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Qual o risco de uma guerra nuclear hoje? Este especialista responde

Regime norte-coreano testa com êxito míssil capaz de atingir os EUA. Professor de defesa e relações internacionais fala ao ‘Nexo’ sobre o que há de real e de retórica no fato

     

    A Coreia do Norte anunciou nesta terça-feira (4) ter concluído com êxito, pela primeira vez, o lançamento de um míssil balístico intercontinental, cujo raio de alcance ameaça o Estado americano do Alasca, além de capitais como Moscou (Rússia), Pequim (China) e Tóquio (Japão). A preocupação mundial com esse teste é explicada por dois fatores.

    Fatores de risco

    Nuclear

    O lançamento do míssil balístico ocorre na sequência de uma série de outros testes exitosos realizados pela Coreia do Norte, envolvendo ogivas nucleares e bombas de hidrogênio. Essas munições têm um poder devastador, cujos efeitos não podem ser contidos a uma área delimitada precisa, nem a um espaço de tempo delimitado, uma vez que seu efeito radioativo se estende por décadas.

    Político

    As ameaças mútuas entre Coreia do Norte e EUA cresceram recentemente, a tal ponto que os governos da Rússia e da China, opositores políticos dos americanos, chegaram a pedir moderação, diante do temor de que uma guerra nuclear ecloda na região. Em 19 de abril, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, havia prometido reagir a qualquer ato hostil norte-coreano “com uma resposta esmagadora”. O “Minju Joson”, jornal oficial do governo norte-coreano, havia dito um dia antes: “Nós temos arsenal suficiente para derrotar com um único golpe nossos inimigos”.

    Como é determinado o alcance do míssil

    Mapa mostra alcance de míssil norte-coreano
     

    O míssil Hwasong-14 foi lançado às 9 horas do horário local (22h30 de segunda-feira, dia 3, no horário de Brasília) de uma base aérea militar na cidade de Kusong, no noroeste da Coreia do Norte. Ele alcançou uma altitude máxima de 2.802 quilômetros e cobriu uma distância de 933 quilômetros em 39 minutos.

    Segundo a agência estatal norte-coreana de notícias, a KCNA, o Hwasong-14 atingiu com precisão um ponto previamente determinado “em mar aberto, no Mar Ocidental da Coreia”, e “não provocou efeito adverso na segurança dos países vizinhos”.

    O alcance real obtido no teste (933 quilômetros) é menor do que o potencial de alcance estimado numa situação real (6.400 quilômetros).

    Essa diferença se deve ao fato de que, no teste, o míssil descreveu o ângulo máximo de uma parábola - subindo, mais do que avançando horizontalmente. Numa situação real, o míssil faria uma parábola de ângulo mais aberto, subindo menos e cobrindo uma área maior. O que importa para o teste é o míssil ter provado ter potência suficiente e acuidade.

    O míssil é apenas um veículo. Ele não estava equipado com carga explosiva alguma no momento do teste. O perigo está na combinação entre o raio de alcance do veículo (míssil) e o desenvolvimento de ogivas nucleares que a Coreia do Norte vem testando em separado (munição).

    Qual o motivo do teste, segundo a Coreia do Norte

    A Coreia do Norte é um dos regimes mais fechados do mundo. O país não tem uma sociedade civil diversa, com acadêmicos e pesquisadores ligados a instituições fortes de pesquisa, partidos políticos de oposição e imprensa livre. Assim, a única forma de saber o que o governo pretende é recorrendo aos órgãos oficiais de informação.

    A linguagem desses órgãos é inflamada, superlativa e imprecisa. Após o teste do míssil balístico lançado na terça-feira (4), por exemplo, a agência norte-coreana KCNA publicou comunicado dizendo o seguinte:

    “Como uma potência nuclear de pleno direito, e de posse do mais poderoso foguete balístico intercontinental capaz de atingir qualquer parte do mundo, juntamente com armas nucleares, a RPDC [República Popular da Coreia do Norte] irá fundamentalmente colocar fim à chantagem e à ameaça de guerra nuclear dos Estados Unidos, defendendo de forma confiável a paz e a estabilidade da península coreana e da região”

    Comunicado emitido pela KCNA, agência oficial norte-coreana de notícias, após o teste exitoso de míssil balístico no dia 4 de julho de 2017

    O comunicado faz referência à presença militar americana no sul da Ásia, que se estende ininterruptamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

    À época, o mundo se dividiu entre um lado capitalista, liderado pelos EUA, e outro comunista, liderado pela hoje extinta União Soviética. A Península Coreana foi dividida ao meio, com o norte comunista e o sul capitalista. A divisão perdura até hoje.

    Qual o motivo do teste, segundo as potências

     

    Rússia e China - vizinhos próximos da Coreia do Norte e antagonistas políticos dos EUA - consideram que os exercícios militares conjuntos realizados na região por forças americanas e sul-coreanas estão alimentando a resposta norte-coreana.

    Além disso, russos e chineses criticam o fato de os EUA terem reativado em março de 2017 um escudo anti-mísseis na região. O Thaad (Terminal de Defesa Aérea para Grandes Altitudes, na sigla em inglês) foi concebido para interceptar e destruir mísseis em pleno voo, antes que eles atinjam seus alvos.

    A instalação desse tipo de defesa desequilibra as forças na região, levando ao que se chama de “corrida armamentista”. Nela, cada potência tenta superar a capacidade de reação de um possível adversário, provocando uma escalada não apenas retórica, política e militar, mas também de gastos.

    Indicadores de risco real

     

    Em 1947, o Boletim dos Cientistas Atômicos criou o “Relógio do Dia do Juízo Final”. Nele, os ponteiros se movem de acordo com a iminência de um ataque nuclear, sendo a meia-noite o momento da explosão. Na contagem atual, o ponteiro marca apenas 2,5 minutos para a ocorrência de um ataque. A ameaça já foi menor: 23h57 em 2015 e 2016, e 23h55 em 2012, por exemplo.

    Além do relógio - elaborado por renomados cientistas para ilustrar de maneira popular um problema complicado -, há também diversas análises de especialistas sobre o risco real de um conflito agora.

    O centro de estudos americano Council on Foreing Relations fala de uma “grave ameaça à segurança”, representada por um arsenal “de entre 15 e 20 ogivas nucleares” norte-coreanas.

    Outro influente centro de estudos americanos, o Brookings Institution, considera a Coreia do Norte “um dos locais mais pesadamente armados da Terra” e “o único a ter realizado testes atômicos no século 21”.

    Para entender os elementos presentes nessa disputa e os riscos para a segurança, o Nexo conversou com Gunther Rudzit, doutor em ciência política pela USP, com especialização em estudos de segurança na Universidade Georgetown (EUA), professor visitante na Universidade da Força Aérea Brasileira e Coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Rio Branco.

    Qual o risco de uma guerra nuclear na Península da Coreia hoje?

    Gunther Rudzit A situação está chegando a um limite. O establishment militar americano não vai aceitar uma Coreia do Norte nuclear com capacidade de atingir os EUA continental. Isso já é discutido há muitos anos lá [nos EUA]. Governos anteriores sempre postergaram a intervenção proposta pelos militares devido ao altíssimo número de baixas que podem ocorrer na Coreia do Sul. Desde o segundo governo de Bill Clinton [1993-2001], já se falava em entre 1 milhão e 1,5 milhão de mortos.

    ‘Temos dois líderes [Kim Jong-un e Trump] para os quais qualquer atitude que possa parecer um recuo faz com que eles se sintam humilhados e enfraquecidos do ponto de vista interno’

    A capacidade de destruição da Coreia do Norte não é só em termos nucleares. A capacidade de artilharia convencional que pode atingir Seul [capital da Coreia do Sul] é muito grande e isso é que veio segurando uma ação militar americana.

    Porém, finalmente temos agora um momento em que isso precisa ser enfrentado. E calhou de ser exatamente no mandato de um presidente destemperado [em referência ao presidente dos EUA, Donald Trump]. Há algumas posturas que ele assume e volta atrás. Em outras, não volta. Não acho que ele aceite ser humilhado pelo líder norte-coreano [Kim Jong-un]. São dois líderes para os quais qualquer atitude que possa parecer um recuo faz com que eles se sintam humilhados e enfraquecidos do ponto de vista interno. Então, não é um problema de um único lado, são os dois.

    Uma coisa era ter a Coreia do Norte com essa postura e, do outro lado, estar o [Barack] Obama [presidente americano de 2009 a 2017], apostando na paciência estratégica, esperando os chineses resolverem a situação. Agora, não é assim. Então, essa possibilidade de guerra - mesmo que não seja uma guerra nuclear, mesmo que os EUA consigam num primeiro ataque destruir a capacidade nuclear norte-coreana - existe e seria desastrosa.

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