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Qual a importância de Pierre Henry, pioneiro da música concreta

Ao criar composições a partir de sons do corpo humano ou de objetos metálicos, músico francês preconizou a técnica do sampling

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    Nome importante da música de vanguarda do século 20, o músico francês Pierre Henry morreu aos 89 anos nesta quinta-feira (6). Henry foi um dos pioneiros da música concreta, corrente de composição que criava peças musicais a partir de sons “existentes” como apitos de trem, batidas em objetos metálicos ou cantos de passarinho.

    A abordagem da música concreta é considerada uma ancestral direta do sampling, a gravação e manipulação digital de trechos de som. A pesquisa de Henry é precursora de métodos e técnicas que hoje são parte integrante do processo de composição da música pop.

    "Era um dos grandes decifradores sonoros do século 20, que mudaram a forma de conceber a música", afirmou à imprensa o francês Jean-Michel Jarre, precursor da música eletrônica, por ocasião da morte de Henry.

    Como o músico começou

    Sua carreira se iniciou na década de 1940. Depois de estudar piano e percussão no Conservatório de Paris, foi trabalhar na emissora estatal de rádio e televisão da França (ORTF). Lá conheceu Pierre Schaeffer, engenheiro e musicólogo que vinha experimentando sonoridades produzidas por meio de fita magnética, aparelhos elétricos, equipamentos de áudio. Os dois começaram a trabalhar juntos em composições.

    Uma de suas primeiras colaborações foi “Symphonie Pour Un Homme Seul”, composta em 1949 e apresentada ao público em 1950. A música é uma montagem de sons aleatórios emitidos por pessoas.

     

    Em 1951, Schaeffer batizou essa nova abordagem criativa ao lançar o Grupo de Pesquisa de Música Concreta dentro da estrutura da emissora. Henry seguiu trabalhando com ele e em composições solo até 1958. A partir de meados da década de 1950, começam a sair coletâneas reunindo composições concretas, sendo a grande maioria das faixas de autoria de algum dos dois Pierres ou dos dois juntos.

    A trilha para o curta-metragem “Astrologie ou le miroir de la vie” (astrologia ou o espelho da vida, em tradução livre), do diretor Jean Grémillon, foi sua primeira colaboração para filme. Ele assinaria um total de 30 trilhas para dança, teatro e cinema em sua carreira. Uma de suas parcerias mais conhecidas foi com o coreógrafo Maurice Béjart, com quem trabalhou em 15 projetos, entre eles o espetáculo “Messe pour le temps présent” ("Missa para o Tempo Presente"), que estreou em 1967 na França.

    Na trilha para o balé, aparecem tentativas do compositor de se aproximar de uma linguagem mais pop. Entre elas está a música “Psyche Rock”, que viria a se tornar uma de suas obras mais conhecidas. Henry depois trabalharia com a banda de rock psicodélico Spooky Tooth.

     

    Na década de 1990, “Psyche Rock” foi redescoberta por DJs e ganhou remixes novos, incluindo um do superstar das picapes Fatboy Slim. A música seria ainda inspiração da música-tema do seriado animado “Futurama”, de Matt Groening (autor de “Os Simpsons”). Henry seguiu produzindo obras pelas décadas de 1980 e 1990.

    O que é a música concreta

    O gênero desenvolvido por Pierre Henry e Pierre Schaeffer deve tudo a uma invenção alemã do fim dos anos 1920: a fita magnética. Antes da era digital, quando sons puderam ser convertidos em bits para posterior reprodução, era necessário usar suportes físicos para armazenar gravações. O disco de vinil é o mais conhecido desses suportes, mas durante o século 20 a fita magnética (contida em grandes rolos ou pequenas fitas cassete) ocupou lugar de destaque.

    O trunfo da fita magnética era a versatilidade. No caso dos músicos “concretos”, gravações de instrumentos, de som ambiente ou de barulhos captados na rua podiam ser utilizados de diversas maneiras. Era possível fazer edições minuciosas na fita, removendo ou trocando trechos de lugar. Também podia-se tocar um trecho mais rápido ou mais devagar, simulando afinações diferentes, criando “notas” distintas a partir, por exemplo, de uma batida de martelo em uma chapa de ferro. Outro recurso muito usado era tocar um pedaço da fita ao contrário, criando outro tipo de efeito. Em resumo, a matéria-prima do artista de música concreta não eram notas produzidas com sopro ou cordas, mas gravações em áudio.

     

    As composições eram soltas em termos de arranjo e estrutura (pode-se dizer que muitas abdicam completamente de estrutura). Não há melodia e a voz humana, quando usada, entra como mais uma sonoridade e nunca como um veículo de interpretação ou emoção.

    A música concreta fazia parte da música eletroacústica, denominação mais ampla dada a diversas correntes de experimentação que introduziram instrumentos e aparelhos elétricos e eletrônicos na música. Esse termo mais amplo é usado (até hoje) no contexto da música erudita, mas nunca no contexto da música popular, que conta com sua própria coleção de denominações.

    Ainda assim, a música concreta exerceu forte influência na música pop e no rock dos anos 1970 e 1980. Os Beatles, em especial, incorporaram suas técnicas em algumas de suas músicas, como o som que toca de trás para frente em “Tomorrow never knows”. A faixa “Autobahn”, hit do Kraftwerk de 1974, se vale de sons de automóvel em sua introdução.

    Para além das influências pontuais, o trabalho dos compositores de música concreta foi importante no desenvolvimento de técnicas e tecnologias usadas nas décadas seguintes em estúdios de gravação e fabricação de sintetizadores, afetando, por consequência, a música popular como um todo. O exemplo mais evidente está no sampler, aparelho que permite a captura digital de sons e posterior manuseio de suas características, como afinação e timbre.

     

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