O papel da arte na saúde pública, segundo um grupo parlamentar britânico

Relatório defende que terapias com arte oferecem benefícios ao bem estar e saúde de uma forma que a medicina não é capaz de fazer

 

Um relatório de membros do Parlamento britânico afirma que a arte como fruição, e especialmente na forma de terapia, tem um impacto evidente sobre a saúde e o bem estar. Por isso, ela deveria ser incluída em estratégias nacionais de saúde pública.

Lançado em 19 de julho de 2017, o trabalho foi elaborado pelo Grupo Suprapartidário para Artes, Saúde e Bem-estar, criado em 2014. O documento reconhece que é difícil medir cientificamente o impacto da arte sobre a saúde, mas afirma que há dados o suficiente para se estabelecer que há, sim, um efeito positivo relevante. E a um custo baixo.

O trabalho cita, por exemplo, um estudo da Royal Holloway University London sobre uma terapia artística realizada com 35 pacientes de asilos nos municípios de Lambeth e Southwark. Entre 2012 e 2015, eles realizaram atividades de “artes da reminiscência”, conduzidas por artistas, em que foram incentivados a expressar memórias de formas verbais e não verbais que envolviam movimentos e criação de obras, como pinturas.

Os níveis de bem estar aumentaram 42%, e o comportamento positivo, 25%. A melhora foi observável já nos primeiros 50 minutos das atividades, continuaram nos primeiros 30 minutos após o fim delas e durante 24 semanas do estudo.

Os pesquisadores da Royal Holloway utilizaram um método para medir financeiramente o impacto, e determinaram que, para cada £1 investida na terapia havia um retorno de £1,35 em termos de anos de vida ajustados à qualidade, uma medida que capta ganhos em saúde considerando tanto anos quanto qualidade de vida obtidos.

Um outro exemplo citado é a instituição Core Arts, baseada no município de Hackney, que promove saúde mental através de práticas artísticas. Ela estima que economiza £2,58 para cada £1 investida.

O relatório cita a musicista Eva Okwonga, uma das responsáveis por um projeto de terapia musical focado em saúde mental. Ela afirma que “a autoexpressão artística dá aos participantes uma identidade além da doença. Eu vi as artes aumentarem a confiança, fortalecerem comunidades e oferecer esperança em meio ao sofrimento”.

Também citada, a médica Jane Povey, diretora de cuidados primários da Faculdade de Liderança e Administração Médica, que tem sede em Londres, afirma que “pelo menos um terço das consultas com clínicos gerais são, em parte, devido a isolamento.Através de programas sociais e comunitários, artes criativas podem ter um impacto significativo em reduzir isolamento e fomentar o bem-estar”, diz ela.

O relatório dos parlamentares britânicos ressalta que dinheiro não deve ser o único parâmetro para medir o benefício da arte sobre a saúde. “A diferença que a participação na arte faz na vida das pessoas transcende o valor econômico.”

Ele pode ter, no entanto, impacto orçamentário, à medida que serve para argumentar que a oferta de práticas artísticas não deve ser encarada como uma frivolidade: esses gastos podem aumentar bem estar e saúde da população de uma maneira que hospitais não têm conseguido.

Além de oferecer dados sobre como a arte impacta em saúde e bem-estar, o trabalho deve ser lido como um posicionamento político importante a favor da prática. Ele não tem poder para prescrever a adoção de nenhuma medida específica, mas recomenda uma série de políticas que poderiam ser implementadas pelo poder público e instituições sem fins lucrativos.

“Os maiores desafios para os sistemas de saúde e seguridade social vêm de uma população envelhecendo e a prevalência de doenças para as quais não há curas óbvias (...) Nós defendemos uma disposição informada e de mente aberta para aceitar que as artes podem representar uma contribuição significativa para lidar com uma série de desafios que nossos sistemas sociais e de saúde enfrentam”

‘Arte criativa: as artes para saúde e bem-estar’ , do Grupo Suprapartidário para Artes, Saúde e Bem-estar

Foto: David Schrigley/Reprodução
Ilustração de David Schrigley presente no relatório de grupo do Parlamento britânico
Ilustração de David Schrigley presente no relatório de grupo do Parlamento britânico
 

Medidas para incluir as artes na saúde pública

Estratégia governamental

O trabalho recomenda que uma estratégia governamental seja criada para implementar terapias que incluam a arte

Educação

Instituições de ensino da área de saúde, como faculdades de medicina ou enfermagem, deveriam incluir matérias sobre as evidências científicas a respeito dos benefícios de terapias com arte para saúde e bem-estar, assim como sobre formas de aplicar essas terapias. Instituições educacionais voltadas às artes deveriam criar cursos de graduação e pós-graduação dedicados ao tema

Pesquisa

Conselhos de pesquisa do Reino Unido deveriam criar meios de financiar pesquisas sobre a relação entre arte, saúde e bem-estar. E que pesquisas sobre saúde em geral passem a incluir o tema

Centro nacional

Um centro estratégico deveria ser criado para apoiar a inclusão da arte em políticas de saúde. O documento faz um apelo para que filantropos e órgãos governamentais o financiem

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