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Como o plástico dos oceanos chega ao sal de cozinha

Pesquisadores analisaram 17 marcas de oito países e encontraram pedaços do material em 16 delas

Foto: Reprodução
Pedaços encontrados de a) polisopreno ou polistireno; b) polietileno; c) pigmento fitalocianina; d) filamento de nylon-6
Pedaços encontrados de a) polisopreno ou polistireno; b) polietileno; c) pigmento fitalocianina; d) filamento de nylon-6
 

Ao ser exposto a raios ultravioleta, ondas e o choque com areias e pedras, o plástico descartado nos oceanos se pulveriza em pequenos pedaços, chamados de microplásticos. Este é o nome dado às partículas do material com menos de 5 milímetros de extensão.

Os plásticos mais comumente produzidos pela indústria demoram séculos para se degradar na natureza, o que significa que uma garrafa atirada aos oceanos na década de 1960 provavelmente continua lá em 2017, mesmo que na forma de microplástico. Por isso, o material está se acumulando nas águas, e cada vez mais rápido: em 1964 a humanidade produzia 15 milhões de toneladas de plástico, em 2014 foram 311 milhões.

Em um artigo publicado em abril de 2017 na revista de divulgação científica Nature, pesquisadores malasianos, franceses e britânicos buscaram entender se grãos de microplástico podem ser encontrados em meio ao sal de mesa que consumimos. Os cientistas estão ligados à Universidade de Putra Malásia, Universidade de Monash Malásia, e Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Eles analisaram 17 marcas de sal industrial em oito países. Em 16 delas foram encontrados grãos de plástico.

Quando ingeridos, microplásticos podem causar pequenos ferimentos internos. A digestão também libera os poluentes carregados dos oceanos.

A pesquisa ressalta que foi encontrada uma proporção tão pequena do material nas amostras testadas que não há motivo para alarde. Mas recomenda que outros trabalhos busquem informações sobre a presença de partículas ainda menores do que as detectadas, assim como sinais do material em outros produtos aquáticos consumidos por humanos, como mexilhões e peixes.

“A quantificação e caracterização dos tipos de microplástico em vários produtos marinhos pode ser necessária.”

Como foi feita a pesquisa

As 17 marcas de sal vieram de oito países: Austrália (duas marcas), França (seis), Irã (uma), Japão (uma), Malásia (duas), Nova Zelândia (uma), Portugal (três) e África do Sul (uma).

Os pesquisadores dissolveram 1kg de cada amostra de sal em água e em seguida a filtraram em membranas com minúsculos buracos de 149 micrômetros. Um micrômetro equivale a um metro dividido por um milhão, e pode ser representado pelo símbolo “µm”. Isso significa que apenas pedaços de plástico maiores do que 149µm foram filtrados e que pedaços menores do que isso não foram avaliados pela pesquisa.

Em seguida, os cientistas separaram o plástico e analisaram as partículas com um microscópio. Depois separaram por forma e cor e fizeram uma nova análise com espectroscopia, uma técnica que observa como materiais emitem ou absorvem a radiação eletromagnética.

Um grão de sal tem entre 0,035µm e 0,5µm. A menor partícula de microplástico encontrada nas análises tinha 160µm, e a maior, 980µm.

Os riscos do plástico

A única amostra que não tinha nenhuma partícula de plástico foi a de uma marca francesa analisada. A que mais tinha era de uma marca portuguesa que participou da pesquisa, com dez partículas de microplástico por quilo de sal. Com base nessas informações, os pesquisadores estimaram que, ao consumir sal normalmente, uma pessoa poderia vir a ingerir, em um ano, até 37 micropartículas de plástico como as detectadas pelo trabalho.

Apesar de o microplástico ter sido encontrado em quase todas as amostras, a quantidade e o tamanho das partículas são tão pequenas que não se pode afirmar que elas representem um risco para a saúde humana, avaliam os cientistas.

Eles ressaltam, no entanto, que é possível que pedaços ainda menores do que os detectáveis pelo filtro utilizado estejam presentes. Isso preocupa porque “pedaços menores poderiam ser mais facilmente transportados para órgãos e, dessa maneira, causar um grau maior de toxicidade” no organismo.

A pesquisa também ressalta que o sal não é a única fonte de plástico consumida por seres humanos. O material foi encontrado anteriormente em moluscos e peixes, assim como na cerveja e até mesmo no mel. “Por isso, o consumo de longo prazo de vários produtos contendo microplástico pode ser um motivo para preocupação.”

O plástico se tornou um componente dos oceanos

A presença de microplástico no sal, mesmo após este ter passado por processos industriais de filtragem, mostra como o material se tornou comum no oceano.

O artigo ressalta que polipropileno e polietileno, usados em embalagens, por exemplo, estão entre as partículas mais obtidas após a filtragem realizada. Isso está de acordo com outros trabalhos que encontraram uma grande quantidade desse tipo de produto nas águas.

Segundo o artigo, pode ser que a abundância no sal ocorra “devido à baixa densidade, que permite que [os pedaços de microplástico] flutuem na superfície da água e sejam prontamente direcionados a salinas. Em adição, sua baixa densidade pode facilitar que sejam propagados ao serem suspensos no ar”.

O fato de que diversos tipos de plástico flutuam gera enormes aglomerações do material na superfície da água. Há também concentrações visíveis.

Uma das formações mais famosas de plástico flutuante é a Grande Porção de Lixo do Pacífico, que se forma entre a altura do Havaí e da Califórnia e se estende até a costa do Japão. Mas aglomerações do tipo podem ser encontradas em várias partes do mundo.

Entre 2007 e 2013, uma equipe capitaneada pelo pesquisador Markus Eriksen realizou 24 expedições para obter dados sobre o plástico flutuante. O material foi coletado e concentrações na superfície, registradas. Eles estimaram que há no mínimo 5,25 trilhões de partículas de plástico flutuante que, juntas, pesam 269 mil toneladas.

Um mapa interativo criado pela agência neozelandesa especializada em visualização de dados Dumpark permite visualizar os pontos de concentração.

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