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Quem lucra com a música alternativa no Bandcamp

Rede tem sido escolhida por selos e artistas alternativos, mas não deixa de ser uma empresa privada

 

Lançado em 2008, o site Bandcamp funciona como uma espécie de rede social para compartilhamento de música. Selos musicais, bandas ou artistas solo podem customizar suas páginas e alimentá-las com suas obras, disponibilizadas para o resto dos usuários. Apesar de possuir também álbuns de artistas consagrados, o Bandcamp conquistou espaço ao se tornar a plataforma escolhida por um grande número de músicos e selos independentes.

Os atrativos do Bandcamp para os independentes

O modelo de remuneração dos artistas é um dos principais motivos que fazem com que muitos se voltem ao Bandcamp. Apesar de a remuneração ser variável, outro serviço de divulgação musical, o Spotify, paga, em muitos casos, menos de um centavo de dólar por cada música ouvida, o que significa que apenas artistas com grande volume de ouvintes conseguem ganhar um volume significativo de dinheiro com os cerca de 60 milhões de assinantes.

Com 51,7 milhões de usuários mensais, o Bandcamp, por outro lado, não paga aos artistas por cada música ouvida em streaming, e, sim, incentiva que eles mesmos vendam suas faixas pela plataforma. A taxa cobrada sobre o valor das músicas digitais vendidas é de 15%. A taxa para o merchandising é de 10%, o que inclui álbuns físicos, como discos de vinil e CDs, além de itens como camisetas e canecas.

Bandas pequenas demais para lucrarem com plataformas como Spotify, mas com um público disposto a pagar pelos seus produtos, veem, portanto, no Bandcamp, uma boa ferramenta de distribuição.

Do lado dos ouvintes, o site tem apelo entre aqueles interessados em descobrir artistas pouco conhecidos e comprar deles diretamente. É possível visualizar os perfis de outros usuários que visitaram os mesmos artistas e explorar que outros perfis eles visitaram, o que ajuda a realizar novos achados musicais. A plataforma também produz conteúdo editorial com uma curadoria de álbuns.

Algumas publicações sem ligação com a empresa, como Fact Magazine, Quartz e Vice, também realizam esse tipo de curadoria, e lançam periodicamente seleções de artistas que estão no Bandcamp. O site ajudou a impulsionar a carreira de artistas como o multi-instrumentista americano Sufjan Stevens.

Quem fica com os 15% e 10%

Apesar de defender pagamentos mais justos para músicos, o Bandcamp não deixa de ser uma empresa privada, fundada por Ethan Diamond e Shawn Grunberger com apoio dos programadores Joe Holt e Neal Tucker. É para os donos, portanto, que as taxas vão, direta ou indiretamente.

Atualmente, Diamond é o presidente da companhia. Em entrevista concedida em 2016 ao programa Marketplace, distribuído em diversas rádios americanas, ele afirmou que a ideia por trás do Bandcamp era criar uma plataforma com mais possibilidades de edição do que as disponíveis para compartilhamento de música naquele momento.

“Em 2007, você tinha sites como Myspace, Virb e iMeme, e o que eles ofereciam era um acordo de recortar e compartilhar. Você dava a eles o seu conteúdo e eles mantinham os logos deles, o anúncio deles — era a URL deles, o tráfego deles. A identidade era toda deles”, disse.

Em informes periódicos, a empresa posiciona-se como aliada de artistas independentes e um contraponto ao crescimento de serviços concorrentes baseados no modelo de assinatura como Spotify e Tidal.

Segundo o balanço de 2016 da empresa, o fortalecimento de grandes companhias do tipo poderia levar a uma realidade em que “a distribuição de toda uma forma de arte é controlada por apenas duas ou três companhias com o tamanho de Estados nacionais”. Nessa situação, artistas e selos teriam “ainda menos poder do que hoje para estabelecer um pagamento justo”.

Antes de fundar o Bandcamp, no entanto, Diamond foi ele mesmo beneficiado por uma grande companhia de tecnologia. Ele é um dos criadores do serviço de e-mail pago Oddpost, fundado em 2000. Ele inovou, por exemplo, ao implementar a regra de que mensagens não lidas aparecem em negrito, em vez de mostrar apenas um ícone ao lado. Grande parte do design foi copiado pelo Google em seu serviço de e-mail, o Gmail, lançado em 2004, e a Oddpost foi vendida por US$ 30 milhões em 2004 ao Yahoo, que tinha a ambição de aperfeiçoar seu serviço de e-mail na época.

O desempenho do Bandcamp

Diamond ainda não deu indícios de que o Bandcamp possa ter o mesmo destino (o de ser vendido a uma grande corporação), mas, periodicamente, a empresa divulga informações promovendo seu desempenho financeiro.

Segundo a companhia, US$ 200 milhões foram pagos a artistas entre 2008 e 2016 via Bandcamp. Sem informar qual era a base inicial, a empresa afirmou que em 2016 as vendas de álbuns digitais aumentaram 20%, a de faixas digitais avulsas, 23%, e de merchandising, 34%.

A maior parte das vendas físicas foi liderada pelo vinil, que teve aumento de 48%. A venda de fita cassetes aumentou 58%, e a de CDs, 14%. No balanço, a empresa aproveita para cutucar seus concorrentes.

��As companhias construídas exclusivamente em torno de assinatura e aluguel de música continuam a ter dificuldades. Alguns dizem que o modelo simplesmente está quebrado. O sucesso do Netflix é frequentemente usado como argumento, mas o negócio da música não é o negócio de filmes”

Bandcamp

Em seu balanço de 2016

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