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Como uma ilhota virou o centro da tensão entre EUA e Coreia do Norte

Localizada no oceano Pacífico, Guam é tão pequena que caberia 15 mil vezes dentro do Brasil, mas sua importância estratégica vai muito além do tamanho

    O governo da Coreia do Norte ameaçou na terça-feira (8) lançar um ataque com mísseis de médio alcance contra uma ilha de 544 km² que pertence aos EUA, no oceano Pacífico.

    Embora seja território americano, a ilha de Guam fica quase quatro vezes mais perto da capital da Coreia do Norte, Pyongyang, do que da capital dos EUA, Washington.

    A proximidade física é o que torna o alvo tão atrativo do ponto de vista logístico. E a simbologia, de ser um alvo americano, é o que justifica a ameaça feita de maneira pública, e no meio de uma escalada verbal, ao governo americano.

    Primeiro, o regime norte-coreano lançou a ameaça contra Guam:

    “A execução deste plano [de ataque a Guam] será uma ocasião para que os yankees tenham a primeira experiência com as armas estratégicas da Coreia do Norte”

    Comunicado da agência oficial norte-coreana KCNA, no dia 8 de agosto

    Horas depois, o presidente americano, Donald Trump, respondeu no mesmo tom superlativo:

    “É melhor que a Coreia do Norte não faça mais ameaças aos EUA ou encontrarão fogo e fúria como o mundo nunca viu antes”

    Donald Trump

    Presidente dos EUA, no dia 9 de agosto

    Ilha de Guam

    Quase 30% da ilha é tomada por sete bases militares dos EUA, sendo as principais delas a Base Naval de Guam e a Base Aérea de Andersen. É dali que partem os voos de aeronaves americanas equipadas que, de acordo com a Coreia do Norte, carregam bombas nucleares quando sobrevoam a Península da Coreia.

    Qual o contexto da troca de ameaças

    As origens dessa disputa estão em 1950, cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. À época, a Península Coreana foi dividida entre o sul, capitalista, e o norte, comunista.

    A Coreia do Sul ficou sob influência e proteção americana, enquanto o norte se desenvolveu a partir da cooperação russa e chinesa. Desde então, vigora um armistício entre os dois países, mas nunca houve um acordo de paz de fato.

    Ao longo desses anos, norte-coreanos desenvolveram um programa de mísseis balísticos (capazes de levar armas) de alcance cada vez maior, e de ogivas atômicas cada vez mais miniaturizadas (capazes de serem levadas pelos mísseis). Os EUA acreditam que a Coreia do Norte seja tecnicamente capaz de fazer com que um míssil chegue até mesmo à parte continental dos EUA.

    Para tentar conter o programa nuclear norte-coreano, as Nações Unidas adotaram uma política de aplicação de pesadas sanções econômicas. A Coreia do Norte diz o seguinte: o país é perseguido pela ONU e, portanto, desenvolve um programa militar cuja intenção é a de “rechaçar uma iminente invasão americana”.

    Por que Guam é dos EUA

    Guam é estratégica para os interesses americanos no Pacífico. Ela permite a mobilização imediata da Marinha e da Força Aérea sem qualquer entrave que possa ser imposto por países vizinhos, uma vez que a ilha é considerada território americano.

    A ilha foi colonizada pelos espanhóis em 1668, servindo de importante entreposto para as embarcações da Coroa Espanhola no comércio com o Oriente.

    Essa situação perdurou até 1898, quando os EUA tomaram a ilha dos espanhóis, por meio de um acordo chamado Tratado de Paris. A ilha foi, desde sempre, um entreposto estratégico na ligação entre o Ocidente e o Oriente.

    Com o início da Segunda Guerra, o Japão ocupou Guam pouco antes de realizar o ataque aéreo à base naval americana de Pearl Harbor, no Havaí. O domínio nipônico perdurou por um ano e meio, até os EUA retomarem o controle sobre Guam.

    Qual o status da ilha

    Guam é território americano. As pessoas que nascem na ilha têm cidadania americana, mesmo sendo “chamorros”, nome dado aos habitantes locais.

    A ilha tem duas principais fontes de receita: as bases militares e o turismo, motivado tanto pelo fluxo de parentes dos militares quanto de pessoas de outras cidadanias, interessadas nas praias de águas claras.

    Os habitantes têm direito a lançar candidatos ao Congresso americano. O vencedor ocupa um assento, em Washington, mas não tem direito a votar. Seus moradores também votam para presidente dos EUA, mas os votos não contam como parte do colégio eleitoral. Então, na prática, a votação é simbólica.

    Os nativos escolhem apenas o governador da ilha e os 15 membros do Parlamento local. Em muitos sentidos, a situação é semelhante à de Porto Rico, no Caribe.

     

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