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A desigualdade de gênero no financiamento coletivo

Mulheres têm uma taxa de sucesso maior, mas homens respondem pela grande maioria das campanhas e pelos projetos com mais dinheiro

     

    Mulheres têm mais dificuldade não só em ascender em empresas, mas também em obter verba para seus empreendimentos, especialmente via meios de financiamento tradicionais.

    Uma pesquisa publicada em julho de 2017 pela consultoria internacional PWC (Price Waterhouse Coopers) destaca esses desafios, e aponta que o financiamento coletivo, ou “crowdfunding”, pode ser um meio promissor para mulheres obterem dinheiro para tocar projetos independentes.

    Intitulada “Mulheres desatadas: liberando o potencial empreendedor feminino”, a análise se baseia em dados coletados em 2015 e 2016 pelo Crowdfunding Center com mais de 194 mil campanhas de financiamento coletivo em 205 países.

    A entidade de pesquisas reuniu dados sobre nove das maiores plataformas de financiamento coletivo no mundo. Eles mostram que a taxa de sucesso dos projetos das mulheres, ou seja, a proporção de iniciativas que conseguem levantar toda a verba almejada, é maior do que a de homens em todas as regiões do globo, e em todos os campos de atuação, de educação a tecnologia.

    Os dados focam especialmente na modalidade mais popular de financiamento coletivo, chamada “seed crowdfunding”, na qual quem consegue financiar um projeto entrega uma recompensa, como o produto final, aos apoiadores —há modalidades de financiamento sem contrapartida, ou em que ela ocorre na forma de ações do negócio, por exemplo.

    O trabalho destaca, no entanto, que a desigualdade também existe no crowdfunding, e o empreendedorismo feminino deveria ser fortalecido. Mesmo com uma taxa de sucesso menor, homens respondem pela maioria dos projetos e tendem a ser mais ambiciosos em suas requisições de verbas. No total, são eles que levantam mais dinheiro.

    “Se por um lado problemas como a desigualdade em posições de liderança e em salários estão recebendo ampla atenção, há bem menos visibilidade para as barreiras que empreendedoras, e os negócios que comandam, enfrentam para obter financiamento”

    Relatório 'Mulheres desatadas: liberando o potencial empreendedor feminino', publicado em julho de 2017 pela PWC

    Em quais pontos homens se saem melhor

    Maioria

    Homens ainda respondem pela maior parte dos projetos lançados nas plataformas de crowdfunding estudadas. De 194 mil projetos de seed crowdfunding analisados, 139 mil eram de homens. Consequentemente, homens ficam com uma fatia maior do dinheiro do financiamento coletivo

    Ambição

    Eles também respondem pela maioria das campanhas mais ambiciosas que tiveram sucesso. Segundo a pesquisa, dos projetos que captaram mais de US$ 100 mil, 84% eram de homens, e dos que captaram mais que US$ 1 milhão, 89% eram deles. A campanha de uma mulher com a maior verba arrecadada ficava apenas em 37º lugar entre os maiores financiamentos

    Em quais pontos mulheres se saem melhor

    Contribuição média

    Enquanto homens receberam em média US$ 83 de cada doador, mulheres receberam US$ 87

    Maior taxa de sucesso

    De todas as campanhas lançadas por homens, 17% atingiram sua meta de financiamento. Das campanhas lançadas por mulheres, 22% atingiram suas metas. Elas se saíram melhor em todas as regiões do mundo. Na América do Sul, apenas 2% das campanhas de homens tiveram sucesso, enquanto 7% daquelas feitas por mulheres atingiram suas metas. Mesmo no setor de tecnologia, que é famoso por ser dominado por homens, elas se saíram melhor, com uma taxa de sucesso de 13% frente aos 10% dos homens

    Por que elas se saem proporcionalmente melhor

    O bom desempenho de mulheres em plataformas de empreendedorismo não é algo trivial, já que estas têm sido capazes de mobilizar um volume crescente de recursos. Uma análise sobre os financiamentos de nove das maiores plataformas globais de crowdfunding mostrou que US$ 767 milhões foram movimentados em 2016 com esse tipo de estratégia de investimento. Em 2009, eram apenas US$ 10 milhões.

    Apesar de os dados mostrarem que elas têm apenas uma parcela menor desses recursos, e em geral não comandam os projetos com maior volume de recursos, o trabalho tem um tom otimista, e afirma que o financiamento coletivo pode ser promissor para elas.

    “Quando mulheres escolhem acessar o financiamento coletivo, elas são mais do que capazes — e muito frequentemente mais do que capazes — do que homens”, aponta o documento.

    Ele avalia que, por atrair mais mulheres investidoras do que atividades financeiras tradicionais, em que homens são dominantes, o crowdfunding pode ser um ambiente mais simpático às empreendedoras.

    Além disso, plataformas de financiamento coletivo alcançam perfis muito diversos de homens, entre eles aqueles com maior abertura à pauta da igualdade de gênero. E que teriam, portanto, uma tendência maior a investir em iniciativas comandadas por mulheres do que o investidor tradicional.

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