Ir direto ao conteúdo

Por que cobras de águas poluídas estão ficando mais escuras, segundo esta pesquisa

Trabalho afirma que vantagem para se camuflar não existe no caso estudado, e não explica número grande de animais com a característica

Foto: Reprodução
Emydocephalus annulatus com pele escurecida à esquerda, e com anéis brancos, à direita
Emydocephalus annulatus com pele escurecida à esquerda, e com anéis brancos, à direita

A primeira mariposa da espécie Biston betularia inteiramente negra foi coletada na região de Manchester, no norte da Inglaterra, em 1848. No final do mesmo século, as mariposas claras ou manchadas haviam se tornado praticamente impossíveis de se encontrar naquela área.

O evento se tornou uma anedota frequentemente citada sobre como a natureza se adapta à poluição causada pelos seres humanos. A teoria é de que as mariposas escuras possuíam uma vantagem evolutiva: elas eram capazes de se camuflar no ambiente escurecido pela fuligem gerada no epicentro da Revolução Industrial. Dessa forma, tinham mais capacidade de evitar predadores.

Um artigo publicado na edição de agosto de 2017 da revista Current Biology aponta que cobras aquáticas vivendo em ambientes poluídos também podem ter se tornado mais frequentes em um contexto de poluição. Mas, no caso, a vantagem evolutiva não seria a capacidade de se camuflar.

O trabalho, capitaneado pelo ecologista evolutivo Richard Shine, analisou exemplares de peles de cobras aquáticas da espécie Emydocephalus annulatus coletados durante mais de uma década — a troca de pele é um processo natural desses répteis.

A teoria dos pesquisadores é de que o pigmento melanina, que escurece a pele desses animais, se liga a poluentes com os quais eles entram em contato ao nadar em águas sujas e, principalmente, se alimentar de outros seres que vivem nelas. Dessa forma, os poluentes com os quais as cobras têm contato, se acumulam em suas peles.

Ao trocar de pele, elas se livrariam desses poluentes de uma forma mais eficiente do que as cobras mais claras. As peles escuras seriam não uma camuflagem superior, mas uma maneira pela qual as cobras diminuem a concentração de poluentes em seus corpos.

Como a pesquisa foi realizada

Os pesquisadores compararam 1.400 peles de cobras que haviam sido coletadas por Shine durante anos. Eles perceberam que os exemplares obtidos nas baías próximas a indústrias tendiam a ser mais escuros do que aqueles coletados em áreas sem esse tipo de atividade econômica.

Em seguida, fizeram testes nas peles em busca de elementos químicos. As peles mais escuras tinham uma concentração claramente maior dos poluentes cobalto, manganês, níquel, chumbo e zinco do que as com listras ou pintas brancas. Nas cobras com padrões de listras ou pintas, as partes escuras concentravam mais poluentes do que as brancas.

Como as cobras se livram dos poluentes

Segundo a pesquisa, “as áreas ricas em melanina na superfície das cobras acumulam resíduos e, dessa forma, a troca de pele reduz a carga de resíduos mais rápido nas cobras com muita melanina do que nas cobras mais pálidas da mesma espécie”.

Esse efeito é amplificado pelo fato de que as trocas das peles mais escuras ocorrem de forma mais frequente do que as das peles mais claras. Os pesquisadores presumem que isso ocorra porque haveria uma tendência maior de que esporos de algas se ligassem às peles escuras, onde se proliferam, levando à troca de pele mais rapidamente.

Há outras hipóteses que poderiam explicar a frequência maior de cobras escuras em determinados locais. Segundo a pesquisa, há indícios de que mais melanina leve a uma função imunológica mais aguçada, o que também ajudaria os animais a sobreviver a poluentes. Além disso, o pigmento poderia servir para proteger as cobras de raios ultravioleta.

O trabalho afirma, no entanto, que a hipótese de que as cobras estejam ficando mais escuras para se camuflar é menos provável: “não há diferenças claras no habitat usado pelas cobras melânicas [escurecidas] e nas listradas”.

A conclusão de que a melanina possa ajudar as cobras a limparem seus organismos foi inspirada em uma pesquisa publicada em 2014 que analisou pombos capturados na periferia de Paris. Também naquele caso, os cientistas concluíram que a melanina nas plumagens escurecidas vinha provavelmente contribuindo para a desintoxicação dos animais.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!