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Como a Alemanha pretende regular a 'ética' dos carros autônomos

Dilema de quem proteger em casos de acidentes é entrave à chegada dos automóveis sem motorista no mercado

    Uma das principais preocupações entre especialistas e agentes de governos é que as montadoras não ensinem ética aos seus carros autônomos. Ao passo que a chegada desses veículos no mercado parece cada vez mais próxima, o principal dilema envolvendo sua produção, por outro lado, não evoluiu na mesma velocidade da tecnologia.

    Automóveis robotizados, que não precisam de motoristas, precisam ser pré-programados para decidir o que fazer em uma situação de acidente iminente. Minimizar o número de pessoas envolvidas ou proteger o passageiro? Quem compraria um carro que prefere matá-lo em vez de matar um pedestre desconhecido?

    O governo da Alemanha é o primeiro do mundo a definir diretrizes federais que todos os carros devem seguir para poder circular em suas ruas — o que deve acontecer dentro de cinco anos, segundo estimativas do próprio governo.

    Com isso, o país pretende incentivar outros governos a fazerem o mesmo o quanto antes, eliminando uma das principais barreiras para a produção desses automóveis.

    Quais as resoluções do governo alemão

    Na quarta-feira (23), o Ministro dos Transportes alemão Alexander Dobrindt anunciou a criação das novas regras, que envolveram uma comissão composta por especialistas em ética, direito e tecnologia.

    Segundo a Reuters, a decisão final foi de que carros autônomos não deverão ser programados na fábrica para escolher entre uma ou outra pessoa em caso de acidente inevitável. Segundo Dobrindt, o software deverá escolher o cenário que machuque menos as pessoas envolvidas.

    Para isso, os carros autônomos deverão estar preparados para destruir qualquer tipo de propriedade, e não poderão preservar a vida de animais se isso representar um risco a um ser humano. A lei também especifica que os softwares não podem fazer qualquer tipo de diferenciação entre pessoas, desconsiderando gênero, idade ou condições físicas.

    Todos esses tópicos ainda serão revisados dentro de dois anos pelo governo.

    Incentivo ao crescimento da indústria

    Para o governo alemão, tirar os humanos do volante é uma ação que deve aumentar a segurança nas ruas e diminuir o número de acidentes e, por isso, é tratado como um dever ético do poder público fazer com que isso aconteça o quanto antes.

    “Essa é um dos pontos mais significativos que a comissão de ética delineou: que a direção autônoma e conectada é um imperativo ético”

    Alexander Dobrindt

    Ministro dos Transportes da Alemanha

    Em julho, uma lei já havia sido criada regulamentando os testes dos carros autônomos no país. Na época, a parlamentar de oposição Sabine Leiding, criticou os termos aprovados por Dobrindt. À Deutsche Welle, disse que o texto não era suficiente, e que seu objetivo principal é permitir que as indústrias automobilísticas possam explorar o novo mercado, sem considerar a segurança em todos os aspectos necessários.

    “[Dobrindt] é otimista demais e faz promessas exageradas só para dar um empurrãozinho aos interesses da indústria de automóveis”

    Sabine Leiding

    Parlamentar do Partido de Esquerda

    A indústria automobilística é a principal fonte de receita da balança comercial alemã. Os dois produtos mais exportados pelo país são os carros — que correspondem a 12% do total — e as peças de automóveis — equivalentes a outros 4,5%. Além disso, o setor emprega mais de 750 mil pessoas.

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