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Quais cuidados devem ser tomados em relações sexuais entre mulheres

O ‘Nexo’ fez cinco perguntas à médica do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde sobre a saúde sexual de mulheres lésbicas

 

No dia 29 de agosto é comemorado o dia da visibilidade lésbica. Mesmo com o ganho de espaço do movimento LGBT na esfera pública nos últimos anos, o movimento lésbico destaca a importância de ter um dia de luta. A data existe desde o 1º Seminário Nacional de Lésbicas, que aconteceu no dia 29 de agosto de 1996 no Rio de Janeiro.

O objetivo da data é relembrar a história e a luta de outras mulheres para garantir espaço para exercer sua sexualidade e também para reivindicar a conquista de novos direitos. No caso das mulheres que se relacionam com outras mulheres, a luta contra a lesbofobia é a principal bandeira.

Nesta mesma data, em 2016 a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados publicou uma nota reconhecendo a importância deste dia: “A ausência de políticas incisivas de combate ao chamado ‘estupro corretivo’, motivado pela intenção lesbofóbica de corrigir a orientação sexual das lésbicas, e a invisibilização das mulheres lésbicas mesmo quando os debates LGBT estão em voga, são questões que merecem atenção especial e batalhas por transformação”.

O preconceito contra mulheres lésbicas gera impacto não somente em casos de violência explícita, mas age também de forma silenciosa no exercício de outros direitos, como por exemplo, o direito à saúde. Historicamente, a discussão sobre os direitos sexuais dessa parcela da população só teve início no fim da década de 1980, a partir do surto de HIV e Aids, que afetou, também, os gays e as lésbicas.

Os estudos sobre a sexualidade de lésbicas são poucos e o modo como médicos são instruídos durante a graduação para lidar com a saúde sexual de mulheres também pode se tornar um obstáculo para essa parcela da população, que não encontra apoio no sistema de saúde.

Para discutir o tema, o Nexo entrevistou por telefone Thais Machado Dias, médica familiar formada pela Unicamp e membro do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

Quais prevenções as mulheres devem adotar na hora de fazer sexo com outras mulheres?

Thais Machado Dias Em primeiro lugar, cabe enfatizar que todos os dispositivos que temos disponíveis até hoje para prevenção de DST são focados no sexo com pênis. Até no sexo homoafetivo entre homens é possível fazer uma boa prevenção com preservativo masculino. Mas o preservativo masculino é feito para ser usado em um pênis. A indústria ainda não produziu nenhum material específico para sexo entre duas mulheres. Todos os materiais que temos são materiais adaptados de um sexo heteronormativo.

Outra discussão importante é a questão do sexo oral. É difícil discutir esse tema inclusive com os casais heterossexuais. O uso de proteção [e de camisinhas] em sexo oral é muito baixo. E a proteção de barreira para a mulher funciona da mesma forma. No caso do sexo oral entre mulheres, é comum se usar um dispositivo de barreira, ao cortar um preservativo masculino com um corte específico. Entre usar um preservativo ou um plástico filme [para o sexo oral], tendemos a orientar o uso do preservativo porque ele é mais resistente, é de graça [há distribuição gratuita na rede pública] e existe uma maior variabilidade de sabores e texturas. Ainda assim, as mulheres têm intenso desconforto em usar o dispositivo.

No sexo lésbico, outro fator que está mais relacionado com a contração de DSTs é a frequência das relações e não o número de parceiras. Para o sexo manual, alguns materiais estão disponíveis, como o uso de luva ou uma dedeira de látex, usada como se fosse um preservativo de dedo. No entanto, esses dispositivos também são considerados desconfortáveis por quem os utiliza.

Também orientamos que as mulheres que se relacionam com outras mulheres cortem as unhas, já que deixar a unha comprida pode machucar a parceira durante o sexo e isso gera exposição a sangue, que é a maior fonte de transmissão [de doenças sexualmente transmissíveis].

Por último, temos que aumentar a cultura no Brasil é que os parceiros façam exames de sorologia e os troquem entre si, e isso vale tanto para o sexo homoafetivo quanto para o heteronormativo.

Existe um tabu que impede mulheres lésbicas ou bissexuais de procurarem seus ginecologistas para sanar dúvidas?

Thais Machado Dias A sexualidade é um tabu na sociedade e a homossexualidade é um tabu ainda maior. E a relação das mulheres com o serviço de saúde é um outro problema. São grandes problemas que se sobrepõem. O atendimento humanizado é uma luta feminista histórica das mulheres dentro dos serviços de saúde, mesmo as mulheres com sexualidade heteronormativa. As mulheres heterossexuais também têm queixas a respeito de seus atendimentos ginecológicos. O contato das mulheres com os atendimentos de saúde é tradicionalmente violento. Durante o atendimento, muitas pacientes  não falam sobre sexualidade ou só falam se o profissional de saúde pergunta. Mas, na maioria das vezes, o profissional não pergunta. Outras não falam por medo de serem tratadas de maneira pior, já que elas não sabem quais são os valores daquele profissional e como esse profissional vai lidar com a informação sobre sua orientação e práticas sexuais.

Outro fator é que é raro os médicos terem acesso durante a formação na universidade sobre como conduzir o atendimento de mulheres, em especial, lésbicas ou com práticas sexuais menos convencionais. Eu não tive essa formação na graduação e nem na residência. Mas acho que essa mudança, aos poucos, está chegando.

Quais exames ginecológicos periódicos mulheres lésbicas ou bissexuais devem realizar?

Thais Machado Dias Os mesmos que as mulheres heterossexuais devem realizar. Ser homossexual não te exclui de nenhum desses exames. O mais clássico é o papanicolau, que é anual, e deve ser feito a partir dos 25 anos. O papanicolau é um exame de prevenção de câncer e localiza lesões precursoras de câncer. Mas sua coleta envolve exame especular com observação direta do colo uterino, e não é feito em mulheres que nunca tiveram uma penetração na vida. Exames de sorologia para pessoas que têm vida sexual ativa também devem ser feitos anualmente. Além disso, recomenda-se a mamografia na frequência correta e a se seguir o calendário de vacinação normal.

Quais são as doenças sexualmente transmissíveis mais frequentes entre mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres?

Thais Machado Dias As mais comuns são sífilis, HPV e herpes genital. Hoje, estamos passando por um surto de sífilis no país, com causa multifatorial, que vai desde a indústria farmacêutica que produz penicilina [que está em falta no mercado], até uma redução de uso de preservativo de maneira global, principalmente entre a população mais jovem.

A questão do HPV também tem sido muito discutida, porque tem havido um certo sobrediagnóstico, ou seja um diagnosticado inútil, que não muda o prognóstico da doença. Um dos seus sorotipos causa condiloma, um tipo de verruga genital, que é também altamente transmissível durante a relação sexual. Assim como a herpes genital, que é altamente transmissível. É importante ressaltar que essas doenças são igualmente transmissíveis tanto no sexo lésbico quanto no sexo heterossexual.

Já houve relatos de mulheres lésbicas que foram tratadas em consultas ginecológicas como virgens, por não terem tido relação sexual com homens. Isso faz sentido?

Thais Machado Dias Não. Primeiro, é preciso diferenciar orientação sexual das práticas sexuais. É muito comum uma mulher lésbica já ter tido relação sexual com um homem por vários motivos, desde relações involuntárias de violência, ou relações voluntárias que podem ter acontecido antes da mulher ter se assumido lésbica. E quando a mulher se assume lésbica ou tem um tipo mais masculinizado as pessoas costumam pressupor que ela só fez sexo com mulher ao longo da vida, o que pode não ser verdade. Mesmo que a mulher se declare lésbica é importante os médicos perguntarem quais práticas já foram realizadas ao longo da vida. Outra questão importante é: sexo lésbico também é sexo, e a mulher não é mais ou menos virgem por isso. Não devemos excluir a população lésbica de nenhum desses mecanismos de exame.

NOTA DE ESCLARECIMENTO: A pedido da entrevistada, as respostas da entrevista que acompanha este texto foram reeditadas a fim de deixá-las menos coloquiais, sem mudança substantiva de conteúdo. A reedição foi feita à 11h50 do dia 30 de agosto de 2017.

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