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Por que espalhar medo nas redes não gera engajamento, só ansiedade

Compartilhar medo e alarme pelas redes sociais visando demonstrar preocupação pode acabar não gerando mobilização, mas exatamente o oposto

    “Não importa quão bem informado esteja, você certamente não está alarmado o suficiente.” A frase faz parte de um artigo da revista americana New York Magazine sobre aquecimento global que viralizou no mês passado, mas ela bem poderia acompanhar diversas outras notícias diárias, correntes duvidosas de Whatsapp ou textões no Facebook.

    O artigo começa com o autor prometendo que a coisa toda é “pior do que você imagina”. E, antes de anunciar sobre como diversas partes do planeta ficarão inabitáveis até o fim deste século, diz: “Se a sua ansiedade sobre aquecimento global está dominada por medos sobre elevação do nível do mar, você está apenas arranhando a superfície dos horrores possíveis”.

    O conteúdo da publicação recebeu críticas, inclusive de cientistas, mas há quem tenha se incomodado mais por outro problema: a incitação ao alarme e a provocação de ansiedade e medo.

    “Isso estranhamente sugere que tem um nível de alarmismo que seria ‘suficiente’”, aponta a jornalista Julie Beck, que escreve sobre saúde e psicologia para a revista americana The Atlantic. “Suficiente para quê? Mesmo que o objetivo seja alarmar as pessoas para ação, há uma desconexão aqui: ansiedade não é um pré-requisito necessário para ação.”

    Ansiedade contagiante

    O apelo emocional é um recurso de retórica antigo e muito comum em discursos políticos e ativistas. O problema, aponta Beck, é a propagação desse tipo de tentativa de conscientização por meio de posts nas redes sociais que convocam as pessoas a sentirem medo, raiva ou revolta; o que acaba gerando apenas ansiedade e estresse.

    “Embora as intenções possam ser boas, essa preocupação moralizante distrai do objetivo real, chamando atenção das pessoas para dentro, para seus próprios estados emocionais; e não para fora, para o problema”, afirma o texto.

    Segundo Renee Lertzman, psicóloga americana especialista em engajamento e comunicação sobre clima, esse tipo de post –  que, por aqui, são conhecidos como textões –  são um modo de gerenciar a ansiedade de quem está sob um estado de profunda ansiedade. “Quando estamos ansiosos e com medo, queremos que outros sintam isso também. É contagioso”, disse. 

    Ativismo e exaustão

    Promover um estado de vigilância constante sem um objetivo prático pode desencadear uma série de problemas psicológicos. À Atlantic, Scott Woodruff, diretor no Instituto Americano de Terapia Cognitiva, disse que uma mente ansiosa e assustada pode remoer um assunto diversas vezes, “dedicando muito tempo, todos os dias, preocupando-se com eventos mundiais”. 

    A preocupação, explica Woodruff, pode dar a sensação ilusória de controle de uma situação; como se ao se preocupar sobre um assunto, a pessoa automaticamente se protege do problema que ele representa. Para o especialista em ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo, essa preocupação excessiva pode acarretar “fadiga, falta de concentração e tensão muscular”. “A coisa interessante é que fadiga e falta de concentração são o oposto do que as pessoas tentam promover quando defendem a vigilância [constante]”, afirmou Woodruff.

    Se estresse e preocupação se tornam um problema crônico, a pessoa pode atingir um ponto de exaustão ou esgotamento (burnout, em inglês). Os sintomas envolvem depressão, dores de cabeça, abuso de substâncias, perda de produtividade e concentração.

    Cher Weixia Chen, pesquisadora com formação em ciência política e direito, estuda o fenômeno de esgotamento em comunidades de ativistas de direitos humanos nos Estados Unidos. Ela afirma ter observado pessoas que, pela carga emocional do trabalho, chegam ao ponto de esgotamento e têm de se afastar completamente de suas atividades.

    Para a pesquisadora “essa nova época de ativismo cidadão”, embora seja “um bom fenômeno para o ativismo social, historicamente falando” a deixa, ironicamente, “muito preocupada”. “Nós precisamos encontrar um modo de torná-lo sustentável”, diz.

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