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Como o tabu em torno da menstruação prejudica a saúde das mulheres

A pesquisadora americana Marni Sommer defende que o silêncio seja quebrado para que mulheres tenham acesso a informação e assistência médica

 

A menstruação é um tabu em muitos países do mundo. Nas nações ricas, porém, a maioria das meninas e mulheres tem acesso à informação – seja pela internet, por meio de um médico ou outra fonte – sobre os tipos de sangramento vaginal que uma mulher pode encarar ao longo da vida.

Os sangramentos vaginais existentes incluem o fluxo menstrual, mas também sangramentos pós-parto, por aborto espontâneo e causados por doenças como endometriose e câncer do colo do útero. O acesso à informação e a troca de experiências com outras mulheres permite que elas diferenciem um sangramento saudável de um não saudável.

Quase todas as habitantes dos países desenvolvidos têm, também, acesso a água limpa, saneamento básico, produtos de higiene e privacidade para lidar com o sangramento adequadamente e com dignidade.

Esses requisitos básicos, no entanto, não são acessíveis a boa parte das mulheres de países de renda média e baixa, a mulheres que vivem em abrigos, campos de refugiados ou em trânsito, a moradoras de rua e às mulheres que vivem em outras situações de precariedade, como nas prisões brasileiras, por exemplo.

Um estudo recente, publicado no dia 27 de julho no jornal científico britânico BMJ, compila informações de dezenas de pesquisas feitas nos últimos anos sobre saúde da mulher e higiene íntima durante os sangramentos vaginais.

Seu objetivo é tratar de como, além da falta de acesso a saneamento ou suprimentos básicos para lidar com os sangramentos vaginais, o silêncio ao redor do tema também põe a saúde das mulheres em risco, principalmente em países de renda média e baixa.

De acordo com o estudo, meninas que vivem nesses países “frequentemente não são informadas sobre a menarca [primeira menstruação] antes do primeiro episódio de sangramento, e estudos destacaram as concepções erradas e a vergonha encobrindo a menstruação em muitas sociedades, e o medo e ansiedade que as garotas experimentam na menarca e ao menstruar na escola. Mesmo quando a chegada da menstruação é celebrada, elas são ensinadas a esconder e lidar com a menstruação discretamente”.

Considerando que mais de 2,4 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a saneamento básico e que mais de 800 milhões de mulheres e meninas entre 15 e 49 anos estão menstruadas todos os dias, é provável que um número significativo delas não tenha acesso às condições adequadas para tratar de episódios leves ou intensos de sangramento, segundo estima o estudo.

O número de mulheres em situação precária nesse aspecto supera ainda mais a estimativa se considerarmos os outros tipos de sangramento fora a menstruação, ou o fato de que há mulheres menstruando antes dos 15 anos e acima dos 49.

No Níger, país africano localizado a noroeste do continente, por exemplo, apenas 44% das mulheres declaram ter tudo que precisam para passar pela menstruação e no estado de Kaduna, na Nigéria, somente 37%. 

"As experiências dos indivíduos relacionadas à saúde ao longo da vida dependem dos recursos disponíveis nos lugares onde moram, e da agência que são capazes de exercer considerando oportunidades e restrições físicas e sociais. O primeiro passo é romper o silêncio em torno do tópico do sangramento vaginal, a nível local e global". 

Trecho da conclusão do estudo

O Nexo entrevistou, por telefone, a pesquisadora americana Marni Sommer, uma das autoras do artigo e professora assistente do departamento de “Sociomedical Sciences” (ciências sociomédicas, em uma tradução livre) da Universidade de Columbia, em Nova York.

Por que as mulheres lidam em segredo com a menstruação na maioria das culturas? De onde isso vem?

Marni Sommer Há mais literatura sobre menstruação do que sobre outros tipos de sangramento vaginal, então nosso artigo foi uma revisão do que conseguimos achar e do que sabemos. Em muitas culturas e sociedades, há diferentes crenças, embora não seja possível generalizar totalmente, de que o sangue menstrual polui, é sujo e vergonhoso. Há ainda sociedades em que o sangue menstrual foi ou é percebido como muito poderoso, como algo a ser temido. Por isso, acaba sendo algo que meninas e mulheres em muitas culturas têm de esconder, por ser percebido ou como sujo ou como perigoso.

Quais são as consequências práticas dessa realidade?

Marni Sommer Descobrimos que o fato de que o sangramento é algo a ser escondido gera vários desafios. No caso da menstruação, uma vez que elas tomam conhecimento do que é, a maioria das meninas e mulheres sabe que as outras estão tendo uma experiência semelhante todo mês. Mas quando se trata dos outros tipos de sangramento vaginal dos quais falamos no artigo, como sangrar depois do parto e o sangramento intenso da endometriose, em muitas culturas, não é algo de que as pessoas falam com frequência.

Um dos desafios, portanto, é que mulheres e meninas estão tentando lidar com isso sozinhas, sem apoio, informação ou orientação, seja de pessoas próximas ou de profissionais de saúde. Elas podem não saber qual sangramento é normal e qual é anormal, após passarem por uma dessas condições clínicas, nem quando deveriam procurar assistência médica.

Também há o medo e a vergonha em torno do sangramento, o que significa que ela pode estar sofrendo de ansiedade e se preocupando por não saber o que está acontecendo e quem pode ajudá-la. E há a orientação e as informações práticas que elas podem não estar recebendo [por conta do tabu] e que as manteriam saudáveis, dependendo do sangramento.

Algo para que queríamos chamar atenção, de que se fala muito pouco, é se elas têm acesso a um lugar seguro e com privacidade, seja em casa, no trabalho, ou fazendo compras, para se trocarem se estiverem sangrando, que tenha água para se lavarem e produtos de higiene.  Essas são questões muito práticas que surgem quando falamos de sangramento vaginal.

Como o sangramento vaginal limita a vida das mulheres em países de renda média e baixa?

Marni Sommer Mulheres e meninas são muito resilientes. Sempre me impressiona o que as pessoas fazem e como se viram apesar de tudo que precisam enfrentar. Mas qualquer uma das atividades diárias que têm de ser feitas para sobreviver, seja buscar água, ir à escola, ao trabalho, ou ao mercado; ou mesmo quando se pensa em todas as mulheres que vivem em abrigos, campos de refugiados ou em trânsito, pegam barcos no [mar] Mediterrâneo, andam longas distâncias para chegar a um lugar seguro, levanta-se a questão de como elas estão fazendo caso estejam sangrando. Sempre que eu personalizo a questão e penso em como eu faria, parece muito difícil. 

Você sabe algo sobre o Brasil nesse aspecto?

Marni Sommer Nós olhamos mais para países de renda média e baixa, mas se você pesquisar pelas taxas de câncer de colo de útero e endometriose no Brasil, provavelmente terá um palpite a respeito [da quantidade de mulheres que estão enfrentando sangramentos vaginais intensos].

Certamente, mulheres e meninas pelo Brasil também estão dando à luz e tendo abortos espontâneos, então sabemos que o sangramento [além do menstrual] está acontecendo. A pergunta que surge é se nas regiões mais pobres do país elas têm acesso às informações de que precisam, se culturalmente é aceito que elas falem com alguém sobre isso, se elas têm acesso a água limpa, saneamento e produtos de higiene, como absorventes.

Há alguma política ou norma global voltada ao acesso, pelas mulheres, às condições básicas para conviver com o sangramento vaginal?

Marni Sommer Não que eu saiba, não acho que exista uma política. Há esforços para tentar garantir que as pessoas tenham acesso a água e saneamento, atenção básica, mas acho que não há nada que olhe especificamente para essa questão.

O estudo menciona que o primeiro passo para melhorar o trato das mulheres com os vários tipos de sangramento vaginal é romper o silêncio, local e globalmente. Como fazer isso?

Marni Sommer Uma das formas é chegar à mídia e às redes sociais, assim evitamos que apenas acadêmicos pensem sobre isso e chegamos aos médicos, a quem elabora as políticas públicas, e às próprias meninas e mulheres, que começam a ler sobre o assunto.

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