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Por que um time feminino de handebol protesta contra o uso do sunquíni

Time de handebol de areia do Rio de Janeiro foi proibido de jogar usando shorts por baixo do sunquíni no último domingo

    O sunquíni é uma roupa de banho de duas peças, como o biquíni. Sua parte de baixo é menos cavada e mais larga na lateral do que costumamos ver entre as banhistas, e a parte de cima também é reforçada, como um top de academia. É o uniforme oficial dos times de handebol de areia femininos, segundo determina a Federação Internacional de Handebol.

    No dia 27 de agosto, domingo, a equipe feminina CopaBeach/Cepraea, do Rio de Janeiro, foi impedida de jogar uma partida do campeonato estadual usando shorts por baixo do sunquíni.

    A proibição foi feita no momento da partida, pelo departamento de arbitragem da Federação de Handebol do Estado do Rio de Janeiro, com a justificativa de cumprimento do regulamento internacional no que diz respeito à vestimenta: o time seria penalizado com WO – atribuição da vitória à equipe adversária – caso as atletas não jogassem somente de sunquíni.

    As jogadoras decidiram entrar em quadra sem o shorts para evitar a penalidade e, após o jogo, se manifestar contra a proibição, na tentativa de mudar a situação para as etapas seguintes do campeonato.

    No mesmo dia da partida, a atleta Gabriela Peixinho, membro do time CopaBeach/Cepraea, publicou em seu perfil no Facebook um manifesto “contra o machismo no esporte”, no qual caracteriza o uso obrigatório do sunquíni pelas atletas como machista e desigual. Peixinho e as colegas defendem que cada equipe deve poder optar ou não pelo uso do sunquíni.

    Após o protesto no Facebook, elas receberam apoio de times femininos de handebol de areia de outras partes do país, como Paraíba e Piauí, e de dirigentes de outros times do Rio, disse Peixinho ao Nexo.

    Por que o sunquíni é considerado sexista

    Regras da federação internacional são desiguais

    O uniforme previsto pelo regulamento internacional para as equipes masculinas de handebol de areia é composto de bermuda longa (na altura do joelho) e camiseta regata.

     

    Exposição do corpo das atletas é usada para atrair espectadores

    Atletas se queixam da obrigatoriedade de mostrar o corpo e a consideram objetificadora (sujeitando as atletas em quadra à posição de objeto sexual), ligada à tentativa de criar apelo estético para atrair espectadores, sobretudo masculinos, para a modalidade.

    Como as atletas argumentam contra a imposição

    Peixinho informou que o time está preparando um documento que contesta o regramento estabelecido pela federação internacional. Ele será enviado às entidades de handebol para que se posicionem.

    Entre os pontos do texto antecipados pela atleta para o Nexo, estão os argumentos de que o uso obrigatório do sunquíni viola o direito das mulheres de decidirem sobre os próprios corpos e o princípio da igualdade de gênero; que a restrição ao uso do short fere o caráter inclusivo do esporte e pode afastar da prática mulheres que não se sintam à vontade para usar o uniforme e que a flexibilização de outras regras da federação internacional já é feita pelos campeonatos, o que leva a questionar por que o uso do sunquíni não pode também ser revisto; além de contar com o apoio à discussão por outras equipes e entidades feministas.

    Ela questiona, ainda, a falta de representatividade feminina em entidades como a Federação de Handebol do Estado do Rio de Janeiro e a Confederação Brasileira de Handebol. “Essas regras foram feitas por homens e para os homens que estão vendo os corpos das mulheres jogando na praia”, critica.

    A Federação de Handebol do Estado do Rio de Janeiro justificou, por e-mail, que a atuação da arbitragem do Rio de Janeiro segue os moldes internacionais e que "compete a esta Federação seguir as regras vigentes e colocá-las em prática, sempre visando o melhor para o Esporte como também para os seus praticantes, não ferindo as determinações da Entidade Mor". 

    Não é a primeira vez que atletas mulheres das modalidades de areia se revoltam contra o uso obrigatório do sunquíni. Em 2014, a Associação Basca de Handebol apresentou uma reclamação oficial à Federação Europeia de Handebol, contra punições que a federação espanhola do esporte ameaçava aplicar sobre atletas que haviam sido “denunciadas” por cobrirem demais o corpo durante as partidas de um torneio, segundo uma reportagem do jornal inglês The Telegraph. 

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: Este texto foi modificado após a publicação para incluir o posicionamento da Federação de Handebol do Estado do Rio de Janeiro. Contatada pelo 'Nexo' no dia 29 de agosto, a Federação não havia se manifestado até a manhã de quarta-feira, 30 de agosto. A inclusão foi feita no dia 30, às 13h58.

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