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Por que fazer política mesmo sem ser político, segundo estes 2 pesquisadores

Crise mina credibilidade no sistema, mas, por outro lado, realça a importância da participação

     

    A longa duração da crise política e a extensão do alcance dos casos de corrupção revelados pela Lava Jato produzem um desencanto mensurável dos brasileiros com o próprio país.

    Pesquisa do instituto Datafolha publicada no dia 24 de junho mostrou que 69% dos brasileiros não confiam no Congresso - mesmo índice de rejeição aos partidos políticos - e 65% não confiam na instituição Presidência da República. O atual presidente, Michel Temer, é aprovado por apenas 7% - índice mais baixo já atingido por um presidente nos últimos 28 anos.

    A “corrupção” é “a primeira coisa que vêm à mente quando se pensa em Brasil” para 23% dos entrevistados, e 47% têm vergonha da própria nacionalidade.

    O refluxo com a política também é visível nas ruas. Os protestos que atraíram milhares em 2013, nas chamadas “Jornadas de Junho”, e em seguida com o movimento pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, hoje já não arrastam multidões.

    O descrédito em relação às instituições e a fadiga com o engajamento político também está presente nas redes, onde muitos dos que se envolveram em manifestações recentes se dizem agora desiludidos e cansados.

    O Nexo conversou com dois professores de ciência política para entender como essa fadiga e essa descrença impactam a vida política dos cidadãos. E o que cada pessoa pode fazer para não abdicar do próprio protagonismo em tempos de crise.

    • Andrea Freitas, professora de ciência política da Unicamp e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
    • Lucas Cunha, pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

    A fadiga com os casos de corrupção e com a crise pode levar à descrença e ao afastamento de um número significativo de pessoas da vida política?

    Andrea Freitas Sim. O efeito mais perverso da crise é exatamente essa sensação de desconfiança em relação aos políticos em geral. É grave porque não tem um efeito apenas imediato, mas também de longo prazo. Fica-se com a sensação - ainda mais em uma crise desse tamanho, que envolve um número grande de políticos de todos os partidos, de todos os níveis - de que a política se resume a apenas isso. Esse é o pior efeito da crise.

    Porém, é importante notar que, em alguns casos, existe um efeito contrário. Há gente que pensa em como se engajar. Gente que pensa ‘será que dá para mudar alguma coisa? Como dá para mudar?’. Há uma oportunidade para os que têm interesse em política. Os partidos terão de fazer algum tipo de renovação e de atrair gente nova. A crise terá um efeito sobre os quadros partidários. Eles [os partidos] terão de apresentar gente nova nas próximas eleições.

    Lucas Cunha A corrupção é, certamente, um problema estrutural e sistêmico. Escândalos de corrupção em democracias levam à uma visão de que a política é a esfera degenerada da vida e tende a afastar os eleitores da política.

    Os riscos de que todos se afastem da política é que ela seja colonizada por outras esferas da vida, por exemplo, a econômica. Essa ‘colonização’ da política pela economia pode se dar pela visão de que o mercado resolve todos os problemas e, na pior das possibilidades, a economia tenderia a se sobrepor à política, tornando-a uma dimensão meramente responsiva aos mercados ou à própria lógica do mercado. Outro risco é que a política seja capturada por lideranças que queiram refundar a política em outras bases, abalando as próprias bases democráticas de um sistema político.

    Como fazer política sem ser político?

    Andrea Freitas As pessoas tendem a achar que só se faz política em Brasília. Não se dão conta de que todos os dias elas fazem política. É algo que faz parte de nossas vidas. Ela [a política] está em todos os nossos espaços. No trabalho, quando estamos negociando qualquer questão, estamos fazendo política. Toda relação entre dois seres humanos envolve poder e, portanto, envolve política. Na prática, então, é possível fazer política se engajando com movimentos, buscando lutar por uma causa, pelo meio ambiente, por melhorias no bairro, no condomínio.

    Mas as pessoas devem pensar que também é importante fazer política dentro do Estado. A gente devia, nesse momento de crise, não só imaginar que todos são corruptos, mas tentar imaginar ‘qual o meu papel nesse lugar?’ É preciso cobrar os políticos, mandar e-mails sistematicamente, cobrar a classe política, dar opinião, fiscalizar a atuação dos políticos, ver como votaram, no Legislativo, na prefeitura, na Assembleia estadual. É fundamental que as pessoas olhem para esse momento como um momento de oportunidade de engajamento. A política não muda se não estivermos de olho nela.

    Lucas Cunha É comum se associar política somente à esfera do Estado, do governo, dos políticos ou das políticas públicas. Porém, na prática a política se refere a tudo aquilo que remeta a questões públicas ou que envolvam decisões coletivizadas. Isso significa dizer que uma questão pode ser ‘politizada’ na medida em que passa a fazer parte de um debate público que possa interferir na vida de todas e todos de uma maneira ou de outra. Fazer política envolve um engajamento nessas questões públicas. É possível fazer política, por exemplo, com amigos, familiares ou colegas de trabalho numa conversa sobre essas questões. Sempre que estivermos trocando juízos sobre como o mundo pode ser transformado, ou porque não deve sê-lo, estamos, de alguma maneira, fazendo política.

    No Brasil, a via partidária é refratária à participação de cidadãos comuns?

    Andrea Freitas Em teoria, qualquer pessoa pode se filiar a um partido, e isso não é muito difícil. Difícil é conseguir espaço para ser candidato a algo e, conseguindo esse espaço, conseguir recursos para ganhar, pois a definição de quem será eleito ou não começa na hora de dividir recursos e definir quem vai aparecer na TV. Esse canal nos partidos não é aberto à população. É muito complicado ascender. É mais fácil se você vier de uma associação grande de moradores, pela via da sociedade, para chegar ao partido mais bem colocado. É uma pena. Os partidos têm pouco interesse em atrair novas lideranças. Eles têm muita autonomia para regular sua vida interna e são pouco democráticos. Não vejo isso mudando no curto prazo, mas isso não significa que as pessoas não devam tentar.

    Lucas Cunha A ideia de partidos políticos no Brasil está fortemente ligada a algo degenerado. Isso não é sem razão e torna-se um tanto problemático para a disputa eleitoral. Os partidos têm dificuldade de renovar seus quadros sem perder suas concepções tradicionais. Mas cabe ressaltar que os partidos não são iguais em termos de seu tamanho e sua estrutura organizacional. Alguns são mais ‘democráticos’ internamente e outros são mais ‘oligarquizados’. Isso dificulta muito que os cidadãos se identifiquem com partidos e se percebam como sendo de um determinado 'lado' que possa ser representado por um partido político. Somado a isso, cabe lembrar que o sistema político brasileiro é centrado no candidato, isso também dificulta a identificação dos eleitores com ideias políticas e uma articulação de suas visões de mundo com aquelas dos partidos políticos.

    É possível dizer que o brasileiro é pouco engajado politicamente na vida cotidiana? Quais os efeitos disso?

    Andrea Freitas Tenho muito medo dessas frases que começam com ‘o brasileiro’, como se ele fosse um tipo de gente. Para dizer algo assim é preciso comparar com pessoas de outros lugares. Podemos olhar especificamente para a quantidade de cidadãos filiados a partidos políticos, por exemplo. A Europa, anos atrás, tinha um engajamento maior de pessoas com política. Hoje isso está caindo muito. Os índices de abstenção são altos. Basta ver a eleição na França este ano [23% no primeiro turno e 26% no segundo, com voto facultativo]. As pessoas têm, em geral, se afastado dessa ideia de que a democracia representativa é interessante. Isso é muito ruim porque não tem muita alternativa, não há um modelo alternativo e democrático. Não acho que os brasileiros tenham algo de muito especial em relação a isso. Como todo mundo, nós estamos passando por um processo de desencantamento que é danoso para a democracia no geral.

    Lucas Cunha A concepção de que o brasileiro é pouco engajado na política é uma afirmação ao mesmo tempo correta e falsa, a depender da forma como se percebe o problema. Se olharmos para os resultados eleitorais, podemos inferir que há elementos de desengajamento e superficialidade no comportamento do eleitor. Há na ciência política proposições sobre o ‘eleitor mediano’ que para o caso brasileiro é um eleitor fundamentalmente desinteressado por política. Nos últimos tempos o que vimos foi um engajamento e uma polarização política muito acentuados. Isso foi fruto de tensões políticas decorrentes de uma série de elementos sociais, conjunturais, econômicos e culturais. Os principais efeitos desse eleitor que antes era concebido como desinteressado e alheio à pol��tica, por vezes um eleitor tosco facilmente capturável por discursos fáceis e superficiais, é que, agora, as estratégias dos competidores políticos precisam ser repensadas. Não é mais razoável, por exemplo, que campanhas políticas sejam completamente baseadas em recursos financeiros, sem nenhum mote ou envolvimento com questões de alguma forma defensáveis publicamente.

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