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Por que a relação entre EUA e Irã voltou a piorar

Sanções econômicas, que haviam diminuído desde o acordo nuclear de 2015, são usadas mais uma vez como retaliação contra o Irã

    A relação entre os Estados Unidos e o Irã vive o pior momento desde que o presidente americano Donald Trump chegou ao poder, em janeiro de 2017.

    Uma nova série de sanções econômicas imposta pelos EUA ao país do Oriente Médio passou a valer na quarta-feira (2). As sanções valem para empresas iranianas envolvidas no programa de lançamentos de foguetes do Irã.

    Na prática, os EUA podem retaliar essas empresas ao congelar os bens e recursos que estejam sob jurisdição americana (como transações bancárias e investimentos que envolvam os EUA), e fazer o mesmo com firmas ou pessoas que façam negócio com elas.

    Os EUA também conseguiram apoio da Alemanha, França e Reino Unido sobre o assunto na ONU (Organização das Nações Unidas).

    O que dizem EUA e Europa

    As sanções passaram a valer após meses de ameaça verbal por parte dos Estados Unidos, que vinham criticando os testes de foguetes iranianos.

    “Essas sanções (...) ressaltam as profundas preocupações dos Estados Unidos com o contínuo desenvolvimento e testes de mísseis balísticos pelo Irã e outros comportamentos provocativos”

    Steve Mnuchin

    secretário do Tesouro dos EUA

    Em um comunicado conjunto entre EUA, Alemanha, França e Reino Unido na ONU, as ações do Irã com foguetes foram chamadas de “ameaçadoras e provocativas”.

    Segundo esses quatro países, os foguetes que o Irã têm testado para enviar satélites para o espaço são uma tecnologia capaz de transportar ogivas nucleares, o que veem como uma ameaça de segurança. Eles afirmam que as ações do Irã violam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, principal órgão deliberativo das Nações Unidas, sobre atividade balística.

    O governo americano declarou que irá “continuar a se opor agressivamente” a todas as atividades iranianas relativas a foguetes e mísseis.

    O Irã não tem armas nucleares, situação que os EUA querem que continue. No mundo, há apenas nove países com arsenal nuclear: China, Coreia do Norte, Estados Unidos, França, Índia, Israel, Paquistão, Reino Unido e Rússia.

    O que diz o Irã

    O Irã afirma que os foguetes que testou não são capazes de carregar armas nucleares e se destinam apenas ao lançamento de satélites e à defesa. Segundo o governo iraniano, não há nenhuma infração da resolução do Conselho de Segurança. O acordo nuclear assinado em 2015 não proíbe testes do tipo.

    “O principal objetivo dos EUA ao aprovar essas sanções contra o Irã é destruir o acordo nuclear e nós vamos mostrar uma reação muito inteligente”

    Abbas Araqchi

    vice-ministro das Relações Exteriores do Irã

    Mesmo com o início de novas sanções, o Irã demonstra que não irá interromper testes e chegou a realizar um no dia seguinte às sanções serem aprovadas na Câmara dos EUA.

    O presidente Hassan Rouhani foi reeleito em maio e iniciou o segundo mandato nesta quinta-feira (3). Rouhani é de um grupo político mais moderado no país em relação ao Ocidente e tem o acordo nuclear como uma das maiores marcas do seu governo.

    Em uma cerimônia oficial de início do mandato presidencial, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, disse para Rouhani “permanecer firme contra qualquer dominação”, em referência a potências estrangeiras.

    No Irã, o presidente e os membros do Parlamento são eleitos democraticamente, mas estão submetidos ao aiatolá, líder religioso que é o chefe de Estado e detém o título de “líder supremo”.

    O acordo nuclear

    Em 2015, após anos de negociações, o Irã firmou um acordo nuclear com seis potências mundiais: EUA, Rússia, China, Reino Unido, Alemanha e França.

    O governo iraniano se comprometeu a tomar uma série de medidas para não levar adiante o programa nuclear e, em contrapartida, seriam retiradas sanções econômicas que haviam sido impostas sobretudo pelos EUA e União Europeia e prejudicavam investimentos na economia iraniana.

    Por cerca de dois anos o acordo transcorreu com relativo sucesso, sem que nenhum dos lados ameaçasse recuar. Durante a campanha presidencial, em 2016, Trump se referiu ao acordo nuclear com o Irã como “o pior acordo da história”.

    O Irã e os Estados Unidos romperam relações diplomáticas em 1979, após a Revolução Iraniana, que ocasionou a mudança do governo monárquico dos xás, aliados dos EUA, por uma república islâmica sob o comando dos aiatolás, líderes religiosos do islã xiita. Desde então não há embaixadores entre os dois países.

    Após 1979, Irã e EUA passaram a ter uma relação tensa. Na Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, os EUA apoiaram o lado iraquiano. Ameaças de conflito armado direto entre americanos e iranianos ocorrem há décadas. O governo do presidente George W. Bush (2001-2009) usou repetidamente a expressão “eixo do mal”, que incluía o Irã e se referia a países considerados inimigos dos EUA. O Irã é o principal rival regional da Arábia Saudita, aliado histórico dos EUA e maior país exportador de petróleo do mundo.

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