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Por que o Google Maps agora identifica terras indígenas

Parceria com a Funai indica territórios de diversas etnias pelo país. Novidade já havia sido implementada no Canadá

    O Google anunciou no domingo (2) a inclusão de territórios indígenas do Brasil nos mapas das suas plataformas Maps e Earth. É o resultado de uma parceria com a Funai (Fundação Nacional do Índio), que forneceu os dados oficiais sobre essas terras.

    Já é possível ver onde se localizam terras de etnias distintas, como os Yanomami (que vivem em Roraima e Amazonas), Guarani-Kaiowá (Mato Grosso do Sul) e Tupiniquim (Espírito Santo). É comum que uma mesma etnia possua mais de um território, caso haja comunidades distintas.

    13%

    do território brasileiro corresponde a terras indígenas em diferentes etapas do processo de demarcação

    É possível procurar as terras indígenas normalmente no espaço de busca do site ou aplicativo, por meio da etnia ou do nome do território — por exemplo, os Kayapó são um povo que vive em distintas terras demarcadas, entre elas a Trincheira Bacajá e a Badjônkôre, ambas no Pará.

    O contato do Google com indígenas brasileiros teve início em 2007, quando Almir Suruí, líder do povo Suruí que vive na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, conheceu o Earth e foi atrás da empresa para que ela mapeasse a cultura da sua etnia, o que se concretizou cinco anos depois.

    Pelas imagens de satélite do Earth é possível ver que os locais vizinhos das terras indígenas costumam possuir uma cobertura vegetal mais escassa do que dentro delas — seja por exploração de madeira, urbanização ou retirada de vegetação para pecuária ou agricultura. É desse modo que a empresa justifica a novidade: seria uma maneira de expor o papel decisivo de comunidades indígenas para a preservação ambiental do mundo, sobretudo na Amazônia, maior floresta tropical do planeta e região com grande diversidade de espécies vegetais e animais.

    Ter um espaço registrado em um mapa, ainda mais com o grande alcance do Google, é um símbolo de reconhecimento de uma comunidade. A inclusão de territórios indígenas no mapa é também uma forma de compensação por danos a esses povos no passado.

    Foto: Reprodução/Google Earth
    Fronteiras da terra indígena Sete de Setembro, com áreas muito mais desmatadas em volta.
    Entre Rondônia e Mato Grosso, terra indígena Sete de Setembro abriga cerca de 1.300 pessoas da etnia Suruí

    Não é a primeira vez que um mapeamento do tipo no Brasil é disponibilizado on-line. O ISA (Instituto Socioambiental), ligado à causa indígena, também permite uma busca por etnia ou por nome do território. Assim como o recurso do Google, o ISA mostra os limites de cada terra demarcada, além de apresentar dados como população e tamanho da área. O Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) também possui um mapa próprio, com dados sobre desmatamento dentro e nas redondezas das terras indígenas e sobre obras próximas dessas áreas.

    Em junho de 2017, o Google fez uma ação semelhante com comunidades indígenas no Canadá, incluindo o nome de aproximadamente 3.000 territórios no mapa do país. Foram anos de cobrança por parte de grupos indígenas para a inclusão nas plataformas da empresa.

    Territórios indígenas no Brasil

    O Brasil possui 704 terras indígenas em diferentes etapas do processo de demarcação. Para ganhar o status máximo de conservação e proteção estatal, é necessário passar por diversas etapas.

    Tudo começa com estudos por uma equipe comandada por antropólogos, a fim de averiguar a relação da comunidade indígena com o local. Os relatórios devem ser aprovados pela Funai e então passam por um período de contestação de partes interessadas — um agricultor com terras no local, por exemplo. Depois, a Funai encaminha o caso ao Ministério da Justiça, que tem um prazo para levar a demarcação adiante ou negá-la. O presidente da República precisa então homologar, e, em seguida, a terra passa a ser patrimônio da União e ganha o status de regularizada. Também existem as doações a populações indígenas, por terceiros ou pela União, o que origina as reservas indígenas — a diferença nesse caso é que não são locais ocupados historicamente por esses grupos.

    Essas etapas podem demorar anos. Além disso, em muitos casos existem tensões constantes pela posse de terras com proprietários rurais, situação de risco para a população local.

    Em 2017, o país vive um aumento na violência contra indígenas, com sucessivos episódios em diferentes Estados. Casos recentes que tiveram repercussão nacional foram os dois indígenas mortos em Dourados (Mato Grosso do Sul), em maio, e os dez feridos em Viana (Maranhão), em abril.

    ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto dizia que o mapeamento on-line do ISA não mostrava as fronteiras das terras indígenas, quando de fato mostra. A informação foi corrigida às 14h24 do dia 7 de julho de 2017.

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