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Como é o trabalho do fotojornalista citado num clipe do rapper Kendrick Lamar

Clipe da música ‘Element.’, divulgado pelo rapper americano na última semana de junho, contém referências ao fotojornalista negro Gordon Parks

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    No dia 27 de junho, o rapper Kendrick Lamar lançou o terceiro clipe de uma faixa do álbum “DAMN.”, de abril deste ano. Depois dos clipes de “Humble.” e “DNA.”, foi a vez de “Element.” virar vídeo.

     

    Desde “To Pimp a Butterfly”, seu terceiro álbum, o vídeo se tornou um componente importante da obra de Lamar, que é carregada de significados raciais e políticos. A partir, principalmente, do clipe da faixa “Alright”, a criação de um universo visual vem complementando a concepção de seu trabalho musical.

    O clipe de “Element.” foi dirigido pelo fotógrafo de moda alemão Jonas Lindstroem, com colaboração do próprio rapper e do amigo de infância Dave Free. Nele, “a negritude, ou a presença dinâmica de corpos negros e das vidas que os habitam, é reimaginada não só lírica e narrativamente, mas visualmente”, diz um artigo da revista “The New Yorker”. 

    Em sua narrativa, o clipe presta homenagem ao fotógrafo e cineasta Gordon Parks, reencenando fielmente, e em movimento, algumas de suas fotos. Parks foi uma figura central no movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA e morreu em 2006.

    O vídeo contém uma dose autobiográfica e recupera o tema que é uma preocupação constante do artista: a violência, seja ela policial, familiar, da vizinhança ou dele próprio.

    Amplamente elogiado pela crítica, principalmente a partir do álbum “To Pimp a Butterfly”, de 2015 (onipresente nas listas de melhores discos daquele ano), Kendrick Lamar também é uma voz artística atual importante na denúncia da marginalização e da violência sofrida pelas pessoas negras nos EUA, ecoando as demandas do movimento “Black Lives Matter”. 

    Um vídeo de 2016 do site americano “Vox” aponta o rapper como uma das figuras centrais de um retorno às raízes politizadas do rap americano.

    Parks e suas fotos

    Gordon Parks nasceu em 1912 nos EUA e comprou sua primeira câmera aos 25 anos. Aprendeu a fotografar sozinho e suas imagens se tornaram uma “crônica da experiência afro-americana nos Estados Unidos”, captando inclusive os momentos de maior agitação política e racial do século 20 nos EUA, durante o movimento pelos direitos civis.

    Fotografou para órgãos de Estado, para a revista “Vogue”, e depois passou a ser fotógrafo contratado da prestigiosa “Life”, revista de fotojornalismo fundada nos anos 1930, onde trabalhou durante 20 anos.

    Parks também é escritor, compositor, pintor e cineasta. Dirigiu o filme “Shaft” (1971) e com isso foi também um dos precursores do gênero cinematográfico “Blaxploitation”, que surgiu no início dos anos 1970 e colocou os negros como protagonistas e heróis das narrativas, lugar raramente ocupado, até então, por eles no cinema.

    Foto: Gordon Parks /The Gordon Parks Foundation
    Membro de gangue grafita parede no Harlem, em Nova York, em 1948. Foto integra a primeira história proposta à ‘Life’ por Parks
    Membro de gangue grafita parede no Harlem, em Nova York, em 1948. Foto integra a primeira história proposta à ‘Life’ por Parks
    Foto: Gordon Parks /The Gordon Parks Foundation
    'Ondria Tanner e Sua Avó Olham Vitrines', Alabama, 1956
    'Ondria Tanner e Sua Avó Olham Vitrines', Alabama, 1956
     
    Foto: Gordon Parks /The Gordon Parks Foundation
    Treinador trabalha o ombro de Muhammad Ali, na Flórida, em 1966
    Treinador trabalha o ombro de Muhammad Ali, na Flórida, em 1966
    Foto: Gordon Parks /The Gordon Parks Foundation
    Quartel general dos Panteras Negras em São Francisco, Califórnia, em 1970
    Quartel general dos Panteras Negras em São Francisco, Califórnia, em 1970
     

    Em quais momentos o clipe se apropria das fotos de Parks

    Usuários do Twitter e veículos de mídia não demoraram a identificar a correspondência entre cenas do clipe mais recente de Kendrick Lamar e o trabalho icônico do fotógrafo afro-americano.

    A revista “Dazed” fez uma lista das citações e das respectivas fotografias, em ordem de aparição no vídeo. O clipe aparece em cima e as fotos de Parks, embaixo:  

    “Menino com joaninha”, de 1963

    Foto: Reprodução
     

    “Em contraste com a brutalidade representada ao longo do vídeo, e o teor perverso da letra, esse frame é lindamente intimista. No vídeo, vemos a inocência das crianças muito próxima à raiva de homens adultos – documentando a trajetória dos homens negros nos Estados Unidos”, escreve a jornalista Natty Kasambala no artigo da revista “Dazed” . 

    Da série “Muçulmanos negros”, de 1963

    Foto: Reprodução
     

    O ensaio de Parks sobre a comunidade americana de muçulmanos negros os retrata de forma muito distinta da que eram mostrados pela TV e pelos jornais na época: uma horda perigosa de fanáticos. Destacam a importância da família, da disciplina e da fé para a comunidade. O ativista radical Malcolm X, de origem muçulmana, foi quem fez a ponte entre o fotógrafo e o universo dos negros praticantes do Islã nos EUA.

    “Desconhecido”, 1963

    Foto: Reprodução
     

    Foto não categorizada, mas provavelmente tirada junto aos muçulmanos no período de produção da série “Muçulmanos Negros”.

    “Sem título”, 1956

    Foto: Reprodução
     

    O Alabama, no sul dos Estados Unidos, foi o Estado em que Rosa Parks se recusou a sentar no fundo do ônibus, em 1956, como a segregação racial então determinava.

    Muitos dos cliques do fotógrafo (que aliás compartilha, por coincidência, o sobrenome da mulher que deflagrou a desobediência civil à segregação) se propõem a registrar os espaços separados para negros e brancos  –  normalmente sinalizados por placas em que se liam “colored” e “white”. Este é um dos exemplos da convivência tensionada e assimétrica entre negros e brancos no sul regido pela segregação.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto apontava o álbum “To Pimp a Butterly” (2015) como o segundo da carreira de Kendrick Lamar. Ele na verdade é o terceiro, lançado depois de “Section.80” (2011) e de “good kid, m.A.A.d  city”  (2012).  A informação foi corrigida às 13h02 do dia 3 de julho de 2017.

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