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Como fica a relação entre Temer e Maia após a rejeição da denúncia

A exemplo do peemedebista, o presidente da Câmara diz agora que o compromisso é aprovar a reforma da Previdência. Dois professores analisam o cenário

     

    Michel Temer passou pela seu primeiro teste de sobrevivência com os votos de 263 deputados federais (91 a mais do que o necessário) na sessão de quarta-feira (2). Rejeitada a denúncia por corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral da República, a prioridade do presidente agora é dar sequência à reforma da Previdência, crucial para manter o apoio do mercado financeiro, de parte da base aliada e, assim, chegar até o fim do mandato em dezembro de 2018.

    Para o peemedebista ter sucesso nessa estratégia, o Congresso precisa aprovar a reforma com certa agilidade, ainda em 2017 ou até o começo de 2018. A questão que se coloca é que Temer, mais uma vez, vai depender da Câmara, cujo presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem dado sinais de que também quer ter papel de destaque nesse processo.

    Maia é o primeiro na linha sucessória e assume em caso de afastamento de Temer. Trata-se de um fato que continua relevante, já que o presidente permanece ameaçado de ser novamente denunciado pela Procuradoria-Geral em razão do caso JBS. Se isso ocorrer, novamente a Câmara terá de votar seu futuro e impedir que a acusação chegue ao Supremo Tribunal Federal – instância que, após a autorização de dois terços dos deputados, pode afastar Temer do cargo caso decida abrir um processo contra ele.

    As reformas nos discursos após votação

    Ao final da votação de quarta-feira (2), tanto Temer quanto Maia se mostram dispostos a levar a reforma da Previdência adiante. Sem mencionar diretamente a proposta de rever as regras da aposentadoria, o presidente destacou em seu pronunciamento que, com o apoio da Câmara, fará as “reformas estruturantes que o país necessita”.

    “E é diante dessa eloquente decisão [da Câmara] que eu posso dizer que agora seguiremos em frente com as ações necessárias para concluir o trabalho que meu governo começou, convenhamos, há pouco mais de um ano. Estamos retirando o Brasil da mais grave crise econômica de nossa história”

    Michel Temer

    presidente da República

    Para aprovar a reforma, o peemedebista precisa de 308 votos, ou seja, 45 a mais que os 263 que recebeu na sessão de quarta-feira. Na sessão de votação de quarta-feira (2), os deputados que salvaram o presidente afirmaram que o fizeram em nome da estabilidade econômica. Mas poucos defendem claramente a reforma da Previdência. Mexer na aposentadoria dos brasileiros é um tema complexo e impopular.

    Tão logo a sessão acabou, Rodrigo Maia tentou marcar posição. Disse que, apesar da vitória, o resultado não foi tão bom para o governo. Além disso, ele chamou para a Câmara, e não para Temer, o protagonismo na agenda de reformas.

    “Foi um resultado ruim [para quem quer aprovar a reforma da Previdência]. (...) O mais importante é que a Câmara dos Deputados tem um protagonismo enorme na agenda de reformas e esse é o desafio que assumi”

    Rodrigo Maia (DEM-RJ)

    Presidente da Câmara, em entrevista à Globo News

    Nos bastidores, Maia chegou a se colocar como uma alternativa a Temer caso o presidente fosse afastado por causa do escândalo da JBS. A movimentação ruiu após aliados do presidente colarem no deputado a imagem de “traidor”. Passada a votação, Maia criticou a reação do entorno presidencial.

    “Alguns assessores do presidente foram muito truculentos, muito duros contra minha pessoa, um deputado que sempre foi leal ao governo, que foi desconvidado para ser líder do governo e mesmo assim continuou votando com o governo. (...) Nunca esperei que o entorno do presidente fosse jogar tão baixo comigo”

    Rodrigo Maia

    referindo-se a episódio de maio de 2016, para escolha da liderança do governo no Congresso

    Tanto Temer quanto Maia sabem que a Câmara é essencial na tramitação da reforma da Previdência, rejeitada por 71% dos brasileiros, de acordo com pesquisa Datafolha. É lá que serão realizadas as primeiras votações em plenário, antes que a matéria siga para o Senado. Como presidente da Câmara, Maia tem poderes para ditar o ritmo das votações, o que pode ser determinante para Temer.

    Nos bastidores, a movimentação de Maia é associada a possíveis pretensões eleitorais, seja para ele se consolidar para um novo mandato no Congresso seja para se viabilizar com uma opção para as eleições de 2018 no estado do Rio.

    Ao Nexo, dois cientistas políticos analisam esse cenário, em que Temer e Maia buscam um papel de destaque diante de um tema complexo e num momento de instabilidade política. São eles:

    • Andréa Freitas, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
    • Carlos Ranulfo, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

    Temer e Maia vão disputar o protagonismo nas reformas?

    Andréa Freitas Desde que saíram os boatos sobre Maia atuar para substituir Temer caso ele saísse, o deputado se coloca como protagonista. O discurso dele foi forte: “Fui maltratado, mas sei que tenho responsabilidades e não vou deixar esse fato atrapalhar o Brasil”. Tem uma mensagem clara ao Temer, mas também para a opinião pública. Ele se coloca mais publicamente como um possível candidato à Presidência.

    Embora Temer tenha conseguido os votos para barrar a denúncia, o resultado mostra que o governo talvez não tenha capacidade para aprovar as reformas. Acho sintomático o Maia se colocar nessa posição de protagonista e se abrindo para o mercado para falar “eu sou a pessoa que pode tocar, o Temer não tem mais condições”.

    O momento de crise é o momento para que novas lideranças despontem e assumam papéis. Acho que Maia demorou para se colocar nesse lugar se quisesse concorrer em 2018. Me parece mais que ele viu uma janela de oportunidade por estar calculando que Temer pode não chegar até 2018. E para isso ele não passa pelo crivo popular, é ali entre os colegas do Legislativo. Ele pode até pensar que a aprovação das reformas o beneficie em 2018, mas me parece um cálculo mais imediatista. Hoje, acho que Maia tem mais força que Temer para ditar o ritmo da reforma.

    Carlos Ranulfo O Maia se saiu bem desse processo da votação de denúncia e quer aparecer como protagonista das reformas. Acredito que ele tem planos políticos mais altos, ao contrário do Temer – que se sobreviver até 2018 está bom demais para ele. São projetos distintos, dentro de uma Câmara e de um cenário político que vão continuar muito tumultuados.

    E o que acontece agora é que Temer está muito dependente do centrão. O Maia não tem controle da Câmara como um todo. Ele sabe que não pode pautar uma reforma da Previdência agora porque o centrão ainda não está fechado com ela. O jogo é muito complicado.

    Não acho que Maia pode se sobrepor a Temer nessa articulação pela reforma da Previdência. Maia sozinho não opera. Temer e Maia, ainda que o deputado busque um caminho próprio, terão que trabalhar juntos se quiserem aprovar algo. Neste jogo, Temer ainda tem mais poder, embora esteja mais frágil (sabemos que pode vir uma nova denúncia e a sua base está menor). Maia não está sob fogo. Por outro lado, a Câmara não faz nada sozinha, depende do Senado e lá é presidida por Eunício Oliveira (PMDB-CE), que estaria mais próximo de Temer.

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