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Por que um grupo de países árabes quer acabar com a rede de TV Al-Jazeera

Canal jornalístico controlado pelo Qatar é alvo dos vizinhos, que exigem seu fim como condição para reatar laços diplomáticos com o país

     

    Desde o início de junho o Qatar está isolado de seus vizinhos no Oriente Médio como parte de um pacote de sanções comerciais e diplomáticas impostas contra o país. O governo local é acusado de patrocinar grupos terroristas com a finalidade de gerar instabilidade política na região.

    Para voltar à normalidade, os vizinhos enviaram uma lista ao governo qatari com 13 demandas, que incluíam a redução das relações com o Irã — um aliado do Qatar e rival da Arábia Saudita — e a retirada de tropas turcas de seu território. Uma das demandas chamou a atenção: os vizinhos pediam o fechamento da rede de notícias Al-Jazeera, controlada pelo governo qatari.

    Isolamento qatari

     

    A proposta foi feita no dia 22 de junho e o Qatar tinha dez dias para responder. O prazo foi estendido por mais 48 horas, e ainda assim não houve acordo. Sameh Shoukry, ministro de relações exteriores do Egito, disse que o governo qatari “não entendeu a seriedade e gravidade da situação”, enviando uma contraproposta “em geral negativa e sem conteúdo”. O bloqueio ao Qatar continua, assim como a Al-Jazeera segue funcionando.

    Qual o problema com a Al-Jazeera

     

    Desde o seu surgimento, em novembro de 1996, a rede de notícias é alvo de críticas e mal estar entre os vizinhos do Qatar. Boa parte de seu staff foi formada por jornalistas da rede inglesa BBC, expulsa da Arábia Saudita por praticar um jornalismo investigativo que incomodava o governo.

    Os repórteres recém desempregados encontraram na rede qatari uma chance de recomeçar, levando consigo um padrão de jornalismo mundialmente reconhecido, mas feito na língua árabe.

    Os regimes de vários países da região, como o saudita e o egípcio, não são exatamente democráticos. Contam com um alto controle sobre a informação que chega à sua população. A Al-Jazeera, contudo, promoveu uma espécie de quebra nesse modelo.

    O canal introduziu o sinal de TV via satélite, que ignora as fronteiras políticas e chega a telespectadores de toda a região árabe. Pela primeira vez, a audiência de países como Arábia Saudita e Emirados Árabes passou a ter acesso a um conteúdo crítico a figuras de poder.

     

    Essa audiência não é desconsiderável. Na Arábia Saudita, por exemplo, uma pesquisa de 2004 mostrou que 89% das casas possuíam aparelhos com recepção de sinal de satélite. Mais que isso, naquele ano a audiência da Al-Jazeera já era cinco vezes maior do que a da rede Al-Hurra, que contava com investimento americano.

    Seu crescimento entre países do Ocidente se deu sobretudo pela cobertura de episódios como o bombardeio do Iraque pelos EUA e pelo Reino Unido em 1998, mas principalmente pela invasão do Afeganistão pelos EUA em 2001 — quando foi por algum tempo a única rede de TV in loco — e pela Primavera Árabe, em 2011.

    A Primavera Árabe

    A relação desgastada no Oriente Médio se acentuou no início da década de 2010, com os protestos da Primavera Árabe. O movimento que pedia a queda de regimes autoritários na região — e que conseguiu ter êxito em alguns casos, como no Egito e na Líbia — abriu espaço para disputas locais de poder.

    Grupos rivais entraram na briga, em geral apoiados por potências externas. Qatar e Arábia Saudita se viram em pólos opostos nessas disputas. No Egito, por exemplo, o governo qatari apoia a Irmandade Muçulmana, enquanto os sauditas consideram o grupo como uma célula terrorista. No vídeo abaixo, a rede critica o atual mandatário egípcio, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, rival da Irmandade Muçulmana.

     

    Mas além de disputar influência sobre os governos pós-Primavera Árabe, o Qatar é acusado de ser o grande fomentador dos protestos exatamente por meio das atividades da Al-Jazeera. Desde então, a rede é tida como a principal ferramenta política do Qatar para desestabilizar regimes rivais na região.

    O “New York Times” escreveu em 2011 que a “Al-Jazeera foi amplamente acusada de ajudar a criar a revolta na Tunísia com suas reportagens galvanizadoras”, mesmo tendo “vans e escritórios atacados e queimados” por grupos pró-Ocidente.

    “A noção de que há uma luta em comum no mundo Árabe [contra governos totalitários] é algo que a Al-Jazeera ajudou a criar. Ela não causou esses eventos [da Primavera Árabe], mas é quase impossível imaginar tudo isso acontecendo sem a Al-Jazeera”

    Mary Lynch

    Professora de Estudos do Oriente Médio na Universidade George Washington, nos EUA, em entrevista ao “New York Times

    As críticas à rede

     

    Embora seja comemorada como uma rede que trouxe um estilo de jornalismo mais livre ao Oriente Médio, ajudando a equilibrar o fluxo de informação no sentido Oriente-Ocidente, a Al-Jazeera também é alvo de críticas em suas coberturas.

    Uma das mais comuns é a falta de equilíbrio ao cobrir problemas entre os vizinhos. Embora tenha adotado posicionamento crítico a diversos governos no contexto da Primavera Árabe, em 2011, a rede foi apontada por não dar espaço a notícias sobre o Bahrein quando o governo local reprimiu violentamente os protestos e foi acusado de tortura. Na época, tropas qataris estavam em missão no país.

    Antes disso, em 2001, a Al-Jazeera ficou conhecida nos EUA como uma rede que “apoiava o terrorismo” por causa de sua cobertura dos atentados contra as Torres Gêmeas e ao Pentágono naquele ano.

    Com imagens de dentro das células da Al-Qaeda no Oriente Médio, e com a transmissão de uma mensagem de Osama Bin Laden logo depois do 11 de setembro, o público americano passou a repudiar largamente a televisão qatari.

    Em 2013, a rede inaugurou uma sucursal nos EUA, mas o projeto durou apenas três anos. Sem conseguir atrair a audiência americana e alvo de diversos processos judiciais, o canal deixou de funcionar em 2016.

    Em 2017, um documentarista que trabalhou em projetos para a Al-Jazeera America, Jon Ossoff, foi candidato ao Legislativo americano pelo Partido Democrata. Boa parte da campanha republicana contra ele se baseou no fato dele ter trabalhado para a rede qatari, definida como “porta-voz de terroristas”. Ossoff foi derrotado nas urnas.

     

    A cobertura da crise brasileira

    Em 2016, a rede qatari também ganhou atenção no Brasil ao entrevistar duas figuras políticas importantes da crise política do país. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participou do programa UpFront durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Meses depois, a petista foi entrevistada no mesmo programa, já fora da presidência.

    Em ambas as entrevistas, os ex-presidentes tiveram que responder a perguntas diretas e duras do jornalista Mehdi Hasan. O tucano foi questionado por que apoiou o impeachment de Dilma pelo crime de pedaladas fiscais se ele tinha feito a mesma coisa em 2001. Já a petista ouviu de Hasan que ela e o PT não “jogaram conforme as regras” quando estiveram no governo.

    O que a Al-Jazeera tem pela frente

    As relações entre Qatar e vizinhos continuam tensas. Os governos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos estabeleceram multas para seus cidadãos que demonstrarem apoio aos qataris em público e em redes sociais, por exemplo. Mesmo os sauditas que usarem camisas do Barcelona com o patrocínio da rede aérea do vizinho, a Qatar Airways, correm riscos de represálias, segundo a agência de notícias alemã “Deutsche Welle”.

    Nesse sentido, o governo qatari seguirá sob pressão para acabar com a Al-Jazeera, em um movimento definido pela rede como “nada mais que uma tentativa de acabar com a liberdade de expressão na região”. O diretor da rede, contudo, disse ao “Guardian” que o canal vai “continuar até o último momento” com seu modelo de jornalismo. E ressaltou que a TV não está isenta de críticas.

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