Quem é Diosdado Cabello, central no chavismo e acusado de corrupção

Militar da reserva deu golpe em 1992, sofreu golpe em 2002, ocupou os principais cargos políticos na Venezuela e hoje é acusado de lavagem de dinheiro e ligação com narcotraficantes

     

    Autoridades brasileiras devem receber nos próximos dias documentos que podem vincular o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e seu braço direito, o deputado constituinte e militar da reserva Diosdado Cabello, em casos de corrupção.

    Alguns desses casos dizem respeito à relação entre a cúpula do governo venezuelano e a construtora Odebrecht, pivô da Lava Jato no Brasil.

    O nome de Cabello aparece em acusações de corrupção e até de vinculação com o narcotráfico internacional desde 2015, na Justiça americana. Hoje deputado, ele foi militar ao lado do ex-presidente Hugo Chávez, líder icônico do movimento bolivarianista do qual Maduro é atualmente herdeiro direto e defensor.

    Díaz diz ter provas de que Cabello recebeu US$ 100 milhões da Odebrecht por meio da empresa TSE-Arietis, registrada em nome de parentes, na Espanha

    A promessa de entrega de novos documentos contra Cabello e outras autoridades do governo venezuelano foi feita pela ex-procuradora-geral da Venezuela Luisa Ortega Díaz, que esteve em Brasília na quarta-feira (23) participando da 22ª Reunião Especializada de Ministérios Públicos do Mercosul.

    Díaz diz ter provas de que Cabello recebeu US$ 100 milhões da Odebrecht por meio da empresa TSE-Arietis, registrada em nome de parentes, na Espanha. A empresa fazia parte, juntamente com a Odebrecht, de um consórcio responsável pela expansão do metrô de Caracas.

    Cabello nega as acusações feitas pela ex-procuradora, e questiona a razão de Díaz não ter movido uma ação contra ele durante os dez anos em que esteve no cargo de procuradora-geral.

    A empreiteira brasileira disse em nota que “está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua” e que “já reconheceu os seus erros [...] e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas’.

    Quem é a ex-procuradora que acusa Cabello

     

    Díaz desempenhou a função de procuradora-geral da Venezuela entre 2007 e 2017, quando, no mês de agosto, acabou destituída do cargo por decisão de uma Assembleia Constituinte que havia sido eleita e empossada na véspera, de maneira ainda hoje questionada pela oposição.

    Chavista no início de sua gestão, Díaz deslocou-se para o campo crítico a Maduro paulatinamente, até converter-se atualmente numa das porta-vozes de oposição ao atual governo.

    Para os parlamentares governistas, ela violou as atribuições do cargo e, por isso, foi destituída. A versão é rechaçada pela maioria dos países da região, por organismos internacionais, por órgãos das Nações Unidas e por organizações internacionais de direitos humanos, que veem no que chamam de “perseguição a Díaz” um sinal a mais de que o atual governo venezuelano protagoniza um golpe de Estado e se converte numa ditadura.

    A função que era exercida por Díaz na Venezuela é a mesma exercida pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no Brasil.

    Acusações miram estrategista do chavismo

    As denúncias que Díaz promete apresentar, se confirmadas, atingem um “quadro fundamental da revolução bolivariana”. A frase foi usada por Maduro para referir-se a Cabello, em junho de 2016.

    O atual deputado venezuelano tem 54 anos, é pai de quatro filhos e tem uma longa lista de serviços prestados à assim chamada “revolução bolivariana” nos últimos 25 anos.

    Curriculum chavista

    2011 a 2017: Deputado da Assembleia Nacional2012 a 2016: Presidente da Assembleia Nacional2009 e 2010: Ministro de Obras Públicas e Habitação2008: Concorre à reeleição como governador, mas perde2004 a 2008: Governador do Estado de Miranda2003 e 2004: Ministro de Infraestrutura2002 e 2003: Ministro do Interior e da Justiça2002: Presidente interino da Venezuela2002: Ministro da Secretaria da Presidência2000 e 2001: Vice-presidente da Venezuela1998: Participa da primeira campanha de Chávez à presidência1992: Participa da tentativa de golpe ao lado de Chávez

    “Me sinto satisfeito, orgulhoso e pleno em ser um chavista radical. Defendo até com a minha vida o que creio”

    Diosdado Cabello

    Em pronunciamento na TV, em julho de 2014

    “Quem se mete com Diosdado [Cabello] se mete com a gente, se mete comigo. Vamos defender Diosdado como defendemos nosso país [...] contra o ataque dos EUA"

    Nicolás Maduro

    Presidente da Venezuela, em junho de 2016

    Em 1992, tentou golpe

    Cabello foi um dos militares que, juntamente com Chávez, participaram de uma tentativa frustrada de golpe de Estado contra o então presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez, em 1992.

    Os envolvidos na ação dizem ainda hoje que o movimento tinha 90% de apoio popular, o que deu a Chávez, mesmo derrotado em sua tentativa de tomar o poder, uma aura de justiceiro diante de um governo corrupto.

    Os militares envolvidos no golpe acabaram presos, mas foram indultados em seguida. Chávez lançou-se então candidato à presidência da Venezuela pela primeira vez, em 1998, com ajuda direta de Cabello. Eleito, o líder bolivariano governaria até morrer, em 2013, vítima de um câncer.

    Em 2002, sofreu golpe

    Quando estava há três anos no poder, Chávez foi vítima de um golpe de estado também. No dia 11 de abril de 2002, um grupo de civis e militares destituiu o presidente e formou uma junta de governo que comandou a Venezuela por apenas três dias.

    Militares fiéis a Chávez promoveram um contra-golpe logo em seguida. Cabello, que estava sumido desde o dia 11 de abril, reapareceu no dia 13 de abril, e foi então empossado presidente interino. No dia seguinte, Chávez, que estava preso, foi resgatado por militares da Marinha e levado ao Palacio Miraflores, sede do governo, onde reassumiu plenamente suas funções.

    Após o golpe sofrido, Cabello ganhou papel de destaque ainda maior no governo, o que fez com que a oposição caracterizasse a nova fase do chavismo como um “governo cada vez mais militarizado”.

    Acusações de corrupção

    Em 2015, o jornal americano Wall Street Journal noticiou que a Justiça americana estava investigando a cúpula do governo venezuelano, incluindo Cabello, por vinculação com o tráfico de drogas e por lavagem de dinheiro.

    Ex-guarda-costas aponta ligação de Cabello com o Cartel de los Soles, que domina rotas de tráfico que chegam aos EUA, passando pela Venezuela e por Cuba

    Com base em informações dadas por militares desertores da Venezuela e em relatórios da DEA (a agência americana que conduz as ações contra o tráfico de drogas), procuradores nos estados de Nova York e Miami preparavam então uma acusação formal contra Cabello.

    Uma das testemunhas nessa ação é Leamsy Salazar, que foi um dos membros da guarda pessoal de Chávez durante mais de dez anos, e, depois da morte do ex-presidente, passou a trabalhar como guarda-costas de Cabello.

    Salazar vincula Cabello ao Cartel de los Soles, que domina rotas de tráfico que chegam aos EUA, passando pela Venezuela e por Cuba. O ex-membro da guarda venezuelana está sob proteção da justiça americana, nos EUA.

    Assim que essas informações começaram a ser veiculadas pela imprensa americana, Cabello rebateu: “Temos vivido ameaças, infâmias e intrigas nesses anos de revolução. Aprendemos a navegar com a moral muito alta”. À época, o líder da bancada governista na Assembleia Nacional, Pedro Carreño, disse sobre Salazar, autor da acusação: “desertou das Forças Armadas e aparece nos EUA como testemunha protegida para difamar, injuriar e tratar de submeter [Cabello] ao escárnio público.”

    Além desse caso, também há um processo movido igualmente nos EUA pelo advogado, produtor audiovisual e ativista de direitos humanos venezuelano Thor Halvorssen Mendoza. A ação é contra uma firma dos EUA acusada de pagar propina a Cabello em obras públicas realizadas na Venezuela.

    Aliados denunciam campanha vil e baixa, movida pela direita internacional

    O autor da denúncia diz que “um ou mais ex-empregados confirmaram que a Derwick ofereceu suborno de pelo menos dezenas de milhões de dólares a um ou mais funcionários venezuelanos, incluindo um pagamento de US$ 50 milhões a Diosdado Cabello”.

    Thor Mendoza, responsável pela acusação, é primo do ex-prefeito da cidade venezuelana de Chacao (2000-2008) e líder dissidente Leopoldo Lopez, classificado por algumas das mais influentes organizações de direitos humanos do mundo, e por organismos internacionais, como “prisioneiro político” do governo Maduro.

    Em Caracas, a deputada da Assembleia Constituinte Tania Díaz, falou - ainda em 2015, logo após as primeiras denúncias - que as acusações contra Cabello fazem parte de uma “campanha vil e baixa” movida pela “direita internacional”.

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