por ele em 1993, agradeceu a Skrein; e o ator David Harbour (o delegado da série “Stranger Things”), escalado para o personagem principal do filme, disse: “internet, obrigado por suas vozes. Uma injustiça foi feita e será corrigida. Muito obrigado ao Ed Skrein por fazer o que é certo”.

    O filme terá direção do inglês Neil Marshall (que tem episódios de séries como “Game of Thrones”, “Westworld” e “Black Sails” no currículo), e não mais do mexicano Guillermo del Toro, responsável pelos anteriores “Hellboy” e “Hellboy II”, de 2004 e 2008.

    O que é whitewashing

    Com a informação inicial da participação de Skrein no papel do asiático Major Ben Daimio, o filme passou a ser criticado por whitewashing (em inglês, “white” é branco e “washing” é limpeza). A prática, antiga e recorrente da indústria cinematográfica americana, consiste em escalar um elenco de atrizes e atores brancos para papéis de raça, cor ou etnia diferentes, como asiáticos, latinos, negros ou indígenas.

    Durante muito tempo, o cinema americano fez uso de tinta para transformar atrizes e atores brancos em personagens – geralmente exagerados, burlescos e carregados de estereótipos – negros ou asiáticos.

     

    O personagem negro interpretado por Al Jolson no musical “O cantor de Jazz” (1927); e o caricato japonês Sr. Yunioshi, feito pelo americano Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo” (1961), são exemplos de whitewashing.

    O truque de maquiar atores, que ganhou o nome de blackface (cara preta) e yellowface (cara amarela), perdeu força na segunda metade do século 20. O mesmo não pode ser dito sobre a contratação de atrizes e atores etnicamente diversos para papéis correspondentes, o que provocou reações segundo as quais é preciso melhorar a representatividade no cinema.

    Baixa representatividade, em números

    Uma pesquisa publicada em 2016 traz dados sobre a representatividade de etnias no entretenimento em filmes de 2011 a 2015. Ela foi intitulada “Inclusão ou invisibilidade?” e conduzida por pesquisadores da USC (Universidade do Sul da Califórnia), na unidade de Los Angeles, cidade americana que abriga o polo cinematográfico de Hollywood.

    Representatividade na tela

    Personagens no cinema por etnia ou raça

    A pesquisa aponta ainda que metade dos filmes americanos daquele ano não tem nenhum personagem negro ou asiático. E que, olhando para os bastidores, a proporção de diretores brancos é de 7 para 1 de raça, cor ou etnia diversa.

    Já o relatório anual sobre diversidade em Hollywood, publicado em abril de 2017 pela UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), aponta que entre 2011 e 2015, o número de protagonistas não-brancos em filmes variou de 10,5% (2011) e 16,7% (2013) para 13,6% (2015).

    O que diz Hollywood

    Parte das explicações sobre a recorrência desse tipo de prática, pelo lado de quem produz filmes e séries nos EUA, recai sobre a dificuldade de se encontrar atrizes e atores para os papéis.

    Masi Oka, um dos produtores do filme “Death Note”, lançado em agosto pela Netflix, falou algo parecido ao responder a acusações de whitewashing – o filme adaptou o enredo do anime japonês para se passar nos EUA com protagonistas brancos.

    “Nossos diretores de casting [seleção de elenco] fizeram uma extensa busca por atores asiáticos, mas não conseguiram achar a pessoa certa. Os atores com quem conversamos não falavam inglês perfeitamente… e os personagens foram então reescritos”, disse, acrescentando ainda que os estúdios cobraram a busca por atores asiáticos e que eles estavam conscientes da questão.

    “Acho que a indústria está melhorando, mas eu concordo totalmente com aqueles que dizem que nós ainda não fomos longe o suficiente, rápido o suficiente”, afirmou à BBC, em 2015, o presidente da Sony Pictures, Thomas Rothman.

    Outra parte dos profissionais endereça a culpa à indústria e sua forma de financiamento. O diretor Ridley Scott, respondendo a críticas à sua super produção “Êxodo: Deuses e Reis” (2014), que tem Christian Bale como o personagem biblíco Moisés, disse: “Eu não consigo montar um filme desse orçamento e dizer que meu protagonista é o ator Mohammad fulano-de-tal de não-sei-onde. Eu simplesmente não vou conseguir a verba”.

    O roteirista hollywoodiano Max Landis (“American Ultra” e “Poder Sem Limites”) rebateu quem criticou a escolha da atriz Scarlett Johansson para o papel de protagonista de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” (2017), filme baseado em um mangá (quadrinho ao estilo japonês).

    Para ele, ficar bravo por isso mostrava que as pessoas “não conhecem como a indústria de filmes funciona”. “Não existem celebridades asiáticas mulheres ‘top A’ atualmente em nível internacional”, disse, lamentando ainda a falta de atrizes como Lucy Liu e atores como Jackie Chan e Jet Li hoje em dia.

    Casos famosos de whitewashing

    ‘Death Note’ (2017)

    O filme produzido pela Netflix conta a história de um jovem estudante de Seattle, nos EUA, chamado Light Turner – e sua namorada Mia Sutton – que encontra um caderno que causa a morte de quem tem o nome escrito nele. A produção foi alvo de polêmica por ser um remake de um anime de sucesso (adaptado originalmente de um mangá) que conta a história de um japonês chamado Light Yagami, que se envolve com a jovem Misa Amane, em Tóquio.

    ‘Doutor Estranho’ (2016)

    A escolha da atriz britânica Tilda Swinton para o papel d’O Ancião, personagem originalmente retratado como um homem tibetano nos quadrinhos, não passou despercebida. “Dada a escassez de papéis asiáticos, não havia motivo para que um monge no Nepal não pudesse ser asiático”, apontou em nota a Manaa, organização ativista que reivindica maior participação de asiáticos em filmes americanos.

    ‘A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell’ (2017)

    O filme americano, que não teve um bom retorno de bilheteria, faz uma adaptação de uma história originalmente japonesa, mas gerou controvérsia ao escalar Scarlett Johansson para o papel de protagonista, interpretando um ciborgue em um conflito com terroristas no Japão. “Aparentemente, em Hollywood, pessoas japonesas não podem fazer papéis de pessoas japonesas mais”, criticou o presidente da Manaa.

    ‘O Último Mestre do Ar’ (2010)

    O longa é um live action (produção com atores de carne e osso) adaptada da animação de produção americana “Avatar”, feita no estilo anime. O desenho tem elementos de mitologia e artes marciais asiáticas; mas no filme o protagonista Aang é interpretado pelo americano (branco) Noah Ringer. A produção gerou mobilização na internet por meio da hashtag #AangAintWhite (Aang não é branco).

    ‘Peter Pan’ (2015)

    Na adaptação americana, a atriz Rooney Mara foi escalada para o papel de Princesa Tigrinha, que originalmente é indígena. Com as críticas, a atriz chegou a dizer em entrevista que odiava estar “deste lado do debate sobre whitewashing”. “Eu realmente odeio. Eu não quero nunca mais estar deste lado de novo. Eu consigo entender por que as pessoas estão chateadas e frustradas”.

    ‘Sob o Mesmo Céu’ (2015)

    A comédia romântica americana conta com um elenco totalmente branco sobre personagens no Havaí, estado americano habitado cuja parcela de não-brancos chega a 70%. Emma Stone, atriz branca nascida no Arizona, interpreta Allison Ng (que é filha de pai meio chinês e meio havaiano; e de mãe sueca). Após duras críticas ao filme, Stone disse ter sido motivo de piadas e ter aprendido sobre “a insana história de whitewashing em Hollywood”, e como isso era um problema real. “Gerou uma conversa que é muito importante”, notou.

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