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Mulheres com máscaras de vaca: um protesto contra os abusos sexuais na Índia

Projeto fotográfico questiona se animais sagrados do hinduísmo não estão mais seguros que a população feminina no país

     

    Uma mulher deitada na cama enquanto fala ao telefone. Outra sentada em um barco navegando pelo rio Calcutá. Outra tocando piano. Outra se olhando no espelho. Outra na faculdade. Todas essas situações estão em fotos do indiano Sujatro Ghosh com um aspecto em comum: elas usam uma máscara de vaca.

    “Em meu país, vacas são mais importantes que a vida de uma mulher, com mais segurança”, descreveu Ghosh na legenda da primeira foto de uma série que vem construindo em seu instagram. “Minha arte vem em forma de protesto.”

     

     

    A intenção do artista é chamar atenção pública para a contradição existente na Índia. Enquanto a vaca é um animal sagrado na religião Hindu, que abrange cerca de 80% da população, os registros de abusos sexuais e outros casos de violência contra as mulheres são crescentes.

    1,3 bilhão

    de pessoas é a população da Índia segundo medição de 2015 do Banco Mundial

    Em 2013, uma média de 92 mulheres foram estupradas por dia e reportaram a agressão às autoridades policiais. Em 2015, a média subiu para 94. Casos de estupro coletivo não são raros, muitas vezes resultando na morte da vítima. Ainda assim, medidas que assegurem a proteção à mulher são lentas e ineficazes.

    O projeto fotográfico de Ghosh pretende chamar a atenção para essa questão. Segundo ele, “é mais seguro ser uma vaca que uma mulher na Índia”.

     

    Diferença nas punições

    Uma das principais características da violência contra a mulher na Índia é a facilidade com que os homens agressores saem impunes. Em muitos casos, com a complacência da polícia — quando não são os próprios policiais os agressores.

    Mulheres muitas vezes evitam ir ao banheiro em regiões rurais com medo de serem estupradas no caminho — na Índia, mais da metade dos domicílios não têm latrina e seus moradores precisam se aliviar a céu aberto.

    Um relatório de 2009 da Human Rights Watch que trata dos problemas policiais no país traça o cenário presente em diferentes cantos da Índia. Alguns dos cenários comuns são a ausência de investigação adequada às denúncias ou as sugestões policiais de que mulheres agredidas deixem suas casas e procurem outra cidade para viver.

    “Na Índia, mulheres e garotas continuam sendo vendidas como bens, casando tão jovens quanto aos 10 anos de idade, sendo queimadas vivas como resultado de disputas por dote e jovens garotas sendo exploradas e abusadas em trabalho doméstico escravo”

    Gulshun Rehman

    Conselheira da ong Save the Children UK, ao “The Guardian

    Por outro lado, a legislação é mais rígida quando a violência acontece contra as vacas. Alguns governos locais, como no estado de Gujarat, por exemplo, tentam implementar a pena de morte para quem matar uma vaca. Em casos menos extremos, as punições podem ser tanto com multas quanto com longos períodos na cadeia.

    Além das instâncias oficiais, grupos paralelos auto-organizados perseguem, agridem e muitas vezes matam suspeitos de comer bife de vaca — uma violência que ganha contornos religiosos uma vez que a maioria das vítimas é muçulmana. Fazendeiros e vendedores também são vítimas frequentes desses grupos.

    Nacionalismo hindu e a proteção às vacas

     

    A crescente violência associada ao debate sobre consumir ou não carne de vaca na Índia está relacionada ao também crescente movimento nacionalista hindu, que prega a religião como a cultura que deve ser dominante no país.

    Tal nacionalismo tem ligações com o partido que atualmente está no poder com o primeiro-ministro Narendra Modi, o PBJ. Modi começou sua carreira política em um grupo paramilitar de extrema-direita que foi proibido de atuar no país por três vezes ao longo da história e ultimamente tem ganhado poder dentro do governo.

    O momento político indiano ganhou o nome de “hindutva”, algo como “primeiro o Hindu”, e é exemplificado na tentativa do governo em instaurar um sistema de identificação das vacas do país similar ao das pessoas — inclusive com carteira de identidade.

    A violência associada à carne, somada ao crescimento das motivações religiosas no desenho das políticas públicas na Índia, fazem com que a associação proposta pelo fotógrafo Ghosh faça ainda mais sentido.

    A vaca e o hinduísmo

    Animal sagrado

    Segundo a Enciclopédia Britânica, o hinduísmo associa a vaca às benesses naturais e divinas, devendo portanto ser venerada e protegida.

    Escrituras

    O hinduísmo não segue um “livro de regras” como outras religiões, mas alguns dos principais textos que guiam a crença já trazem a veneração à vaca como parte importante da fé.

    Proteção

    Isso garante que as vacas indianas circulem livremente pelo território — são 40 mil só em Nova Deli —, inclusive pelas ruas, sendo consideradas o principal causador de trânsito na capital.

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