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Por que a geração de ‘nativos digitais’ não é tão diferente das anteriores

Editorial da revista Nature cita artigos científicos para contestar ideia de que uso de tecnologia por jovens os tornou diferentes

 

Em um artigo publicado em 2001 na revista On the Horizon, o escritor e palestrante Mark Prensky lançou os termos “nativo digital” e “imigrante digital”. O termo “nativo digital” descreve o jovem que nasceu em uma época na qual tecnologias digitais já eram uma realidade. A exposição a elas concederia a essa geração talentos e características inéditas, e educadores nascidos em outras épocas deveriam se adaptar para continuar ensinando com sucesso.

O conceito contribuiu para tornar Prensky um famoso palestrante, e foi propagado como uma síntese da ideia de que os mais jovens estão sendo essencialmente modificados pela tecnologia. Ele foi replicado em incontáveis textos publicitários, assim como jornalísticos.

Mais de uma década e meia depois, no entanto, muitos pesquisadores em educação buscam desfazê-lo.

Um artigo publicado em 2017 na revista Teaching and Teacher Education intitulado “Os mitos do nativo digital e do ‘multitasker’” reúne as descobertas de uma série de trabalhos científicos sobre o tema e conclui que o conceito de “nativo digital” não tem embasamento, apesar de ser “propagado por gurus da educação, seguidos de perto e reportados pela mídia”.

Por isso, planejar a educação de jovens com base nele é “incorrer no erro de presumir que seus alunos possuem talentos e habilidades que eles não possuem”. O trabalho foi citado e endossado por editorial de uma edição de julho de 2017 da revista Nature intitulado “O nativo digital é um mito”.

Ou seja: apesar de, naturalmente, haver jovens para quem as tecnologias digitais são uma realidade desde sempre, em especial no caso dos nascidos em famílias com alto nível de renda, não há evidências científicas de que isso muda essencialmente a forma como eles pensam e aprendem.

O ‘nativo digital’ segundo a ideia de Prensky

Em seu artigo de 2001, Prensky afirma que ter crescido com tecnologias como jogos de computador, e-mail, internet, celulares e mensagens instantâneas concederia aos jovens uma série de características que os tornaria únicos e diferentes de todas as gerações anteriores.

O “nativo digital” seria habilidoso com as novas tecnologias, realizaria muitas tarefas ao mesmo tempo, estaria acostumado a receber muita informação rapidamente e se beneficiaria do uso de tecnologia digital em seu aprendizado. Segundo o editorial da revista Nature, que contesta a validade dessa ideia, o consenso aplicado hoje é de que a primeira geração de nativos digitais teria nascido entre 1980 e 1984.

Ainda segundo Prensky, os “imigrantes digitais”, por outro lado, seriam as gerações anteriores, que haviam se deparado com essas tecnologias quando já haviam se desenvolvido. Assim como imigrantes de outros países, eles teriam um sotaque de épocas passadas que dificultaria sua comunicação com os “nativos digitais”.

Para continuar a ensinar, os educadores dessa geração mais velha teriam o desafio de dominar e empregar a língua da nova geração, sob o risco de se tornarem o equivalente a imigrantes excluídos.

“O Holocausto? Crie uma simulação do encontro em Wannsee, ou onde eles podem experienciar o verdadeiro horror dos campos, em oposição a filmes como ‘A Lista de Schindler’”, exemplificava Prensky.

O artigo teve enorme influência, apesar de não ser baseado em pesquisas, mas sim em observações subjetivas. Ele  pode ser lido também como uma defesa da ideia essencial de seus negócios: Prensky havia trabalhado com educação, mas fundou a empresa games2train, que já existia na época em que publicou o texto e elaborava jogos para treinamento corporativo.

O nome com forte apelo publicitário contribuiu para que o conceito de nativos digitais fosse replicado, inclusive em artigos jornalísticos. Com o tempo, outros nomes chamativos para ideias similares surgiram, como “homo zappiens”, que brinca com o termo “zapear”, “geração net”, “geração i”, “geração Google” ou “geração app”.

“Se educadores imigrantes digitais realmente querem educar nativos digitais -ou seja, todos os seus alunos- eles precisarão mudar. É hora de eles pararem de resmungar e, como diz o slogan da Nike para a geração de nativos digitais, ‘Just do it!’ [simplesmente faça, em uma tradução livre]”’, resumia Prensky.

Contra a ideia de ‘nativo digital’

Lidando com informação

Um relatório comissionado pelo Comitê Britânico sobre Sistemas de Informação, publicado em 2007 e citado pelo trabalho buscou entender se a nova geração exigiria alterações em sistemas de buscas de bibliotecas. A conclusão foi de que a forte presença de tecnologia nas vidas dos jovens da ‘geração Google’ não resultou em capacidade maior de buscar informação, absorvê-la ou avaliar sua qualidade, seja no que diz respeito a “relevância, acuidade ou autoridade”

O fator renda

Com base em dados da Comissão Federal Sobre Banda Larga dos Estados Unidos, um trabalho publicado em 2008 pelas pesquisadoras Eszter Hargittai e Amanda Hinnant e focado em pessoas de até 50 anos concluiu que renda e nível de educação maior estavam relacionadas a mais habilidade com a internet. Mas não o fator idade

Diversidade

Um artigo publicado em 2009 por Neil Selwyn, ligado ao Instituto de Educação da Universidade de Londres, e intitulado “O nativo digital, mito e realidade” conclui que “os engajamentos de jovens com tecnlogias digitais são variados, frequentemente inespetaculares, em contraste com retratos populares do nativo digital”

Jovens professores

Em seu artigo de 2001, Prensky afirma que, por serem inaptos com tecnologias digitais, os professores mais velhos (ou “imigrantes digitais") teriam dificuldades em educar os jovens “nativos digitais”. Seguindo essa linha de raciocínio, os professores mais jovens e que, portanto, seriam eles mesmos nativos digitais, estariam em melhor posição. Mas uma pesquisa publicada em 2011 e focada em professores finlandeses nascidos entre 1984 e 1989 concluiu que o conhecimento tecnológico dessa geração “não é aquilo que se esperaria de representantes da ‘geração net’”

E os ainda mais jovens?

Um trabalho de 2011 intitulado “Relatório de crianças da União Europeia on-line”, e focado em um público ainda mais jovem do que aquele descrito por Prensky, analisou os dados de pesquisas em 21 países membros da União Europeia. Ele descobriu, por exemplo, que apenas uma criança em cada cinco usava um site de compartilhamento de arquivos, e uma em cada dez possuía um blog. A maioria “usa a internet para consumir conteúdo produzido em massa”. A conclusão foi de que “falar em nativos digitais obscurece a necessidade dos jovens de apoio para desenvolver habilidades digitais”

“Muitos membros da geração que tem experiência com o digital usam a tecnologia da mesma forma que os mais velhos: para absorver passivamente informação. As crianças dizem que preferem tecnologia da informação em suas aulas e cursos? As escolas  dão ouvidos quando as crianças dizem que preferem salgadinhos para o almoço todo dia?”

Editorial 'O nativo digital é um mito’ publicado em julho de 2017 na revista Nature

Como ficam os educadores

Como a ideia de que a nova geração de jovens é particularmente habilidosa com tecnologia não se confirmou em diversos estudos científicos sobre o tema, o trabalho publicado na revista Teaching and Teacher Education conclui que é preciso “ser cauteloso em relação a exortações a mudar a educação baseadas na ideia de que a forma como essa geração aprende é fundamentalmente diferente das anteriores”.

Educadores devem, portanto, evitar partir do princípio de que seus alunos têm necessariamente algum tipo de habilidade especial, e gerações novas deveriam ser educadas sobre como lidar com informação on-line. Isso vale também para professores, em fase de formação ou já formados.

O trabalho também combate uma outra ideia ligada à dos nativos digitais: a de que esses jovens teriam mais habilidade em realizar muitas tarefas ao mesmo tempo, ou, utilizando o termo em inglês, executar “multitasking”.

Segundo o artigo, o ser humano é capaz de realizar mais do que uma atividade ao mesmo tempo apenas em casos nos quais uma das atividades é automatizada -como andar e conversar. E, mesmo nesses casos, há indícios de que a performance da tarefa automatizada é prejudicada.

A ideia de que o ser humano é capaz de realizar mais de uma tarefa não automatizada ao mesmo tempo, como conversar no Facebook e ler um artigo científico é falsa, diz o trabalho. O que acontece é uma rápida alternância entre uma atividade e outra.

A pesquisa ressalta que há fortes evidências de que realizar esse tipo de alternância prejudica o desempenho em tarefas que exigem concentração, como estudar. Isso acontece mesmo com indivíduos mais adaptados a alternar sua atenção entre diversos estímulos digitais -o que se encaixa na definição de “nativo digital”.

Por isso, foco e ausência de distrações continuam sendo fatores importantes para o aprendizado. O artigo conclui que a tecnologia deve ter um papel na sala de aula, mas professores precisam compreender em que momentos ela pode ter um efeito positivo e em que momentos pode ter um efeito negativo sobre o ensino.

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