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O uso de implante contraceptivo para prevenir gravidez na adolescência

Anticoncepcional de longa duração está sendo ofertado pela rede pública a adolescentes da Costa Rica. O ‘Nexo’ consultou três especialistas sobre a pertinência desse tipo de contracepção para adolescentes

O implante anticoncepcional é uma das formas existentes de contracepção hormonal. Colocado sob a pele, ele previne a ovulação por meio da liberação de hormônio e, dessa forma, previne a gravidez. Tem mais de 99% de eficácia e dura 3 anos.

O medicamento entrou recentemente para a lista oficial do CCSS, a “Caja Costarricense de Seguro Social” –  instituição pública de segurança social da Costa Rica. Isso significa que ele já está disponível gratuitamente para aplicação em jovens de algumas regiões e províncias, e até 2020 estará disponível em todo o país.

Para além de ampliar a oferta de anticoncepcionais na Costa Rica, o foco da ação são as adolescentes sexualmente ativas, segundo uma reportagem do jornal argentino La Nación. 

São 14.000 adolescentes grávidas por ano no país, segundo dado de 2015 da Caja Costarricense de Seguro Social citado pelo La Nación, das quais 500 são menores de 15 anos. Do número total de partos no país, 17% acontecem entre as adolescentes.

As jovens que poderão ter acesso ao implante são as sexualmente ativas com menos de 20 anos. O método foi considerado adequado para a faixa de idade por sua duração, eficácia e facilidade no uso.

Não é preciso autorização dos pais ou responsáveis para que uma adolescente adote o método, basta passar por um processo de aconselhamento no sistema de saúde, a partir do qual deve decidir o método contraceptivo que considera mais eficaz.

O Nexo consultou três especialistas sobre a pertinência desse tipo de contracepção para adolescentes, sua eficácia na proposta de prevenir a gravidez nessa faixa etária e as políticas públicas dirigidas à sexualidade das adolescentes, para além do caso da Costa Rica:

  • Halana Faria é médica ginecologista e obstetra do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde
  • Luis Bahamondes é professor colaborador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador do Cemicamp (Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas)
  • Marcia Mendonça Carneiro é professora da Faculdade de Medicina e do curso de Pós-Graduação em Saúde da Mulher da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

Como funciona o implante

O implante contém etonogestrel (uma progesterona) e sua ação contraceptiva deriva de duas frentes: inibe a ovulação e, ao mesmo tempo, torna o muco do colo do útero “hostil” ou menos atraente aos espermatozoides, impedindo a penetração de espermatozoides dentro da cavidade do útero. 

“O conceito básico de anticoncepção por implantes é que, mantendo-se uma liberação constante, pode-se obter contracepção com doses diárias muito menores do que com a administração do mesmo hormônio por via oral ou injetável”, diz Marcia Mendonça Carneiro. 

O método é uma boa opção anticoncepcional para mulheres que têm contraindicações para métodos hormonais combinados [como a pílula] e para mulheres que desejam proteção a longo prazo e rapidamente reversível contra gravidez, segundo a professora da UFMG.

Riscos e efeitos colaterais

Os efeitos colaterais do implante são os mesmos de outros métodos contraceptivos hormonais. Entre os sintomas citados pelos três médicos estão dor de cabeça, pequeno aumento de peso (observado em apenas 10 a 20% das mulheres), acne, dor mamária, oscilação de humor,  queda de cabelo, aumento da resistência à insulina, diminuição da libido, cólicas menstruais, irregularidade menstrual (apesar de a maioria das mulheres ter a menstruação suprimida), fadiga e vertigem.

Para Luis Bahamondes, o implante é um dos métodos mais seguros. Marcia Mendonça Carneiro corrobora que, atualmente, os implantes contraceptivos são aprovados para uso em mais de 60 países e utilizados por mais de 11 milhões de mulheres.

“Como toda medicação contém uma série de riscos e antes de optar por esse método uma mulher deveria ser orientada sobre quais são eles”, complementa Halana Faria. A médica do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde lembra ainda que o implante pode sofrer migração e sua retirada se tornar difícil.

O método e a gravidez na adolescência

A partir de quando usar

O Manual de Anticoncepção de 2015 da Febrasgo, a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, citado por Marcia Mendonça Carneiro, recomenda que as adolescentes sejam orientadas a considerar o uso de implantes para prevenção de gravidez não desejada.

“As complicações e intercorrências com uso de implantes pelas jovens são raras e similares às que acontecem nas mulheres adultas”, diz Carneiro. A inserção do implante, segundo ela, deve ser feita após avaliação médica e esclarecimento da paciente. “A escolha deve ser livre e informada”, observa. 

Luis Bahamondes especifica que o método deve ser ofertado a partir da primeira menstruação somente para as jovens sexualmente ativas. “A principal preocupação nesse grupo [adolescentes] seria a densidade mineral óssea, mas ela não se altera [devido ao implante]”, diz.  

A ressalva à aplicação do implante nas jovens, feita por Halana Faria, é que “as opções hormonais e de longa duração surgem com o objetivo de impor uma contracepção eficaz para meninas que muitas vezes nem tiveram a oportunidade de discutir opções”, diz. “Iniciaram sua vida sexual, suas mães estão com medo de que engravidem e aí médico/a e mãe em geral tomam a decisão pela menina/adolescente. Isso [acontece] entre as camadas médias [da população]”.

“Meninas e mulheres são consideradas incapazes de cuidar da própria sexualidade e planejamento reprodutivo com métodos não hormonais como camisinha, diafragma e DIU de Cobre. O momento de discutir método contraceptivo deveria ser o momento de ouro para um papo franco e aberto sobre sexualidade, sobre respeito ao próprio corpo, sobre cuidado de si. Mas em geral, uma menina menstrua pela primeira vez e é logo levada a começar a ingerir hormônios, cujos efeitos colaterais são cada vez mais debatidos pela sociedade”

Halana Faria

Ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde

Eficácia

Para os três especialistas, a questão da gravidez na adolescência é complexa e, se usado como estratégia isolada, nenhum método contraceptivo é capaz de solucioná-la.

“Uma política de planejamento familiar direcionada às adolescentes é fundamental”, diz a professora da UFMG. “Nessa faixa etária, o uso de métodos contraceptivos de curta duração (pílulas, preservativos, anéis vaginais) são os mais escolhidos, mas também estão sujeitos a falhas relacionadas ao uso inadequado e esquecimento”. 

Muitas jovens não conhecem os métodos de longa duração, como DIUs e implantes ou têm ideias equivocadas sobre seu uso, principalmente no que diz respeito à manutenção da fertilidade e aos efeitos colaterais.

No Brasil, a Política Nacional de Planejamento Familiar foi criada em 2007. Ela inclui oferta de oito métodos contraceptivos gratuitos e também a venda de anticoncepcionais a preços reduzidos na rede Farmácia Popular. “Teoricamente, toda mulher em idade fértil (de 10 a 49 anos de idade) teria acesso aos anticoncepcionais nas Unidades Básicas de Saúde, mas como toda ação de saúde pública, a cobertura é insuficiente”, diz Carneiro. 

A incorporação do implante na rede pública brasileira foi estudada pela Conitec (comissão que avalia a incorporação de tecnologias no SUS por meio de consultas públicas e pareceres de especialistas), com parecer contrário à inclusão, por não haver benefício comparado aos métodos já disponíveis no SUS.

Para Halana Faria, a solução para a gravidez na adolescência passa por “educação de qualidade que dialogue com meninas considerando que são pessoas inteligentes capazes de cuidar de si mesmas. Enquanto continuarem sendo tratadas como crianças que nada sabem de si, só vai restar mesmo impor métodos contraceptivos de longa duração”, diz. 

No contexto brasileiro, Faria diz que “temos opções hormonais disponíveis (anticoncepcionais combinados, injetáveis). Seria preciso ampliar a oferta de métodos não-hormonais como DIU de Cobre, por exemplo” para evitar a gravidez na adolescência.

Segundo ela, há uma restrição na prescrição do DIU para mulheres sem filhos que não encontra respaldo na literatura científica. “Um método barato, de longa duração e super eficaz. Então, o que parece como sempre é que há interesses outros que não são a importância que se dá às vidas das meninas que engravidam cedo”, diz.

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