Como o regime nazista tratou homossexuais e o que a Alemanha está fazendo para repará-los

Experimentos médicos, violência e torturas estavam no cotidiano dos homens gays que viveram nos campos de concentração

     

    Um pedaço retangular de pano com um número de identificação e um triângulo rosa invertido costurado é uma das evidências que provam a existência de prisioneiros homossexuais durante a Alemanha nazista. A de número “1896” pertencia a Josef Kohout, primeiro sobrevivente a contar ao mundo o que homens homossexuais viveram nos campos de concentração. O material está exposto no Museu do Holocausto dos Estados Unidos, localizado em Washington.

    Josef Kohout nasceu e cresceu na Áustria com sua família católica. Em 1939, aos 22 anos, foi condenado por sua homossexualidade a uma pena de seis meses de prisão, até que foi transferido para os campos de concentração Sachsenhausen e Flossenburg, na Alemanha, onde viveu por seis anos, até voltar à sua casa.

    A história de Kohout faz parte de uma compilação de relatos e histórias de prisioneiros homossexuais feita pelo escritor Ken Setterington em “Marcados pelo triângulo rosa”. O livro, lançado em 2013 nos EUA, acaba de ter sua tradução para o português publicada pela Editora Melhoramentos.

    Foto: Divulgação/United States Holocaust Memorial Museum
    Tira de roupa de Josef Kohout

    O nazismo e a perseguição a homossexuais

    Em 1933, Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha. O país passou a viver sob a ideologia nazista, que pregava um racismo científico e o antissemitismo.

    Em busca de uma “raça pura”, além da perseguição contra judeus, o partido nazista argumentava que a homossexualidade significaria uma menor taxa de natalidade, com menos bebês alemães sendo gerados. Outra teoria da época era de que a homossexualidade poderia ser hereditária, o que corroborou com a perseguição.

    O número exato de pessoas que foram mortas pelo regime nazista é controverso, isso porque muitos documentos ainda estão sendo descobertos.

    Estima-se que 6 milhões de judeus morreram nos campos de concentração. De acordo com o estudioso alemão Rüdiger Lautmann, 100 mil homossexuais foram presos e entre 5 e 15 mil foram para os campos de concentração, onde, de acordo com a estimativa do historiador, 60% deles morreram.

    Quando a perseguição aos homossexuais começou

    No início do regime nazista acreditava-se que os homossexuais não sofreriam perseguição. Isso porque um dos principais nomes do regime, o oficial Ernst Röhm, era assumidamente gay.

    Röhm conheceu Hitler em 1919 e a pedido dele, em 1930, tornou-se o primeiro comandante da SA (grupo paramilitar nazista). Até aquele momento, Hitler preservava a amizade de Röhm e os homossexuais da época acreditavam que isso poderia ser visto como algo positivo.

    “Röhm era homossexual; todos sabiam disso. Os homossexuais tinham quase certeza de que nada aconteceria porque um dos homens do governo era como eles”

    Um dos sobreviventes no livro “Marcados pelo triângulo rosa”

    No dia 29 de junho de 1934 Röhm foi preso e dias depois assassinado por dois atiradores da SS (polícia que protegia o alto escalão do Partido nazista).

    A morte de Röhm e a ascensão de Heinrich Himmler, novo chefe da SS, acentuou a perseguição aos homens gays. Himmler era, desde a época de Röhm, assumidamente contra a população LGBT.

    Em março de 1933, ele foi responsável por criar o primeiro campo de concentração em Dachau, na Alemanha, usado como prisão para inimigos políticos e os considerados inferiores pela ideologia nazista.

    A partir deste período, a população LGBT passou a esconder sua orientação sexual com medo de perseguição. Muitas mulheres lésbicas se casaram com homens gays na tentativa de se manter vivos. 

    Boates LGBT foram fechadas

    Antes da ascensão nazista, ainda no início do século 20, a atividade cultural e a vida noturna em Berlim eram agitadas. De acordo com o site The Conversation, havia inúmeros bares gays e lésbicos no centro de Berlim. Entre os mais conhecidos, está a boate Eldorado, um dos espaços considerados seguros para a população LGBT frequentar. A boate funcionou até fevereiro de 1933.

    Parágrafo 175

    A perseguição a homossexuais pelo regime nazista estava respaldada por uma lei do Código Penal alemão. O parágrafo 175 do código determinava: “Um homem que cometa atos indecentes e lascivos com outro homem, ou se permita ser abusado por atos indecentes e lascivos, deve ser punido com prisão”.

    A lei que passou a valer em 1872 era raramente aplicada até o regime nazista. Foi só com a ascensão de Hitler em janeiro de 1933, quando nomeado chanceler alemão, que passou a haver uma perseguição sistemática a homens homossexuais no país. Em 1935, uma emenda à lei foi aprovada estabelecendo que homossexuais poderiam ser condenados a até 10 anos de trabalho forçado.

    Possível vazamento de lista

    Desde 1919, existia na Alemanha o Instituto para o Estudo da Sexualidade, fundado pelo médico Magnus Hirschfeld e dedicado ao aconselhamento e proteção da população LGBT no país. O instituto servia para disseminar a ideia de direitos iguais e fazia parte de um movimento que tentava derrubar o parágrafo 175 do Código Penal. 

    Em 6 de maio de 1933, a polícia nazista invadiu o Instituto e queimou mais de 12 mil livros de sua biblioteca. Existe uma teoria de que nessa invasão a polícia nazista encontrou uma lista com nomes de homossexuais que viviam em Berlim e passou a persegui-los.

    Significados dos símbolos usados durante o nazismo

     

    De acordo com a pesquisadora e historiadora alemã Claudia Schoppmann, autora do livro “Days of Masquerade”, é difícil estipular o número de mulheres lésbicas que foram perseguidas.

    “O número de mulheres que foram submetidas aos horrores dos campos de concentração por serem lésbicas não pode ser documentado. O que é certo é que não houve perseguição sistemática às lésbicas que fosse comparável à perseguição aos homens gays”, escreveu Schoppmann. “Muitas lésbicas eram poupadas de um destino nos campos de concentração se estivessem dispostas a agir de acordo com as leis.”

    A vida nos campos de concentração

    De acordo com o autor Ken Setterington, o cotidiano dos homens homossexuais que viviam nos campos de concentração era brutal. Houve relatos de pessoas que foram submetidas a experimentos médicos e violência, muitas vezes sexual, pelos guardas. Além disso, torturas, como castração, também eram prática recorrente.

    “Havia uma hierarquia do mais forte ao mais fraco. Não havia dúvida de que os mais fracos nos campos eram os homossexuais. Eram os últimos nessa hierarquia”

    Sobrevivente do campo de concentração Schirmeck-Vorbrück, na Alemanha

    Após o fim do regime nazista, o artigo 175 do Código Penal continuou existindo, mas a perseguição a homossexuais passou a se tornar rara novamente. Em 1994, ele foi revogado. Em março de 2017, começou o processo de indenização e perdão dos homossexuais afetados durante o período de vigência do artigo da lei.

    De acordo com o jornal O Globo, o processo prevê que as indenizações podem variar entre € 3.000 euros por condenação e €1.500 euros por ano de prisão. O governo se comprometeu, também, a investir € 500.000 euros por ano em uma fundação que trabalhe com a memória do tema. “A reabilitação dos homens que foram levados ante os tribunais por sua homossexualidade deveria ter sido feita há muito tempo”, disse Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemã.

    Em entrevista ao Centro Canadense de Livros Infantis (Canadian Children's Book Centre, em inglês), Ken Setterington disse que gostaria que houvesse uma consciência sobre os homossexuais: “quero que as pessoas saibam que existe uma história dos homossexuais e que a vida não era fácil para essas pessoas.”

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia a imagem do triângulo roxo identificada com a legenda errada. A informação foi corrigida às 10h36 do dia 07 de agosto de 2017.

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