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As explicações por trás do iceberg que se soltou na Antártida

Cientistas afirmam que ainda não é possível ligar o evento ao aquecimento global

    Um dos maiores blocos de gelo já registrados se descolou da Antártida em 12 de julho de 2017. Com 6.000 km², ele é maior que o Distrito Federal e quase do tamanho da área metropolitana do Rio de Janeiro. Se fosse um país, seria maior que a nação caribenha de Trinidad e Tobago e mais de duas vezes o tamanho de Luxemburgo. É um dos dez maiores pedaços da Antártida a se soltar na história.

    Não foi uma surpresa: os cientistas já vinham acompanhando o crescimento da enorme fenda entre essa parte da plataforma de gelo e o restante do continente. O processo, entretanto, registrou períodos de maior velocidade este ano. Entre 25 e 31 de maio, a rachadura ganhou 17 quilômetros.

    O acontecimento também não deve ter influência no nível geral dos oceanos.

    O bloco se separou da seção C da plataforma de gelo Larsen, situada na Península Antártica, parte mais ao norte do continente e que fica abaixo do oceano Atlântico. A plataforma é a quarta maior do Polo Sul e registrou alguns dos incidentes de descolamento de gelo mais dramáticos das últimas décadas. No ano de 1995, toda a seção A de Larsen se desfez. Em 2002, o colapso de uma parte da seção B de Larsen foi apontada por cientistas como o maior fenômeno do tipo em 10 mil anos. Na ocasião, um bloco de gelo do tamanho de Luxemburgo saiu à deriva pelo oceano.

    Cientistas ligaram os dois descolamentos anteriores ao aumento das temperaturas no continente gelado. Sobre o fato de 2002, geólogos do Hamilton College, em Nova York, disseram na época que “o recente período prolongado de aquecimento da península da Antártida [ponta na parte norte do continente], em conjunto com o estreitamento a longo prazo [dos últimos 10 mil anos], levou ao colapso da plataforma de gelo”.

    As razões e consequências do fenômeno

    No caso do novo bloco de gelo, os cientistas dizem que não há evidências para atribuir seu descolamento ao aquecimento global, embora ele certamente tenha intensificado o processo. “A Antártida perde muito gelo assim a cada ano, então é mais do mesmo!”, afirmou Andrew Shepherd, professor de Observação da Terra da universidade de Leeds ao jornal britânico Guardian. O acontecimento também não deve ter influência no nível geral dos oceanos.

     

    “Não precisamos apertar o botão de pânico quanto a Larsen C. Grandes eventos de descolamento como este são processos normais de uma plataforma de gelo saudável, e têm ocorrido por décadas, séculos, milênios”, afirmou no fim de junho a oceanógrafa americana Helen Amanda Fricker em artigo no Guardian.

    Ainda segundo pesquisadores têm dito à imprensa estrangeira, qualquer impacto só poderá ser avaliado com o tempo. O desprendimento do bloco pode deixar a plataforma Larsen menos estável e menos capaz de interromper o caminho do gelo dos glaciares em direção ao oceano. Uma das consequências então seria o aumento do nível dos mares. A plataforma pode ainda soltar mais pedaços de gelo, assim como pode voltar a crescer.

    Um glaciar ou geleira é um vasto corpo de gelo formado de camadas de neve compactadas e que voltaram a se cristalizar. Os glaciares se movimentam de maneira lenta, sempre em direção a partes mais baixas do terreno e ao mar. Seu percurso pode ser interrompido ou retardado pelas plataformas de gelo, que são superfícies grossas de gelo flutuantes. Parte das plataformas pode ficar localizada em terra. Cerca de 44% da costa da Antártida é formada por plataformas de gelo, sendo as duas maiores a Ross, do tamanho da França, e a Filcher-Ronne, comparável ao Iraque.

    O que se sabe sobre a perda de gelo da Antártida

    Há dificuldades técnicas e logísticas para se mapear com exatidão a taxa de perda do gelo antártico. Atualmente, cientistas trabalham com muitas suspeitas e evidências, mas as informações ainda são incompletas demais para que se possa traçar uma avaliação geral da seriedade do problema.

    Simulações feitas por computador de cenários em que as emissões de gases que contribuem para o efeito estufa e o aquecimento global se mantêm altas sugerem que o continente poderia se desfazer com rapidez nesses casos. Isso poderia resultar em aumentos do nível do mar de 1,80 metros até o fim do século.

     

    Existem partes do continente mais vulneráveis que outras. Se esses trechos se desfizerem, há um risco maior de o nível do mar subir. Cientistas têm preocupação especial com a plataforma de gelo Oeste. De acordo com artigo do New York Times, medir as áreas problemáticas dessa plataforma teria um custo de mais de US$ 25 milhões e pode gerar resultados confiáveis apenas no início da década de 2020.

    O continente vem aumentando a extensão de sua área com gelo a despeito do aquecimento global, apresentando inclusive um recorde de extensão em 2014. Por estar cercada pelo oceano, a Antártida fica exposta a muitos fatores variáveis e imprevisíveis que determinam o clima da região, como a temperatura da água, da atmosfera, a intensidade dos ventos e a circulação do ar. A intensa variação desses elementos dificulta a determinação exata do que causa a tendência recente de aumento da superfície de gelo, constituindo um mistério para a comunidade científica.

    Na outra ponta do debate, negacionistas do aquecimento global viram no fenômeno uma validação de sua crença de que há preocupação exagerada por causa das mudanças climáticas.

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