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Ex-presidente do Peru é preso. Como a Lava Jato atinge o país vizinho

Um ano após deixar o cargo, Ollanta Humala cumpre prisão temporária. Odebrecht afirma ter pagado US$ 29 milhões de propinas a autoridades

    Em fevereiro de 2017, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, reuniu em Brasília representantes de 14 países que investigam o pagamento de propina por empreiteiras brasileiras em seus territórios. A iniciativa de Janot deixou claro que a Operação Lava Jato, que existe desde 2014 e vem dominando o dia a dia da política no Brasil, também tem repercussão internacional.

    Nesta quinta-feira (13), o alcance da Lava Jato no exterior teve um novo desdobramento: o ex-presidente do Peru Ollanta Humala e a sua esposa, a ex-primeira-dama Nadine Heredia, foram presos temporariamente. Humala esteve no cargo de 2011 a 2016.

    Humala e Heredia são investigados por lavagem de dinheiro de caixa dois (doação eleitoral não declarada) nas campanhas presidenciais de 2006 e de 2011. Os recursos teriam como origem a empreiteira brasileira Odebrecht e o governo da Venezuela.

    A Justiça acatou o pedido de prisão temporária de 18 meses feito pela procuradoria sob o argumento de que existia o risco de que eles fugissem do país ou atrapalhassem as apurações. Humala e Heredia foram transferidos para prisões distintas na tarde desta sexta-feira (14).

    Eles negam as acusações. A defesa recorreu da decisão, que deverá ser avaliada pela segunda instância nas próximas semanas.

    “Essa é a confirmação do abuso de poder, ao qual nós faremos frente”

    Ollanta Humala

    ex-presidente do Peru, sobre decisão de prisão temporária

    O presidente Pedro Pablo Kuczynski declarou que a decisão de prender seu antecessor é “histórica” e que “tudo o que está acontecendo é muito triste”.

    Kuczynski e Humala são adversários, de pontos opostos do espectro político — o atual mandatário é do Peruanos Por el Kambio, de centro-direita, e anterior é do Partido Nacionalista Peruano, de centro-esquerda.

    A Lava Jato no Peru

    A investigação contra Humala e Heredia ganhou força após vir a público a delação de Marcelo Odebrecht, ex-presidente e herdeiro da empreiteira. O empresário brasileiro citou a doação, via caixa dois, de US$ 3 milhões à campanha de Humala em 2011.

    O Peru é um dos países mais afetado pela Lava Jato. No início de 2017, outro ex-presidente teve a prisão temporária decretada: Alejandro Toledo (2001-2006), que está nos EUA e não retornou ao país, o que o torna um foragido da Justiça.

    Acusado de receber propinas de US$ 20 milhões da Odebrecht para favorecer a empresa na construção de uma rodovia entre o Brasil e o Peru, Toledo afirma ser inocente e perseguido politicamente, o que cita como motivo para não retornar.

    O também ex-presidente Alan García (2006-2011) é investigado por suspeitas de receber propina da empresa brasileira e de exercer tráfico de influência na concessão da obra de uma linha de trem à Odebrecht. García nega irregularidades e se diz disposto a colaborar com a Justiça.

    Ou seja, os três ex-presidentes mais recentes do Peru são formalmente investigados por recebimento de propina ou doações ilegais da Odebrecht. Os três são de partidos e grupos políticos distintos.

    As suspeitas não atingem só os ex-presidentes. Também são investigados ex-ministros, governadores, funcionários públicos e outras autoridades.

    US$ 29 milhões

    foram dados em propina pela Odebrecht a funcionários públicos peruanos entre 2005 e 2014, segundo a empresa

    As operações da Odebrecht com presidentes ou candidatos presidenciais no Peru foram intermediadas pelo brasileiro Jorge Barata, um dos ex-executivos da empresa que fizeram delação premiada.

    Política cambaleia, economia também

    No Peru, o escândalo de corrupção envolvendo a maior empreiteira brasileira não foi danoso apenas para políticos. Desde as investigações da Lava Jato, diversas obras de grande porte no país estão paralisadas. Muitas delas aguardam novas licitações.

    O Ministério de Minas e Energia peruano afirmou em fevereiro que a economia deixará de crescer entre 0,5% e 1% em 2017 por conta das obras paralisadas da Odebrecht.

    “Não há dúvidas de que [o caso Odebrecht] é um freio na economia”

    Pedro Pablo Kuczynski

    presidente do Peru, em entrevista em março de 2017

    Pressionado pela repercussão das suspeitas de corrupção da empreiteira no país, o presidente Kuczynski falou em uma “saída gradual” da Odebrecht do país, para ser concluída ainda em 2017. O governo afirma que não voltará a contratar a empreiteira, o que, num primeiro momento, significa milhares de vagas de emprego a menos no país.

    Dos 128 mil funcionários que a empresa tinha ao final de 2015, 10 mil eram peruanos, número menor apenas que os brasileiros. A empresa realiza sucessivos cortes de pessoal desde que os casos de corrupção vieram à tona e, consequentemente, passou a executar menos obras. O número mais recente, do fim de 2016, é de 80 mil funcionários no total.

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