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Por que as ruas estão em silêncio. E o que isso pode virar

Apesar de 81% defenderem que Michel Temer seja julgado, protestos e pressão popular praticamente inexistiram antes, durante e depois da votação da denúncia contra o presidente na Câmara

    No dia 17 de abril de 2016, um domingo, quando a presidente Dilma Rousseff enfrentou a votação sobre a cassação de seu mandato na Câmara dos Deputados, 250 mil pessoas protestaram contra ela, na avenida Paulista, e 42 mil a favor dela, no Vale do Anhangabaú, de acordo com o Datafolha. Os dois locais ficam em São Paulo.

    Nesta quarta-feira (2), quando a Câmara realizava a sessão que barrou o envio da denúncia para que o Supremo julgasse o presidente Michel Temer pelo crime de corrupção passiva, não havia ninguém se manifestando nesses dois pontos.

    À exceção de alguns bloqueios de rodovias pela manhã, não foram registrados grandes atos no dia da votação na maior cidade do Brasil, tampouco em outros grandes centros.

    O silêncio contrasta com o que o Ibope revela em suas pesquisas recentes de opinião a respeito do governo Temer e da denúncia criminal por corrupção que atinge o presidente:

    81%

    defendem que Temer seja julgado pelo Supremo pelo crime de corrupção passiva

    79%

    consideram que ‘o deputado que votar contra a denúncia é cúmplice de corrupção’

    73%

    creem que o deputado que votar contra a abertura do processo não merece ser reeleito em 2018

    Além do apoio popular à abertura de um processo, pesava ainda contra Temer a alta impopularidade. Em julho, o Ibope realizou a primeira pesquisa após a Procuradoria-Geral da República ter denunciado Temer formalmente ao Supremo pelo crime de corrupção passiva no caso JBS.

    Nela, o presidente registrou os piores índices de popularidade em seus 15 meses de administração. É o pior índice alcançado por um presidente brasileiro desde a redemocratização, em 1985.

    Mesmo assim, nem o quadro de impopularidade mobilizou manifestantes no dia em que o mandato do peemedebista poderia ter sido abreviado.

    5%

    é o percentual de brasileiros que consideram o governo Temer ‘ótimo’ ou ‘bom’

    70%

    consideram o governo Temer ‘ruim’ ou ‘péssimo’

    Impopularidade

    Ranking dos presidentes

    O Nexo conversou com uma cientista e um cientista político sobre a ausência de grandes protestos e a consequência dessa insatisfação represada.

    • Carlos Melo, doutor em ciências sociais, especialista em cultura política brasileira e professor no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)
    • Esther Solano, doutora em ciências sociais, especialista em movimentos sociais e conflitos urbanos e professora na Unifesp

    Por que não há protestos de rua?

    Carlos Melo Os petistas dirão que a onda de protestos [em 2015 e 2016] tinha por objetivo único tirar Dilma do poder, mas isso é simplismo. O que há é uma decepção e um desalento enormes diante de uma perspectiva de continuidade do que temos hoje. As pessoas pensam: “afinal, vamos tirar Temer para colocar quem agora?”. Então, muitos consideram que seja melhor deixar que as eleições de 2018 resolvam a situação.

    Haverá quem diga que faltou convocatória, mas os protestos de 2013, assim como os primeiros protestos de 2015, não tiveram convocatória. Eu não sei se movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre), Vem Pra Rua e Revoltados On Line têm o poder de convocar milhões de pessoas. Eles não criaram as marchas, eles cresceram com elas. Eles são o resultado, não a causa delas.

    Direita e esquerda não têm interesse na queda de Temer. Uns preferem deixar ele sangrar, pensando no desgaste até a eleição de 2018. Outros querem estancar a sangria, pois quem come um boi come uma boiada [em referência ao avanço da Lava Jato sobre os políticos].

    Esther Solano Vejo duas razões. A primeira delas é que não existe uma convocatória. Isso dos dois lados.

    O pessoal do verde e amarelo, o MBL [Movimento Brasil Livre] e o Vem Pra Rua, até ensaiou alguma coisa, assim que saiu a delação do Joesley Batista [que gravou diálogo com Temer e celebrou acordo de delação premiada com a Justiça], mas logo desistiu.

    Do lado do PT — e dos partidos e movimentos que orbitam ao redor — também não há interesse, porque Temer está realizando reformas que os próprios petistas, no governo, teriam feito. Esse pessoal está de olho em 2018.

    Por fim, há um descontentamento, um cansaço e uma saturação enormes. Parece que as pessoas perderam a capacidade de seguir sentindo raiva. É uma saturação mesmo.

    Quais as consequências desse represamento da insatisfação?

    Carlos Melo Isso pode virar protesto em 2018. Aí é o caso de ver quem capitalizaria. Certamente, não será um candidato governista, nem será o Lula, pois ele é contra tudo, menos contra o PT. E o PT é parte do sistema. Pode ser alguém como [Jair] Bolsonaro. Pode ser alguém estilo [o prefeito de São Paulo, João] Doria, que venha com essa bandeira de abaixo ao Estado, gestão eficiente.

    O que ocorre é que o Brasil, hoje, parece um paiol. Dentro do paiol há vários barris de pólvora prontos para explodir. E tem muita gente fumando lá dentro. Falta um estopim. Esse estopim pode ser a crise nos estados, pois essa é uma crise visível, que afeta a saúde, a segurança pública, que faz fechar escolas. O Rio de Janeiro, por exemplo, está em colapso. Quando aquilo vai explodir? O ódio e a raiva vão durar até a eleição? Ou haverá algum conflito antes disso? Eu não sei.

    Esther Solano Primeiro e mais grave é a consequência de médio e de longo prazos. O Brasil tem uma história de desconfiança em relação ao Congresso e aos políticos de maneira geral. Essa desconfiança tende a se aprofundar, até mesmo em relação à figura do presidente da República.

    No curto prazo, eu não sei se o eleitor mantém esse registro de como os deputados votaram, na memória, para construir um voto de punição no futuro. O que pode acontecer é essa frustração se expressar na eleição de alguém como Bolsonaro e outros, que dizem que os políticos não prestam. Vai crescer o discurso contra os políticos no ambiente eleitoral.

     

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