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Como PT e PSOL convivem em meio à crise política

Declaração de Lula cria mal-estar num momento em que os dois partidos, depois de muito tempo, caminham juntos no Congresso

     

    O PSOL é uma dissidência do PT. Nasceu quando grupos internos se opuseram à reforma da Previdência proposta por Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, seu primeiro ano de mandato presidencial. Um novo partido, então, foi anunciado no ano seguinte, buscando resgatar bandeiras da esquerda, sob o slogan “socialismo e liberdade”.

    O pragmatismo do governo Lula foi central na cisão. O PSOL, dessa forma, integrou a oposição durante os 13 anos de governo do PT no Brasil. A reaproximação ocorreu apenas durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, os dois partidos estão lado  a lado na oposição do governo Michel Temer.

    Essa nova harmonia de propósitos, no entanto, acabou mexida por uma recente declaração de Lula. Em entrevista concedida no dia 20 de julho, o ex-presidente afirmou que o PSOL “se acha” e atua com “frescura”, sugerindo que o discurso defendido pelo partido não se sustenta na prática.

    A principal crítica do PSOL é que o PT se corrompeu quando chegou ao poder. A preocupação em vencer eleições, afirmam seus integrantes, levou os petistas a fecharem alianças com partidos identificados à direita, causando um afastamento de bandeiras históricas nas áreas social e econômica.

    “A única coisa que desejo é que eles ganhem uma prefeitura, a Prefeitura do Rio. Quando governarem a cidade do Rio, metade da frescura vai acabar. Eles vão perceber que não dá para nadar teoricamente. Entra na água e vai nadar, porra”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    ex-presidente, em 20 de julho

    As declarações do ex-presidente, claro, desagradaram integrantes do PSOL. As principais lideranças da legenda reagiram, entre elas a deputada federal Luiza Erundina, uma das fundadoras do PT, que deixou o partido em 1997. Ex-prefeita de São Paulo quando ainda era filiada ao partido de Lula, a deputada disse que naquele momento ela e seus aliados “entraram na água e nadaram”.

    “[Governamos] preservando os compromissos históricos do PT. (...) Isso não é frescura, mas, sim, coerência e fidelidade aos compromissos da esquerda. Os rompantes do ex-presidente poderiam ser dirigidos, não aos seus companheiros da esquerda, mas aos seus parceiros da direita com quem ele governou e que, no final, o traíram”

    Luiza Erundina

    deputada federal

    Mal estar na campanha, estopim na reforma

    O racha entre petistas começou ainda na campanha eleitoral de 2002. Parte da militância já demonstrava preocupação com os rumos do partido, que se aliou ao PL e escolheu como vice José Alencar, empresário e figura sem ligação com movimentos sociais, base eleitoral do PT.

    Lula saiu vitorioso, numa campanha marcada pelo discurso “paz e amor” e pela promessa de manter a base da política econômica do antecessor Fernando Henrique (1995-2002). A ruptura entre o governo e parte da militância, porém, se desenhou já no primeiro ano de gestão, em 2003. O estopim foi o debate em torno da reforma da Previdência proposta por Lula.

    Contrário às mudanças nas regras da aposentadoria, um grupo de deputados votou contra o governo. A ala ligada a Lula decidiu punir os “radicais” e expulsaram Heloísa Helena (AL), Luciana Genro (RS), João Batista de Oliveira, o Babá (PB), e João Fontes (SE).

    “O PT reafirma seu caráter partidário pluralista, livre para dar e receber opiniões, mas que preza pela unidade partidária no princípio do voto”

    José Genoino

    então presidente do PT, em dezembro de 2003

    PSOL, mensalão e oposição a Lula e Dilma

    Tão logo foram expulsos, os ex-petistas deram início à formação do PSOL, anunciado em 2004 e formalizado em setembro de 2005. Após o registro, outros petistas históricos migraram para o PSOL, a exemplo do Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo e os deputados federais Ivan Valente (SP) e Chico Alencar (RJ).

    De uma só vez, 400 petistas assinaram a desfiliação e rumaram ao PSOL. A movimentação coincidiu com a mais grave crise política de Lula, o escândalo do mensalão. Em maio de 2005, o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) apontou a existência de um esquema de compra de apoio político na Câmara.

    “A convivência com Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e outros que praticam a delinqüência política há décadas levou à contaminação do partido”

    Ivan Valente (PSOL-RJ)

    deputado federal, em outubro de 2005

    Antes mesmo do registro legal do PSOL, em 2004 os futuros integrantes da legenda já declaravam que fariam a “verdadeira oposição” a Lula. Embora sem tamanho suficiente para impor derrotas ao governo, o PSOL se manteve no campo opositor, sem se aliar ao PSDB e ao DEM, oposição histórica do PT.

    Tamanho no Congresso

     

    A bancada do PSOL se opunha principalmente às alianças com o PMDB, à política econômica e aos programas de privatização propostos por Lula, o que se seguiu no governo Dilma (2011-2016). Luciana Genro chegou a dizer que a petista cometeu “estelionato eleitoral” quando anunciou o ajuste fiscal em 2015, contrariando o discurso de que a economia estava sob controle, na campanha de 2014.

    No Executivo, o PSOL ainda ocupa pouco espaço pelo país. Em 2016, o partido foi ao segundo turno pela prefeitura do Rio, melhor desempenho em grandes capitais. Mas Marcelo Freixo perdeu para Marcelo Crivella (PRB), deixando ao PSOL um saldo de dois prefeitos eleitos entre 5.568 municípios, igual resultado de 2012.

    No plano nacional, a legenda disputou a Presidência em 2014, 2010 e 2006,  ano em que teve seu melhor resultado com a então senadora Heloísa Helena, agora filiada à Rede. Ela ficou em terceiro lugar e recebeu 6,5 milhões de votos.

    Uma tentativa de reaproximação

     

    A despeito das divergências, o PSOL se reaproximou do governo petista no auge da crise de Dilma, votando contra seu afastamento, em abril de 2016. A bancada continuava crítica à gestão, mas dizia que o impeachment era somente uma estratégia do PSDB e do PMDB para assumir a Presidência.

    Dilma foi afastada e o impeachment significou uma derrota importante não só para o PT. Em consequência das crises política, econômica e do avanço da Lava Jato, partidos identificados à esquerda receberam menos votos e perderam prefeituras importantes nas eleições municipais de 2016, marcadas pelo avanço das siglas de centro-direita.

    Desde então, quadros do PT, do PSOL e representantes de movimentos sociais falam em propor um programa de governo sólido, na tentativa de se organizar para as eleições de 2018. Lula quer ser candidato, mas sua condenação na Lava Jato pode barrá-lo se cair na Ficha Limpa. Com ou sem Lula, até o momento, não há um nome de consenso no campo da esquerda.

    Um grupo de integrantes do PT, PSOL e de movimentos sociais esteve reunido em junho às voltas com aquelas ideias. O diálogo, no entanto, desagradou Lula, segundo relatos de petistas próximos. Mais um sinal de que PT e PSOL tendem a continuar em caminhos paralelos.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a deputada Luciana Genro foi a candidata do PSOL mais votada em eleições presidenciais. Na verdade, foi Heloísa Helena. A informação foi corrigida às 11h13 do dia 28 de julho de 2017.

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