O fundamento é o samba: músicas para conhecer o dom de Wilson das Neves

Baterista morto no sábado (26) deixa legado musical que vai muito além do samba: veja gravações históricas compiladas em playlist feita pelo 'Nexo' para conhecer sua trajetória

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    “Eu nasci sem saber nada e também vou morrer sem aprender tudo. E se a morte é um descanso, Meu bem, eu prefiro viver é cansado.” A letra de autoria de Wilson das Neves e do parceiro Paulo César Pinheiro (do álbum “O Som Sagrado de Wilson das Neves”, de 1996) é uma homenagem ao amigo e parceiro Mestre Marçal, mas cabe perfeitamente ao próprio Das Neves, que se viveu cansado foi por nunca ter parado de produzir. Ele que foi um dos grandes bateristas, cantores e, sobretudo, defensores do samba do país, morreu aos 81 anos, na noite de sábado (26), no Rio de Janeiro, deixando dois filhos e seu “som sagrado” como legado.

    Carioca de São Cristóvão, nascido em 1936, teve contato com a bateria e com o samba muito cedo. Ao Nexo, em 2016, Das Neves relembrou sua primeira relação com o ritmo, no terreiro do quintal de sua tia. “Eu já estava ali prestando atenção. Tinha o partido alto que era pra versar, era na palma da mão, raspando no prato, um pandeiro às vezes nem tinha. Era mais artesanal.”

    Reconhecido por sua simpatia, alegria e elegância (seu visual costumava acompanhar chapéu, terno de alfaiate, gravata, óculos e seu tradicional bigode), Das Neves é também dono de bordões e frases de efeito, como “Não importa o que você é, mas o que você faz, se é que faz alguma coisa”, “Eu tenho tudo, porque não quero nada”, “Barata viva não atravessa terreiro”, “Se a onça morrer o mato é nosso” e “Quem me ensinou sabia”. Dentre os bordões, o mais famoso é “Ô, sorte”, uma saudação que costumava trocar com o amigo músico Roberto Ribeiro, comemorando a felicidade de serem ambos do Império Serrano. “Ele morreu, eu fiquei com o bordão. É um agradecimento à vida, a meus orixás, a tudo”, disse o baterista.

    Aliás, a escola de samba de Madureira era uma de suas grandes paixões – ao lado do Flamengo. Filho de uma baiana do Império Serrano, cresceu dentro do terreiro e da quadra da escola e a ela se dedicou, tornando-se nos últimos anos seu padrinho de bateria.

    “Wilson das Neves dizia que na morte dele não queria tristeza e sim que fizessem samba. Queria morrer com o pagode dele”, disse Gilmar Cunha, atual mestre de bateria do Império, onde o corpo do músico foi velado, ao anunciar que a ala deve fazer uma homenagem a ele no ano que vem.

    Aos 18 anos, já tocava em bailes na então capital federal. Influenciado pelo baterista Luciano Perrone, passou a tocar na Rádio Nacional e a fazer parte de gravações de samba em estúdios e até mesmo em orquestras. Seu talento estava descoberto.

    Participou da gravação de centenas de álbuns, muitos deles clássicos da música brasileira, e acompanhou apresentações de grandes nomes. Entre suas parcerias estão gente do calibre de Ataulfo Alves (que não aceitava outro baterista por odiar ritmistas exibidos, fazendo estripulia fora do andamento), Wilson Simonal, João Nogueira, Tom Jobim (na trilha de “Orfeu da Conceição”), Elizeth Cardoso, Moacir Santos, Sarah Vaughan, Elis Regina, João Gilberto, Jorge Ben, Elza Soares, Ney Matogrosso e Chico Buarque – chamado por ele de “Chefia” e de quem se tornou ídolo e instrumentista oficial nos palcos pelos últimos 30 anos. “Ele é o pulso da banda, termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé”, disse Chico certa vez.

    Baterista dono de rigor técnico e influência do jazz, Das Neves via samba em tudo que via e ouvia no Brasil. “O ritmo brasileiro para mim é samba tocado de maneiras diferentes.”, disse ao Nexo.

    “Tem a bossa nova, que tem uma pesquisa maior em harmonia, mas não deixa de ser samba. Pagode não é estilo de música, pagode é uma festa, eu canto samba e vira pagode, porque é uma festa, né? O coco alagoano é um partido alto. O frevo tem uma samba ali dentro. Os ritmos baianos, como o axé, é bossa nova só que tocado de forma mais sutil, mais suave. Ciranda e maracatu têm samba. Os instrumentos são diferentes, mas o fundamento é o mesmo, é samba.”

    Trajetória em gravações

    Baterista e parcerias

    Como baterista, tocou com diversos músicos brasileiros e internacionais (na reunião de instrumentistas nacionais para a gravação de “I Love Brazil” com a cantora americana Sarah Vaughan, foi ele quem assumiu as baquetas). Mas a parceria com Elza Soares em seu álbum de 1968 é um marco da sua carreira. O nome do disco diz tudo: “Elza Soares - Baterista: Wilson Das Neves”. Nele, encontram-se clássicos como “Mulata Assanhada”, “Se Acaso Você Chegasse”, “Garôta De Ipanema”, “Saudade da Bahia” e “Deixa Isso Prá Lá”. O resultado é uma aula de suinge. Ao Nexo, em 2016, Das Neves elogiou o talento da parceira. “Samba é a especialidade dela. Mas a Elza é uma cantora eclética. Ela canta qualquer coisa!”. Com a morte de Das Neves, Elza publicou mensagem nas redes sociais relembrando o disco icônico: “Dói tanto você perder uma pessoa que ama. Eu tinha um respeito muito grande, um carinho muito grande por ele. Nosso disco foi feito há muitos anos, mas parece ter sido feito hoje, tamanho bom gosto.”

    Conjuntos instrumentais

    Além de levar sua bateria para a gravação de álbuns de outros músicos brasileiros, Das Neves formou seu próprio conjunto em 1964, e lançou o LP “Juventude 2000”. Anos depois, em 1969 e 1970, lançou “Som quente é o das neves” e “Samba-tropi — Até aí morreu Neves”. Pela raridade, ambos ganhariam tempos depois um status cult no Brasil, mas sobretudo fora dele, fato lembrado com algum ressentimento por Das Neves. “Vivo no Brasil e ninguém conhece os meus discos. Vou ao Japão e todo mundo tem o meu disco”, disse.

    Baqueta e vocais

    Em 1996, com “O Som Sagrado de Wilson das Neves”, o instrumentista torna público aquilo que já era sabido nas rodas que frequentava: o fato de, além de um excelente baterista, ser um grande cantor. Profundo admirador de cantores como Mário Reis, Ataulfo Alves, Ismael Silva, Jamelão, Roberto Silva, Marçal e Henricão, Das Neves gravou álbuns com letras autorais e em parcerias com amigos como Chico Buarque e Paulo César Pinheiro -- com quem escreveu “O  samba é meu dom”. Os trabalhos seguintes foram: “Brasão de Orfeu” (2004), “Pra Gente Fazer Mais Um Samba”(2010) e o derradeiro “Se me chamar, ô sorte” (2013).

    Reverência jovem

    Nos últimos anos, Das Neves foi objeto da biografia “Ô sorte! Memórias de um imperador” (de Guilherme de Vasconcellos) e do documentário “O samba é meu dom” (de Alexandre Segundo Castro de Souza). O baterista participou da abertura da Olimpíada no Rio de Janeiro em 2016, e também apareceu atuando no filme “Noel: poeta da Vila” (2006) e na série global “Os experientes” (2015).

     

    A fama é parte de um reconhecimento que também se manifestou na música por meio de artistas mais jovens, coisa que lhe rendeu o apelido de “Wilson dos Novos”. Por mais de 10 anos, Wilson das Neves foi a estrela maior do grupo Orquestra Imperial, big band já formada por Moreno Veloso, Rodrigo Amarante, Domenico Lancelloti, Kassin, Nina Becker, Thalma de Freitas, Rubinho Jacobina, Bidu Cordeiro e outros. Fez shows com o rapper BNegão, cantando clássicos como “Juízo final” (de Nelson Cavaquinho), e gravou com Emicida as músicas “Trepadeira” e “Ô sorte”; esta uma homenagem ao “Seu Wilson”.

    16 músicas para conhecer Wilson das Neves

    Desde a histórica parceria com Elza Soares, a seus trabalhos com artistas mais jovens como Emicida e com a Orquestra Imperial, passando pelos álbuns que assume também os vocais, uma seleção de músicas para conhecer o eterno Wilson das Neves:

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