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Por que é fácil confundir realidade e distopia nos dias atuais

Escritor William Gibson analisa a recente popularização de histórias com futuros sombrios

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    Distopias estão entre as modalidades de história preferidas do século 21. O gosto por vislumbrar um amanhã sombrio é o que move diversas produções recentes de destaque, como a franquia cinematográfica “Jogos vorazes”; as séries televisivas “3%”, “Black Mirror” e “The Handmaid’s Tale”, esta última uma adaptação do romance da escritora canadense Margaret Atwood que projeta uma realidade de cristãos fundamentalistas no poder e mulheres subjugadas.

    Vale lembrar também que, entre os livros mais citados do século 20 em nossos tempos, estão os infalíveis “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, dois exercícios literários de previsão de um futuro nefasto. Recentemente, uma semana depois da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, “1984” (que é de 1948) alcançou o posto de mais vendido da loja Amazon nos Estados Unidos.

    Não à toa, estão saindo duas edições brasileiras em 2017 de “Nós”, romance do russo Ievguêni Zamyátin de 1923 que é considerado inspiração para as obras de Huxley e Orwell, entre muitas outras.

    As distopias de hoje e amanhã

    Para o escritor americano William Gibson, autor de “Neuromancer”, um aspecto especialmente sinistro na recente popularização de temas como o colapso da civilização é o fato de que “raramente hoje vemos a frase 'o século 22'. Quase nunca. Compare isso com a frequência com que o século 21 era evocado na cultura popular durante, digamos, a década de 20”. Suas declarações foram dadas ao site Vulture.

    Quando perguntado se isso seria porque as pessoas estavam tão pessimistas com o agora que nem conseguiam imaginar um futuro, Gibson devolveu “bem, esta é a questão — por que não conseguimos? Eu não sei”.

    Sobre a obsessão com as distopias nos dias atuais, o escritor explicou que elas se relacionam com nosso “pouco controle sobre qualquer coisa, individualmente”. Assim, “fantasias de impedir o fim do mundo são fantasias razoavelmente benignas que exercem cada vez mais poder”.

    Gibson pontuou também que a distopia não está necessariamente no futuro. “Muito da população humana do planeta hoje vive em condições que muitos habitantes da América do Norte considerariam distópicas. Um número razoável de cidadãos dos Estados Unidos vivem sob condições que muitas pessoas considerariam distópicas. A distopia não é distribuída de forma igual”, declarou, ecoando sua famosa citação “o futuro já chegou, ele só não foi distribuído de forma igualitária ainda”.

    “A ficção realista escrita hoje tem que ser razoavelmente pessimista — se não, não se pareceria com uma descrição realista do presente”, resumiu. “Hoje, é fácil confundir realidade com distopia”.

    Quem é William Gibson

    O autor americano, nascido em 1948, é conhecido por ter cunhado o termo “ciberespaço” para descrever um lugar virtual em que ocorrem interações por meio de computadores. A primeira menção ao termo ocorreu em seu conto “Burning Chrome”, de 1982. O conceito foi depois expandido em seu clássico romance “Neuromancer”, de 84, que contém uma descrição famosa do espaço computacional.

     

    “Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões… em todas as nações, por crianças aprendendo conceitos matemáticos… Uma representação gráfica de dados abstraídos de bancos de cada computador no sistema humano… agrupamentos e constelações de dados”, diz a obra, que também usa o termo “matrix” para designar o ciberespaço, inspirando mais tarde os filmes do mesmo nome.

    Seu livro mais recente saiu em 2012. Chamado “The Peripheral” (o periférico, em tradução livre), traz uma narrativa dividida em dois futuros diferentes: um mais imediato, em uma área rural da América na década de 2030; e outro que se passa na Inglaterra no século 22. As inspirações para as projeções do livro vêm de eventos contemporâneos: respectivamente, as milícias cristãs fundamentalistas do interior dos Estados Unidos e a Londres cada vez mais dominada pelo capital especulativo de oligarcas russos e milionários árabes.

    “Um dos papéis de Londres hoje parece ser o lar natural de um capital especulativo meio suspeito. É para onde você vai se consegue pilhar com sucesso um país do terceiro mundo”, disse Gibson ao jornal inglês The Guardian em 2012.

    Origem do termo ‘distopia’

    Distopia é um termo muito usado na literatura de ficção científica e, como o nome sugere, é o contrário da utopia. É um mundo onde nada deu certo, que é completamente errado e disfuncional. É o antônimo de “utopia”, termo que vem do livro de mesmo nome do autor inglês Thomas More, sobre uma sociedade sem violência ou pobreza.

    Um dos primeiros usos da palavra “distopia” foi pelo filósofo e economista inglês John Stuart Mill durante um discurso no parlamento britânico em 1868. Seu objetivo era denunciar a política fundiária do governo na Irlanda, cujos responsáveis, na sua opinião, “deveriam ser chamados de ‘dis-tópicos’... o que eles parecem favorecer é muito ruim para ser praticável”.

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